Gerente de Genética e Melhoramento na Suzano e Consultores de Melhoramento e Biotecnologia, respectivamente
Poucas áreas contribuíram tanto para a competitividade da silvicultura brasileira quanto o melhoramento genético florestal. Grande parte dos expressivos ganhos de produtividade observados nas plantações comerciais de eucalipto nas últimas décadas é resultado direto da seleção genética, dos programas de cruzamento, da clonagem de materiais superiores e da integração contínua entre pesquisa e operação.
Graças a esse esforço de longo prazo, o Brasil consolidou uma das silviculturas mais produtivas do mundo. Os ganhos acumulados pelo melhoramento genético permitiram ampliar a produção de madeira em áreas cada vez menores, reduzir a pressão por expansão territorial, fortalecer a competitividade da cadeia de base florestal e oferecer contribuições relevantes para uma bioeconomia cada vez mais sustentável.
No entanto, os desafios que se apresentam para as próximas décadas são diferentes daqueles enfrentados pelas gerações anteriores de melhoristas. As mudanças climáticas impõem novas exigências aos programas de melhoramento. Eventos extremos mais frequentes, alterações nos regimes hídricos, novas pressões de pragas e doenças e uma crescente variabilidade ambiental exigem uma nova visão sobre o que significa sucesso em genética florestal.
Se no passado a principal pergunta era como aumentar a produtividade, hoje precisamos responder também como desenvolver florestas mais resilientes. Produtividade continua sendo fundamental, mas resiliência passou a ocupar posição igualmente estratégica. A capacidade de manter desempenho diante de ambientes cada vez mais desafiadores tornou-se um dos principais objetivos dos programas modernos de melhoramento.
Nesse contexto, a conservação dinâmica dos recursos genéticos de eucalipto ganha importância ainda maior. Coleções genéticas, o entendimento da evolução das espécies na origem durante milênios, bancos de germoplasma, populações-base e iniciativas de conservação representam muito mais do que um acervo científico, constituem uma reserva estratégica para o futuro da silvicultura nacional. Em um cenário de incertezas climáticas, a diversidade genética passa a ser uma das maiores garantias de adaptação. Preservar recursos genéticos significa preservar oportunidades, manter abertas possibilidades de solução para desafios que talvez ainda nem conheçamos.
Ao mesmo tempo, a inovação tecnológica amplia significativamente a capacidade dos programas de melhoramento. Ferramentas genômicas e fenômicas, biotecnologia, sensoriamento remoto, inteligência artificial, modelagem preditiva e ciência de dados vêm acelerando processos e ampliando a precisão das decisões. O que antes demandava muitos anos de observações e análises hoje pode ser realizado com maior velocidade, profundidade e assertividade.
Mas há uma reflexão importante.
Nenhuma dessas tecnologias gera impacto por si só.
Por trás de cada algoritmo, existe alguém formulando perguntas. Por trás de cada modelo preditivo, existe alguém interpretando resultados. Por trás de cada inovação, existe um profissional transformando conhecimento em valor para a sociedade. Talvez o maior desafio do melhoramento genético nas próximas décadas não seja tecnológico.
Talvez seja humano.
O desenvolvimento de um melhorista continua sendo uma construção de longo prazo. Trata-se de um profissional que precisa combinar sólida formação técnica com capacidade de observação, visão sistêmica e entendimento profundo dos processos biológicos. É uma formação construída pela convivência com diferentes gerações, pela experiência de campo, pelo aprendizado contínuo e pela exposição a desafios complexos.
O profissional de vanguarda que os programas de melhoramento exigirão no futuro deverá reunir características que vão muito além do domínio da genética. Necessitará de conhecimento técnico profundo, mas também de escuta ativa, habilidade de comunicação, paciência para compreender fenômenos biológicos de longo ciclo, criatividade para resolver problemas, autoconfiança para tomar decisões em cenários de incerteza, capacidade de atuar em múltiplas frentes e, acima de tudo, paixão permanente pelo conhecimento. A diversidade de ideias, experiências e perspectivas também será cada vez mais determinante para a qualidade das soluções construídas.
Da mesma forma, a inovação depende da construção de times de vanguarda. Equipes de alto desempenho são formadas por pessoas que compartilham objetivos comuns, praticam comunicação aberta e transparente, desenvolvem confiança mútua e valorizam diferentes pontos de vista.
