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Ana Paula Dalla Corte

Professora de Inventário e Sensoriamento Remoto na UFPR - Universidade Federal do Paraná

OpCP84

Da origem da Engenharia Florestal aos desafios da nova geração
A cada marco setorial, a universidade formou profissionais capazes de responder às demandas dominantes de seu tempo. Neste texto, buscarei explorar a história da formação florestal brasileira, apoiada nas mudanças e evoluções do setor. 
 
Podemos iniciar essa reflexão com a geração dos precursores, os baby boomers (nascidos entre 1946-1964), entre as décadas de 1960 e 1970, período em que o setor demandava a criação da profissão e a formação de uma identidade profissional. O setor, por sua vez, ainda não possuía a escala empresarial e tecnológica que viria depois. Por isso, tinha como principal propósito formar profissionais capazes de explicar, defender e construir o próprio campo de atuação da Engenharia Florestal. 
 
Entre as décadas de 1970 e 1980, essa geração consolidou a demanda pela expansão dos plantios florestais, dos projetos industriais e do suprimento de madeira. O ensino precisava formar profissionais com perfil amplo, generalista, com forte vivência de campo e capacidade de atuar em ambientes pouco estruturados. O engenheiro florestal era preparado para medir, plantar, manejar, colher, classificar, organizar equipes e responder a desafios operacionais. 

Nas décadas de 1980 e 1990, em meio à transição dos baby boomers para a geração X (nascidos entre 1965-1980), o setor seguiu evoluindo e ganhando escala, com o amadurecimento dos plantios e das empresas florestais. Na academia, houve consolidação técnica e avanço na busca por especialização e aumento da produtividade. A formação deixava, assim, de ser apenas fundadora ou expansionista para se tornar mais especializada. 

Já entre os anos 1990 e 2000, com predominância da geração X, observou-se no setor o fortalecimento da agenda ambiental, da pressão social, das certificações e da regulação. Nesse contexto, a academia passou a incorporar disciplinas voltadas à integração entre produção e conservação dos ambientes florestais. 

Entre 2000 e 2010, as gerações X e millennials (nascidos entre 1981-1996), com predominância destes últimos, ingressaram com força na graduação e no mercado de trabalho. O setor já se mostrava mais consolidado, empresarial, internacionalizado, certificado e pressionado por indicadores de sustentabilidade. 

Esse cenário levou a academia a incorporar temas como certificação florestal, responsabilidade socioambiental, gestão da qualidade, planejamento estratégico, economia florestal, relações comunitárias, governança e, posteriormente, ESG. Também mudou a forma como o profissional passou a enxergar a carreira, antes mais associada à estabilidade e à ascensão hierárquica, e agora ligada a propósito, desenvolvimento, mobilidade, aprendizado contínuo e impacto. Essa geração também precisou se adaptar ao ambiente digital ao longo da juventude e da maturidade. 

A geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) chega aos cursos de Engenharia Florestal pouco após 2010 e passa a predominar nas salas de aula nos anos 2020. Crescida em um ambiente digital, de conectividade permanente, redes sociais, smartphones e acesso instantâneo à informação, encontra um setor também transformado: mais tecnológico, mecanizado, globalizado e pressionado por metas climáticas, ambientais e sociais.

Essa mudança reposiciona a formação profissional, que passa a exigir uma combinação mais sofisticada de competências: capacidade analítica e visão integrada para conectar campo, dados e sustentabilidade, além do domínio de áreas como geotecnologias, climatologia, ecofisiologia, modelagem, carbono, restauração, ESG e análise de dados. 

Nesse encontro surge um dos maiores paradoxos da formação florestal contemporânea: nunca as florestas foram tão essenciais para a economia, a agenda climática e a bioeconomia, mas o setor talvez nunca tenha enfrentado tanta dificuldade para atrair, formar e reter jovens profissionais. Ainda não há resposta definitiva nem rota plenamente consolidada para formar profissionais à altura dessas transformações, porém um ponto parece claro: a solução não virá apenas do aumento da carga horária ou da criação de novas disciplinas. 

