O setor de base florestal de Santa Catarina construiu, ao longo de décadas, uma posição de destaque na economia estadual. Essa trajetória resulta de uma cadeia produtiva que integra produção florestal, processamento industrial, fabricação de painéis, madeira serrada, componentes, móveis, papel e celulose.
Em 2025, os produtos do complexo florestal responderam por 14,8% das exportações catarinenses, alcançando aproximadamente US$ 1,8 bilhão. Desse total, 77,1% corresponderam a produtos ligados à madeira e aos móveis, segmentos de maior transformação industrial e geração de valor.
Os números evidenciam a relevância do setor e sua exposição às mudanças no comércio internacional. Entre 2024 e 2025, as exportações do complexo florestal catarinense recuaram 4,8%. O movimento não foi uniforme. Enquanto a madeira serrada cresceu 8% e o papel kraft avançou 19,5%, produtos importantes sofreram retrações expressivas: obras de carpintaria para construções caíram 23,2%, madeira em forma recuou 34,9%, painéis de madeira aglomerada diminuíram 18,2% e o MDF apresentou queda de 11,1%.
O cenário tornou-se mais desafiador com o aumento das tarifas aplicadas aos produtos brasileiros nos Estados Unidos. Madeira processada, painéis, molduras, móveis e componentes estiveram entre os segmentos mais pressionados.
Para Santa Catarina, o efeito foi especialmente relevante, porque, em 2024, os Estados Unidos absorviam 50,1% das exportações catarinenses de madeira, painéis e molduras e 44,6% das vendas externas de móveis e componentes. Quando quase metade da produção exportada depende de um único destino, qualquer alteração tarifária, econômica ou regulatória influencia toda a cadeia.
Os resultados de 2025 demonstraram essa vulnerabilidade. As exportações catarinenses de madeira e móveis para os Estados Unidos caíram 22,4%, passando de aproximadamente US$ 768,3 milhões para US$ 596,1 milhões. Entretanto, a retração não ficou restrita ao mercado norte-americano. México, Reino Unido e China também reduziram suas compras, indicando que o setor enfrentou, simultaneamente, incerteza comercial e enfraquecimento da demanda em mercados tradicionais.
No primeiro semestre de 2026, o complexo florestal exportou US$ 831,6 milhões, valor 13,8% inferior ao registrado no mesmo período de 2025. A retração foi mais intensa no início do ano, chegando a 24,6% em fevereiro. A partir de abril, a queda perdeu força, até alcançar 1,7% em junho.
Essa acomodação é importante, mas ainda não representa recuperação. Ela demonstra que as empresas começaram a buscar alternativas, embora os volumes perdidos ainda não tenham sido recompostos. Os impactos foram diferentes entre os segmentos. De janeiro a junho de 2026, as exportações de móveis diminuíram 29,6%, as de madeira recuaram 15,3%, e as da produção florestal caíram 11,9%. Em sentido contrário, papel e celulose cresceram 3,7%.
Essa diferença confirma que choques externos atingem cada atividade conforme sua exposição tarifária, seus canais de comercialização e sua capacidade de redirecionar a produção. Não existe, portanto, uma solução única para todo o complexo florestal.
Em meio às perdas, surgiu um sinal estratégico: a redução da concentração dos destinos.
O índice de concentração das exportações do complexo florestal catarinense passou de 1.933 pontos, em 2024, para 941 pontos no primeiro semestre de 2026. Na prática, o setor saiu de uma condição de concentração moderada para uma distribuição mais competitiva. Foram identificados sete novos mercados, três destinos reativados e 39 mercados com ampliação das compras.
Essa redistribuição ocorreu em diferentes regiões. O México apresentou aumento de aproximadamente US$ 20,3 milhões nas compras do setor, enquanto Espanha e África do Sul avançaram cerca de US$ 11,5 milhões e US$ 11,4 milhões, respectivamente. Itália e Peru também registraram ganhos.
Surgiram ou foram reativados destinos como Armênia, Mauritânia, Jordânia, Benin, Nigéria, Palestina, Somália, Bahamas, Cabo Verde e Noruega. Nenhum desses mercados, isoladamente, substitui a importância dos Estados Unidos. O valor estratégico está na soma de diferentes destinos, produtos e oportunidades.
Diversificar, contudo, não significa apenas vender o mesmo produto para outro país. Cada mercado possui exigências próprias de qualidade, dimensões, tratamentos, certificações, documentação e logística.
A diversificação efetiva exige inteligência de mercado, adaptação industrial e atuação institucional coordenada. É necessário compreender quais produtos encontram melhor aceitação em cada região, quais barreiras precisam ser superadas e onde a indústria catarinense apresenta vantagens competitivas.
Nesse processo, a agregação de valor deve permanecer no centro da estratégia. Santa Catarina não pode limitar sua competitividade ao fornecimento de matéria-prima. A força do setor está na capacidade de transformar madeira de florestas plantadas em produtos industriais, componentes para a construção, móveis, painéis, embalagens e soluções capazes de atender a padrões internacionais. Quanto maior o conteúdo tecnológico, a qualidade e a confiabilidade incorporados ao produto, maiores são as possibilidades de acesso a mercados e menor é a dependência de disputas baseadas apenas em preço.
É fundamental fortalecer a integração entre empresas, entidades representativas, instituições de pesquisa e órgãos públicos relacionados ao comércio exterior. A abertura de mercados, o reconhecimento de requisitos técnicos, a redução de entraves documentais e a construção de acordos comerciais não dependem somente do esforço individual de cada indústria. São agendas coletivas, que exigem continuidade, representação técnica e diálogo permanente.
Os dados mostram que o setor florestal catarinense está diante de uma transição. A perda de exportações é relevante e não deve ser minimizada, mas a reação já começou. A queda da concentração, a entrada em novos destinos e o crescimento em mercados de diferentes continentes demonstram capacidade de adaptação. O desafio agora é transformar uma resposta emergencial em estratégia empresarial de longo prazo.
O mercado norte-americano continuará sendo essencial, e preservar essa relação deve permanecer como prioridade. Porém, a experiência recente mostrou que depender excessivamente de um único destino amplia riscos para empresas, trabalhadores, produtores florestais e municípios ligados à cadeia da madeira. A diversificação não representa abandono de mercados consolidados; representa a construção de segurança comercial.
A trajetória do setor catarinense sempre foi marcada por investimento, trabalho, conhecimento técnico e capacidade de transformação. O próximo ciclo dependerá dessas mesmas características, acrescidas de uma visão comercial mais ampla. Diversificar produtos, destinos e canais de venda não é apenas uma resposta às tarifas. É uma estratégia para garantir competitividade, estabilidade e crescimento sustentável à base florestal de Santa Catarina.