Me chame no WhatsApp Agora!

Wellington Cardoso

Coordenador de Meio Ambiente e Sustentabilidade Florestal da Sylvamo

AsCP26

Restauração florestal como base para resiliência a eventos extremos
As mudanças climáticas vêm se consolidando como um dos principais desafios ambientais do século, trazendo impactos diretos e crescentes nos regimes hidrológicos em diferentes localidades. Uma das manifestações mais evidentes das mudanças climáticas são as intensificações e maiores frequências de eventos extremos, secas prolongadas e situações de precipitação intensa. Estes eventos não só impactam nos padrões históricos de disponibilidade hídrica, mas também impulsionam a vulnerabilidade de ecossistemas, atividades produtivas e comunidades humanas.
 
O setor florestal ocupa uma posição estratégica e desafiadora ao mesmo tempo. A produção do setor depende diretamente da estabilidade do ciclo hidrológico para a manutenção da produtividade. Ao mesmo tempo, o setor atua diretamente através do manejo florestal sustentável na conservação e restauração ambiental de extensas áreas nativas, ampliando os benefícios em importantes bacias hidrográficas e biomas em que o setor florestal está inserido. 

A restauração e conservação de áreas naturais se solidificam como componentes fundamentais na estratégica da gestão hídrica, especialmente frente à intensificação de eventos climáticos extremos. Essas áreas naturais desempenham funções ecológicas importantes, como proteção de nascentes, regulação do escoamento de água superficial, redução de processos erosivos, recarga de aquíferos e manutenção da qualidade da água.

Buscamos na Sylvamo, a integração de ações de restauração ambiental com métricas consistentes de monitoramento dos benefícios ecossistêmicos, não apenas para atender a requisitos legais e de certificação, mas também para potencializar a resiliência hidrológica das paisagens produtivas, consolidando a restauração como um ativo estratégico na gestão sustentável da água e mudanças climáticas.

É preciso reconhecer que parte significativa das iniciativas de restauração ambiental ainda está ancorada em uma visão simplificada e, por vezes, equivocada do que significa recuperar um ecossistema em sua funcionalidade. Ainda buscamos reproduzir o paradigma de que restaurar é sinônimo de plantar árvores, como se todos os biomas devessem convergir para um único modelo florestal. 

No caso do Cerrado, por exemplo, essa abordagem não só é inadequada, como pode ser contraproducente. Tratando-se de um bioma cuja eficiência hidrológica está intrinsicamente ligada à sua estrutura savânica, desempenha papel central na recarga e manutenção de aquíferos.

Pesquisas e evidências geradas por instituições de pesquisa, como Instituto Florestal e a Fundação Florestal, já demonstram que intervenções no Cerrado realizadas de forma equivocada, buscando o adensamento de fragmentos savânicos, alteram processos fundamentais, como interceptação de chuva e redistribuição de água no solo.

O problema não é somente técnico, ele é conceitual. Enquanto mantivermos vieses de que áreas conservadas são somente aquelas com maciços densos de árvores, seguiremos tomando decisões que fragilizam justamente aquilo que buscamos proteger, a água.

Um dos impactos oriundos das mudanças climáticas é a ocorrência e severidade de incêndios florestais, ampliados por prolongados períodos de estiagem e aumento significativo das temperaturas. Estes fatores contribuem para ampliação da inflamabilidade de paisagens, elevando o risco de propagação e potencialização de impactos ambientais, econômicos e sociais dos incêndios florestais.

O setor tem avançado na adoção de estratégias integradas de mitigação, nas quais a gestão hídrica dentro dos mosaicos florestais desempenha papel central. Através da conservação florestal, bem como do manejo adequado da cobertura vegetal, contribuem para a criação de barreiras naturais, ampliando áreas com maior umidade relativa, reduzindo assim o avanço do fogo e a disponibilidade de material combustível.

Integrando práticas de gestão da água com estratégias de prevenção a incêndios, o setor fortalece sua capacidade de adaptação às mudanças climáticas, reduzindo riscos e aumentando a resiliência de suas operações e das paisagens naturais sob sua influência. 

Para além dos desafios advindos das mudanças climáticas, o setor florestal tem demostrado, de forma concisa, seu protagonismo ao atuar como agente ativo e pioneiro na construção de soluções sustentáveis. Ao conectar práticas de manejo florestal responsável, restauração ambiental e gestão hídrica com métricas consistentes, o setor transforma riscos em oportunidades de geração de valor ambiental e estratégico.

Sua atuação em escala de paisagem, atrelada ao uso de indicadores robustos, permite não apenas mitigar os efeitos de eventos extremos, mas também contribuir para segurança hídrica, a conservação da biodiversidade, estoque de carbono e estabilidade de ecossistemas. Mais do que um usuário de recursos naturais, o setor florestal tem-se posicionado há muito tempo como parte da solução, consolidando assim seu papel de protagonista em um modelo de desenvolvimento sustentável baseado em evidências e responsabilidade territorial.