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Fabio Pernassi Torres e Rodrigo Marcon Sanches

Gerente de Vendas de Agricultura de Precisão e Gerente de Engenharia, respectivamente, da Máquinas Agrícolas Jacto

OpCP84

Máquinas agrícolas autônomas: tecnologia, aplicações e perspectivas para a agricultura
A carência de mão de obra no meio rural é uma realidade com a qual a agricultura brasileira precisa conviver e que deve desenvolver alternativas estruturadas e tecnológicas, para continuar atendendo à crescente demanda por alimentos, fibras e energia renovável.
 
Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, a população rural brasileira, que era de cerca de 28 milhões de pessoas em 1940, passou para aproximadamente 25 milhões em 2022. Em contrapartida, a população urbana, que era de 12,8 milhões em 1940, cresceu cerca de 14 vezes, alcançando 177,5 milhões. Atualmente, 87% da população brasileira vive nas cidades.

Esse cenário impõe ao setor agropecuário o desafio de produzir cada vez mais com um contingente relativamente menor de pessoas no campo. Nesse contexto, a adoção de máquinas agrícolas autônomas apresenta-se como alternativa estratégica para mitigar os efeitos da escassez de mão de obra e elevar a eficiência operacional.
 
Conceito de Máquinas Agrícolas Autônomas: Máquinas agrícolas autônomas são equipamentos capazes de executar operações no campo com pouca ou nenhuma intervenção humana direta. Utilizam sensores (GPS/RTK, câmeras, radar e LiDAR), controladores eletrônicos, conectividade e softwares avançados que permitem perceber o ambiente, planejar trajetórias e operar com segurança — incluindo parada automática diante de obstáculos, operação eficiente e controle preciso de implementos.
 
Elas são preparadas para executar funções específicas e podem tomar decisões operacionais de forma independente, conforme parâmetros previamente definidos. Classificam-se como:
• Semiautônomos: parte da operação ainda é supervisionada ou executada por um operador;
• Totalmente autônomos: operam sem operador a bordo, com supervisão remota e protocolos estruturados de segurança.
 
Níveis de Automação: Na prática, variam do “autoguiamento” (operador a bordo, com direção automática) até a autonomia plena (sem operador no assento, com supervisão remota e protocolos de segurança). A máquina executa a operação sozinha em condições específicas e pode parar diante de obstáculos, mas o operador deve estar disponível para intervir.

Tipos de Máquinas Autônomas: Existe grande diversidade de máquinas autônomas em operação. Variam em tamanho e função, podendo ser multifuncionais (plataformas tipo pórtico com troca de ferramentas) ou específicas para uma atividade. Exemplos:
• Tratores com kits de automação para preparo de solo e plantio;
• Tratores elétricos autônomos para vinhedos, horticultura e outras culturas;
• Robôs de pequeno porte para capina mecânica e pulverização localizada;
• Pulverizadores autônomos para citricultura, fruticultura e viticultura;
• Plataformas de retrofit que transformam máquinas convencionais em autônomas;
• Equipamentos de aplicação ultra-localizada (spot spraying), com pulverização planta a planta e significativa redução do uso de defensivos.
 
Tecnologias Habilitadoras: A operação de máquinas autônomas depende da integração de tecnologias como sensores avançados, posicionamento global, inteligência artificial, robótica e conectividade.
 
Sensores avançados: incluem sensores ambientais, câmeras multiespectrais e infravermelhas, além de sistemas LiDAR, que utilizam feixes de laser para gerar mapas tridimensionais de alta precisão, permitindo que algoritmos interpretem o ambiente e apoiem decisões.
 
Posicionamento por satélite: receptores GNSS com correção RTK garantem precisão centimétrica, essencial para plantio e pulverização de alta exatidão.
 
Conectividade e IoT: possibilitam transmissão de dados, telemetria, atualizações remotas e supervisão em tempo real. A comunicação ocorre principalmente via 4G/LTE, com avanço gradual do 5G e uso complementar de internet via satélite.

Inteligência Artificial e aprendizado de máquina: processam dados dos sensores, identificam padrões e suportam decisões como ajuste de dose e reconhecimento de plantas daninhas.
 
Robótica e automação: atuadores e sistemas eletroeletrônicos controlam direção, transmissão, vazão de pulverização e demais funções mecânicas.
 
Aplicações no Brasil:
O Brasil já conta com operações agrícolas que utilizam de forma regular e rotineira as máquinas autônomas. Na citricultura paulista, empresas adotam pulverizadores autônomos para otimizar a aplicação de defensivos, ampliar a área tratada por operador e reduzir a exposição humana a produtos químicos.
 
Esses sistemas operam com supervisão remota, permitindo que um único supervisor acompanhe múltiplos equipamentos simultaneamente. Um exemplo é o Arbus 4000 JAV (Jacto Autonomous Vehicle), pulverizador autônomo desenvolvido para a citricultura e comercializado a partir de 2026, após anos de testes e ensaios em ambiente controlado e no campo, empresas como Citrosuco e Louis Dreyfus passaram a utilizar o sistema na lavoura.
 
Com tanque de 4.000 litros, oito ventiladores/defletores e sistema de pulverização convergente que acompanha o formato do pomar, o equipamento se destaca pela eficiência no controle de pragas e doenças. Seu sistema de automação permite que, com a supervisão de uma pessoa próxima à operação, até quatro máquinas trabalhem simultaneamente.
 
Modo de Operação Comboio: Para iniciar o trabalho, realiza-se voo de drone para mapear as linhas de plantio, gerando o projeto enviado para o tablet do supervisor. No modo “Siga o Líder”, os pulverizadores deslocam-se até o talhão. Após a definição de parâmetros como velocidade e volume de aplicação, iniciam automaticamente a operação.
 
Modo Siga o Líder: Ao chegarem no talhão onde irão trabalhar, o Supervisor aponta no tablet qual equipamento deve trabalhar em cada talhão, a velocidade determinada e o volume de aplicação recomendado, e os equipamentos iniciam de forma automática a operação.
 
Benefícios: 
A utilização de máquinas agrícolas autônomas traz diversos benefícios:
Produtividade: operação contínua, menos paradas e melhor aproveitamento das janelas ideais.
Precisão: redução de sobreposição e falhas, aplicações uniformes e menor desperdício de insumos.
Redução de custos: economia de insumos, menos retrabalho e maior área tratada com o mesmo quadro de funcionários.
Segurança: menor exposição a produtos químicos e sistemas que detectam obstáculos.
Gestão: coleta contínua de dados, integração com plataformas digitais e rastreabilidade das operações.
Sustentabilidade: menor impacto ambiental, menor compactação do solo e uso mais eficiente de recursos.

Os maiores benefícios ocorrem quando a autonomia está integrada a um ecossistema digital com telemetria, mapas, análise de dados e conectividade confiável. A utilização de máquinas agrícolas autônomas já é realidade no Brasil e no mundo. É uma resposta tecnológica consistente à escassez de mão de obra no campo e um avanço significativo em produtividade, segurança, precisão e sustentabilidade.

Com tecnologias maduras e em constante evolução, a autonomia agrícola tende a consolidar-se como componente irreversível da produção moderna de alimentos, fibras e combustíveis renováveis no País. 

Máquinas autônomas em operção na lavoura de laranjas: