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Mario Ladeira e João Filipi Guimarães

Head de P&D Florestal da Bracell e Gerente Sr de P&D Florestal da MS Florestal, respectivamente

OpCP85

Reduzir incertezas para acelerar decisões
O melhoramento genético está entre os grandes responsáveis pela competitividade da silvicultura brasileira, com o eucalipto como sua expressão mais visível. Em poucas décadas, seleção, recombinação, experimentação e clonagem elevaram a produtividade média dos plantios de eucalipto de patamares próximos a 20 m³/ha/ano, nos anos 1970, para faixas que hoje superam 40 m³/ha/ano em boa parte da base florestal nacional. Mas convivemos, ainda hoje, com uma limitação conhecida de todo melhorista: desenvolver e colocar uma nova genética no campo levam tempo.
 
Esse desafio ganha outra dimensão quando o ambiente de produção muda em velocidade crescente. Variabilidade climática, novos riscos bióticos e ambientes mais restritivos aumentam a necessidade de materiais adaptados, enquanto anos ainda separam a geração de novos materiais de sua utilização em escala operacional. Entendemos que, nesse contexto, tão importante quanto desenvolver materiais superiores é fazê-los chegar mais rápido e com precisão ao ambiente onde podem gerar valor.
 
Acreditamos que esteja aí uma das maiores oportunidades atuais de inovação no melhoramento florestal. Mais do que uma ferramenta específica, a transformação em curso está na integração de diferentes fontes de informação para reduzir incertezas mais cedo e apoiar decisões melhores ao longo de todo o processo de desenvolvimento genético. 

Não se trata de substituir os fundamentos consolidados desde os anos 1970, mas de mudar como utilizamos informação para decidir dentro deles.

A genômica é uma das ferramentas que tornam essa mudança possível. Ao conectar informações do genoma ao desempenho observado em campo, conseguimos reconhecer mais cedo materiais de maior potencial e direcionar melhor os recursos de experimentação. 

Seu valor prático vai além de aumentar a precisão da seleção: está em reduzir incertezas antecipadamente e encurtar o caminho entre a geração de um novo material e sua validação para uso operacional. Esse ganho, porém, não é uniforme. A confiabilidade das predições cai em ambientes pouco representados nos dados de treinamento, e características de herança mais complexa ainda exigem validação robusta de campo.

Mas conhecer melhor o material resolve apenas parte da equação. Precisamos também aumentar a resolução com que enxergamos o ambiente. É nesse contexto que a ambientômica ganha relevância: o uso sistemático de dados climáticos, edáficos e topográficos para caracterizar os ambientes onde nossos materiais são avaliados e serão plantados. A interação genótipo × ambiente, por décadas tratada como uma dificuldade experimental a ser controlada, passa a ser encarada como uma fonte valiosa de informação para decisão.

Uma terceira camada vem ampliando a capacidade de geração de informação nos programas de melhoramento: a fenômica. Sensores embarcados em drones, imagens multiespectrais, LiDAR e outras tecnologias de fenotipagem em larga escala permitem coletar informações com frequência, escala e precisão incompatíveis com avaliações exclusivamente manuais. Mais do que aumentar o volume de dados, essas ferramentas ampliam nossa capacidade de descrever o desempenho dos materiais ao longo do tempo, criando novas oportunidades para compreender como genótipos respondem a diferentes ambientes e condições operacionais.

Sob essa perspectiva, o papel das novas tecnologias deixa de ser apenas ampliar nossa capacidade de análise e passa a ser reduzir incertezas em momentos mais precoces do processo de decisão.

Essa mudança começa antes mesmo da recomendação. Conhecer melhor a diversidade ambiental nos permite questionar onde e como experimentamos, buscando ambientes que representem os principais gradientes da base florestal. A pergunta deixa de ser apenas quantos experimentos temos e passa a incluir quanta informação cada experimento adiciona à decisão.

