Cooautora: Ariane Aparecida de Lima Bittencourt, Analista de Negócios do SENAI-Paraná
Transformar conhecimento em soluções aplicáveis exige infraestrutura, competências especializadas e conexão com os desafios reais das empresas. É nesse espaço que atua o Senai Tecnologia e Inovação (STI) do Paraná: uma rede que aproxima ciência, tecnologia e indústria, apoiando empresas no desenvolvimento e na aplicação de soluções.
O STI atua em quatro frentes principais: Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação; Análises e Ensaios Laboratoriais; Consultorias e Serviços Técnicos Especializados; e Ambientes de Inovação e Empreendedorismo. Essa estrutura atende desde melhorias de processos e qualidade até desafios que exigem pesquisa aplicada, protótipos e escalonamento tecnológico.
No Paraná, essa atuação é distribuída em uma rede de Institutos Senai de Tecnologia e Inovação e ambientes especializados. Mais do que reunir laboratórios, essa estrutura permite combinar competências em materiais, estruturas, química, meio ambiente, energia, processos produtivos, automação e tecnologias digitais.
Essa lógica é especialmente importante para a Engenharia Florestal. A inovação relacionada à floresta não está restrita à produção de madeira, celulose e papel.
Os recursos florestais podem originar materiais avançados, produtos químicos, energia, soluções construtivas e novas aplicações industriais. Da mesma forma, resíduos e subprodutos podem deixar de ser vistos apenas como passivos e passar a integrar novos ciclos produtivos.
É nessa perspectiva que os cases apresentados na V Semana de Aperfeiçoamento em Engenharia Florestal (Seaflor) ajudam a mostrar como uma rede de competências pode transformar desafios em oportunidades. São projetos desenvolvidos pelos Institutos Senai em parceria com empresas, universidades e outros atores, nos quais diferentes conhecimentos são mobilizados para desenvolver e validar soluções tecnológicas.
Um exemplo é o desenvolvimento de peças de madeira engenheirada para utilização em entrepisos. O projeto reuniu o Instituto Senai de Inovação em Engenharia de Estruturas e o Instituto Senai de Tecnologia em Madeira e Mobiliário para desenvolver elementos capazes de substituir a madeira maciça em determinadas aplicações, atendendo às exigências da construção civil. O projeto alcançou TRL 6.
Technology Readiness Level (TRL), ou nível de maturidade tecnológica, é uma escala utilizada para indicar o estágio de desenvolvimento de uma tecnologia, desde a pesquisa básica até a produção e comercialização. Essa referência ajuda empresas, pesquisadores e instituições de fomento a compreenderem o quanto uma solução já avançou e quais etapas ainda são necessárias para sua aplicação. No caso da madeira engenheirada, chegar ao TRL 6 significa ter avançado até a demonstração da tecnologia em ambiente relevante.
Outro exemplo evidencia o potencial de valorização dos resíduos florestais. Em um projeto voltado ao reaproveitamento de cascas de eucalipto, a pirólise do material foi estudada como rota para obtenção de briquetes, bio-óleo, biochar e extrato ácido. O briquete apresentou características adequadas para utilização como fonte de energia, com potencial de substituição de combustíveis empregados em operações industriais. O que antes poderia ser considerado apenas um resíduo passa, assim, a representar uma fonte de produtos e energia.
A economia circular também aparece quando diferentes cadeias industriais são conectadas. No desenvolvimento de dormentes ferroviários poliméricos e de concreto, foram utilizados resíduos das indústrias metalúrgica e moveleira, associados à nanotecnologia. O projeto reuniu competências de diferentes Institutos
Senai e alcançou TRL 6, mostrando que um resíduo industrial pode se tornar matéria-prima para uma nova aplicação. Na cadeia de celulose e papel, pesquisas envolvendo fibras de gramíneas e resíduos celulósicos avaliaram sua utilização para produção de micro e nanocelulose e como aditivo de resistência na fabricação de papel. A iniciativa amplia as possibilidades de uso de fontes alternativas de fibras e demonstra como a pesquisa aplicada pode transformar biomassa em materiais com propriedades específicas e maior valor agregado.
A mesma competência pode ser aplicada a outras biomassas. O desenvolvimento de painéis a partir da palha de cana-de-açúcar buscou transformar um resíduo agrícola em material com aplicações em embalagens e revestimentos acústicos. Embora não seja uma matéria-prima florestal, o projeto evidencia uma competência fundamental para a bioeconomia: desenvolver tecnologias capazes de converter diferentes resíduos em produtos de maior valor.
Esses exemplos mostram por que a inovação florestal precisa ser pensada de maneira transversal. Madeira, fibras, biomassa e resíduos podem alimentar diferentes rotas tecnológicas, enquanto automação, inteligência artificial, simulação e análise de ciclo de vida contribuem para processos mais eficientes e sustentáveis.
Para que essas oportunidades cheguem à indústria, entretanto, é necessário testar, validar, reduzir incertezas, desenvolver protótipos e escalar. É nesse processo que a atuação conjunta entre Institutos Senai, empresas, universidades e instituições de fomento se torna fundamental.
Atualmente, o Senai Tecnologia e Inovação do Paraná conta com mais de 670 colaboradores, mais de 23 mil metros quadrados de infraestrutura, mais de 1.450 empresas atendidas e carteira de projetos ativos superior a R$ 230 milhões. Mais importante do que os números é a capacidade de colocar conhecimento e infraestrutura a serviço de desafios concretos da indústria.
Os projetos apresentados na Seaflor reforçam uma mensagem: inovação nasce da conexão entre conhecimento e necessidade, pesquisa e aplicação, diferentes competências e diferentes atores.
Para a Engenharia Florestal, essa conexão abre uma perspectiva particularmente promissora. A base de recursos renováveis da cadeia pode sustentar uma nova geração de materiais, produtos, processos e soluções energéticas. Resíduos podem retornar aos ciclos produtivos. Biomassas podem ganhar novas aplicações. E tecnologias digitais podem ampliar a eficiência e a capacidade de tomada de decisão.
O desafio, portanto, não é apenas produzir mais. É produzir mais valor a partir dos recursos disponíveis. É nesse ponto que a tecnologia e a inovação podem contribuir para uma nova visão da Engenharia Florestal: uma engenharia capaz de olhar para a floresta não apenas como origem de produtos, mas como uma plataforma de possibilidades. Quando competências trabalham em rede, um resíduo pode se tornar matéria-prima, uma fibra pode se transformar em material avançado e um desafio industrial pode se converter em uma nova oportunidade.
Mais do que desenvolver tecnologias para a floresta, trata-se de desenvolver tecnologias a partir dela e conectá-las às necessidades de uma indústria que precisa ser cada vez mais eficiente, circular, competitiva e sustentável.
DA FLORESTA AO VALOR - RECURSOS FLORESTAIS: Biomassa, Madeira, Celulose, Resíduos e Subprodutos