O caminho passa por repensar a formação profissional, com currículos mais flexíveis, práticos, interdisciplinares e conectados à inovação. Essa revisão deve acompanhar a evolução do perfil esperado do profissional florestal: multidisciplinar, capaz de integrar engenharia, gestão e sustentabilidade; familiarizado com dados, geoprocessamento e automação; preparado para atuar no campo e na estratégia; e dotado de liderança, adaptabilidade e comunicação. O desafio é formar profissionais com visão sistêmica, capacidade analítica e preparo para um setor cada vez mais tecnológico, integrado e estratégico.

Muitas dessas competências, porém, não se desenvolvem apenas em sala de aula. Liderança, tomada de decisão, comunicação, adaptabilidade, leitura do território e compreensão das dinâmicas do campo amadurecem com a experiência e a vivência prática. Isso não significa que o caminho precise ser longo ou pouco estruturado, mas, sim, que algumas ações podem reduzir a distância entre a formação acadêmica e as demandas reais do setor. 
 
A aproximação entre empresas e instituições de ensino é uma das mais relevantes, pois conecta currículos, pesquisas, estágios, aulas práticas e projetos de extensão aos desafios da cadeia produtiva e da conservação. Uma formação que combine teoria e prática de forma contínua ajuda o estudante a compreender mais cedo a aplicação do conhecimento técnico. Ainda, o fortalecimento do ensino técnico e profissionalizante é essencial para preparar operadores, supervisores, viveiristas, técnicos de campo e outros profissionais indispensáveis ao sistema florestal. O setor não depende apenas de engenheiros, mas de uma rede ampla de competências, distribuída entre diferentes níveis de formação. 

A atualização curricular constante é fator-chave: será necessário revisar prioridades, integrar conteúdos e fortalecer experiências que desenvolvam capacidade analítica, visão prática e pensamento interdisciplinar. As empresas têm papel central nesse processo. Programas de trainee, trilhas de capacitação, mentorias, residências técnicas e formação de lideranças podem acelerar o amadurecimento profissional, especialmente quando combinam vivência de campo, desafios reais, acompanhamento próximo e oportunidades de desenvolvimento. Essas iniciativas ajudam o jovem profissional a transformar conhecimento em competência aplicada. 
 
Outro aspecto relevante é o incentivo à inovação e à pesquisa aplicada, aproximando universidades, centros de pesquisa, startups, empresas e produtores em torno de problemas concretos do setor. Ao participar de projetos reais, o estudante compreende com mais clareza a relevância da profissão e o impacto do seu trabalho. 

Por fim, valorizar a carreira florestal exige ir além do discurso sobre propósito. É fundamental comunicar melhor a importância estratégica do setor, suas oportunidades de crescimento e sua contribuição para temas que motivam as novas gerações. Essa valorização também precisa se refletir em reconhecimento profissional e remuneração compatível. Não é raro que jovens invistam anos em formação técnica, científica e prática e encontrem um mercado que nem sempre remunera de acordo com a complexidade do conhecimento exigido e das responsabilidades assumidas.

Ao mesmo tempo, outras atividades, muitas vezes com menor exigência de formação especializada, oferecem retornos financeiros mais imediatos e competitivos. Esse cenário amplia o desafio de atrair e reter talentos. A nova geração busca propósito, mas também perspectiva concreta de futuro, aprendizado, reconhecimento, qualidade de vida, desenvolvimento e remuneração coerente com sua dedicação. Portanto, cabe ao setor mostrar que a carreira florestal é estratégica, inovadora e capaz de gerar impacto positivo, ao mesmo tempo em que constrói trajetórias profissionais mais claras, valorizadas e economicamente atrativas. Sem isso, corremos o risco de formar profissionais altamente qualificados que, diante de melhores oportunidades em outros segmentos, acabam se afastando do próprio sistema florestal.