Esse mesmo raciocínio abre caminho para uma nova geração de modelos preditivos. Quando informações fenômicas, genômicas e ambientais são integradas, torna-se possível avançar de modelos que apenas descrevem onde um clone teve boa performance para modelos capazes de capturar conjuntamente as características do material e do ambiente, apoiando a predição de como diferentes genótipos devem responder ao longo da diversidade ambiental da base florestal. Seleção, experimentação e recomendação clonal passam a fazer parte de um mesmo sistema de decisão.

Talhão de alta produtividade da Bracell - Mato Grosso do Sul

Essa integração também aproxima definitivamente o melhoramento da silvicultura de precisão. Não buscamos simplesmente um clone superior, mas a melhor combinação entre material e ambiente. Em outras palavras, o material certo, no ambiente certo, aumentando a probabilidade de converter potencial genético em produtividade, estabilidade e valor realizados no campo.

Mas talvez a transformação mais profunda esteja no próprio desenho dos programas. Se informações genômicas, fenômicas e ambientais reduzem incertezas em momentos diferentes, faz sentido exigir que todos os materiais percorram exatamente as mesmas etapas e aguardem o mesmo tempo para avançar? Nossa resposta tem caminhado para programas mais dinâmicos, nos quais o nível de informação disponível e o risco remanescente determinam a velocidade de avanço de cada material.

Materiais com maior confiança de desempenho avançam mais rapidamente; outros recebem validação adicional direcionada à incerteza que ainda carregam. O objetivo não é eliminar experimentos nem simplesmente encurtar ciclos, mas fazer com que cada experimento responda a uma incerteza relevante e aproxime uma decisão.

Esse desenho traz uma consequência prática para a governança dos programas: risco deixa de ser tratado apenas no nível do clone individual e passa a ser gerenciado também no nível do portfólio, evitando que um material de excelente desempenho médio concentre área plantada além do que a diversidade genética da base recomenda. Decisões de avanço mais informadas olham não só para o potencial produtivo isolado, mas para o equilíbrio entre potencial, incerteza e exposição do portfólio como um todo.

Uma vez estabelecida a capacidade de predizer o desempenho de materiais em diferentes ambientes, surge outro desafio: transformar essas recomendações em decisões operacionais em larga escala. Afinal, a melhor recomendação biológica nem sempre corresponde automaticamente à melhor decisão operacional.

É aqui que agentes de inteligência artificial começam a ganhar espaço, orquestrando as recomendações dos modelos genômico-ambientais com restrições operacionais, como janela de plantio, disponibilidade de mudas, logística e demanda industrial. O objetivo não é substituir o modelo nem o julgamento do melhorista, mas ampliar a capacidade de tomada de decisão em sistemas cada vez mais complexos.

Acelerar, portanto, não significa assumir mais risco. Significa conhecer o risco mais cedo e saber onde ele ainda é alto demais para avançar. Da mesma forma, precisão não significa apenas aumentar a acurácia de um modelo, mas aumentar a qualidade das decisões sobre o que avançar, onde testar e onde plantar.

É por isso que acreditamos que a inovação no melhoramento florestal não está isoladamente na genômica, na ambientômica, na fenômica ou na inteligência artificial. Está na integração dessas ferramentas, com clareza sobre seus limites, para redesenhar a forma como geramos, testamos, selecionamos e alocamos novos materiais.

Em uma atividade de ciclos longos, velocidade passa a ser parte da inovação. O desafio não é apenas desenvolver materiais melhores, mas reduzir o tempo necessário para identificá-los, validá-los e posicioná-los corretamente no campo, sem abrir mão do rigor que sustenta a confiança do setor.

O novo melhoramento será mais rápido e mais preciso não porque avalia mais, mas porque aprende mais cedo. E o futuro da área não será definido pela capacidade de gerar mais dados, mas pela capacidade de transformar esses dados em decisões confiáveis antes que o ciclo biológico termine.

Mosaico de plantios da Bracell-MS, resultado da alocação de materiais às diferentes condições da paisagem.