São grupos capazes de transformar conflitos em aprendizado, assumir responsabilidade coletiva pelos resultados, adaptar-se rapidamente às mudanças e manter alinhamento com os objetivos estratégicos da organização. Em um ambiente de crescente complexidade, a inovação deixa de ser resultado do esforço individual e passa a ser consequência direta da qualidade das interações entre as pessoas.
Ao refletirmos sobre a importância das pessoas na construção da inovação, inevitavelmente somos conduzidos à história do programa de melhoramento genético da Suzano.
Em 2024, a Suzano completou 100 anos de história, no mesmo ano que seu programa de pesquisa em melhoramento genético completou 60 anos de existência. Mais do que a longevidade, o que torna essa trajetória especial é sua continuidade. Ao longo dessas seis décadas, a empresa evoluiu, novos desafios surgiram, tecnologias foram incorporadas e diferentes movimentos corporativos transformaram sua dimensão e seu alcance.
Entretanto, o programa de melhoramento genético manteve uma característica fundamental: sua soberania. Em vez de sofrer rupturas a cada transformação organizacional, o programa preservou sua essência e continuou evoluindo de forma consistente.
Nós, autores deste artigo, temos a satisfação de representar três gerações dessa história. Shinitiro Oda participou da construção dos alicerces do programa. Eduardo José de Mello contribuiu para sua consolidação e crescimento. Leandro de Siqueira representa a geração que hoje ajuda a projetá-lo para o futuro. Embora tenhamos vivenciado momentos distintos dessa trajetória de 60 anos, compartilhamos uma mesma convicção: o sucesso duradouro de um programa de melhoramento não é resultado de uma única geração, mas da capacidade de cada geração contribuir, preservar e transferir conhecimento para a seguinte.
Este legado também pertence às centenas de pessoas que dedicaram suas carreiras ao programa: pesquisadores, coordenadores, técnicos, laboratoristas, analistas e profissionais de campo que, muitas vezes longe dos holofotes, foram responsáveis por transformar observações em conhecimento, conhecimento em inovação e inovação em florestas que ajudaram a construir a competitividade da silvicultura brasileira.
Pertence igualmente às universidades, aos institutos de pesquisa, aos programas cooperativos e aos professores formadores que, ao longo dessas décadas, prepararam sucessivas gerações de geneticistas e melhoristas florestais. São eles que mantêm viva a base científica da qual emergem novas ideias, novos talentos e novas tecnologias.
A força de um programa de melhoramento não está apenas em sua capacidade de selecionar árvores superiores, mas também em sua capacidade de formar pessoas, conectar instituições e construir pontes permanentes entre ciência e aplicação prática.
Ao observarmos essa trajetória de sessenta anos, percebemos que o principal patrimônio acumulado pelo programa não está apenas em seus bancos genéticos, em suas populações de melhoramento ou em suas extensas bases de dados. Seu maior patrimônio está na transferência contínua de conhecimento entre gerações.
Cada melhorista que chegou ao programa trouxe novas ideias, incorporou novas ferramentas e ampliou sua capacidade de resposta aos desafios do tempo. Ao mesmo tempo, respeitou e valorizou aquilo que havia sido construído anteriormente. A inovação ocorreu de forma cumulativa. Em vez de substituir conhecimento, buscamos expandi-lo. Em vez de romper com o passado, procuramos utilizá-lo como plataforma para construir o futuro.
Talvez esse seja um dos segredos dos programas verdadeiramente duradouros: a capacidade de inovar continuamente sem perder sua identidade.
As florestas do futuro certamente serão resultado da convergência entre genética avançada, inteligência artificial, automação, ciência de dados e novas abordagens biotecnológicas. Contudo, nenhuma dessas tecnologias será suficiente se não houver pessoas preparadas para transformá-las em soluções reais. Estas tecnologias disruptivas deverão oferecer ao melhorista um maior tempo disponível para observações e análises em tempo real e no campo, onde os fenômenos e a produtividade de fato acontecem.
Depois de seis décadas de história, uma das principais lições deixadas pelo melhoramento genético é que a verdadeira inovação não começa em laboratórios, computadores ou algoritmos. Ela começa nas pessoas. São elas que preservam conhecimento, constroem pontes entre gerações, formam equipes, lideram transformações e garantem que cada novo avanço possa servir de base para o próximo.
Porque, no fim, as melhores florestas começam muito antes do plantio. Começam nas pessoas que dedicam suas vidas a construí-las.