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Marcela Costa

HR Business Partner Sênior da Vallourec Florestal

OpCP84

Uma visão estratégica de RH
O contexto que nos desafia: Atuar como HR Business Partner na Vallourec Florestal significa encarar, com clareza e senso de urgência, uma equação desafiadora: de um lado, operações florestais altamente técnicas, distribuídas por municípios como Curvelo, Bocaiúva, João Pinheiro, Pompéu e Abaeté — todos no interior de Minas Gerais; de outro, um mercado de trabalho regional que ainda não acompanha o ritmo de crescimento e sofisticação do setor.
 
A Vallourec Florestal é referência pioneira no plantio e manejo de florestas de eucalipto voltadas para a produção de carvão vegetal. Suas atividades demandam profissionais com sólida formação técnica, especialmente nas áreas de colheita mecanizada, manutenção de equipamentos de grande porte e gestão operacional de campo. É justamente nesse ponto que o macrocenário regional impõe um dos maiores desafios de gestão de pessoas: a escassez de mão de obra qualificada.
 
Um cenário estrutural, não pontual: Ignorar a falta de mão de obra qualificada na região como um fenômeno passageiro ou meramente conjuntural seria um equívoco. O que se observa nas localidades onde atuamos é um desafio estrutural, resultado de décadas de 
subinvestimento em educação técnica e profissional no interior do País.

O trabalhador rural tradicional dessas regiões carrega habilidades valiosas — conhece profundamente o campo, demonstra resiliência e disposição —, mas raramente teve contato com o universo da operação mecanizada de colheita florestal. Essa realidade envolve equipamentos de alta complexidade tecnológica, como feller, skidder e garra traçadora. O resultado é um descompasso evidente entre o perfil disponível no mercado e o perfil exigido pelas operações.
 
Os dados internos da Vallourec Florestal traduzem esse cenário em números concretos: o tempo médio para fechamento de vagas era de aproximadamente 47 dias, evidenciando a dificuldade em encontrar candidatos com o mínimo de aderência técnica. Além disso, o cargo de Operador de Máquinas apresentava o segundo maior índice de desligamentos da empresa, com um turnover em torno de 7% — reflexo direto da combinação entre escassez de oferta qualificada, desafios de adaptação ao cargo e lacunas na jornada de desenvolvimento do trabalhador.

Esse retrato não é exclusivo da Vallourec Florestal. Conversas com outros atores do setor florestal na região, como, por exemplo, o Grupo Técnico de RH Florestal, confirmam um diagnóstico compartilhado: a demanda por profissionais técnicos cresce em ritmo superior à capacidade de formação local. Enquanto não enfrentarmos esse desafio em sua raiz — a formação —, continuaremos disputando os mesmos perfis escassos, elevando custos de recrutamento e comprometendo a retenção.

A resposta estratégica: formar para reter: Diante desse cenário, a Vallourec Florestal adotou uma abordagem que vai além do recrutamento tradicional: investir diretamente na formação da mão de obra local. Foram estruturadas duas iniciativas de destaque — a Escola de Operadores de Equipamentos de Colheita Florestal e a Escola de Mecânicos —, ambas desenvolvidas em parceria com o SENAR – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e com o Sindicato dos Produtores Rurais de Curvelo.
 
O desenho pedagógico das escolas combinou rigor técnico com aplicabilidade prática: aproximadamente 250 horas de treinamento teórico e cerca de 150 horas de treinamento prático, conduzidos por instrutores internos habilitados e reconhecidos pelo SENAR-MG. O diferencial não esteve apenas na carga horária expressiva, mas na lógica que orientou todo o processo: formar trabalhadores da própria região, com potencial real de efetivação, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento local e fortalecimento do quadro da empresa.
 
Os resultados confirmaram a aposta: 33% dos participantes foram efetivados no quadro da Vallourec Florestal ao término dos programas. Esse percentual, embora à primeira vista modesto, representa um valor estratégico significativo — profissionais com aderência cultural à empresa, já familiarizados com processos, equipamentos e exigências da operação. A parceria com o SENAR e com o Sindicato dos Produtores Rurais de Curvelo foi consolidada e tornou-se referência para iniciativas futuras, demonstrando que a colaboração entre empresa e entidades de ensino é um caminho viável e eficaz para o desenvolvimento dos territórios.
 
Gestão do conhecimento: o pilar que sustenta a qualificação: Tão importante quanto formar é assegurar que o conhecimento adquirido seja preservado, acompanhado e continuamente desenvolvido dentro da organização. É nesse ponto que se estabelece outro eixo estratégico da nossa atuação: a Gestão do Conhecimento na Vallourec Florestal.
 
A sistemática de capacitação operacional foi estruturada em treinamentos baseados nas instruções de trabalho e em qualificações específicas para cada função. Esse processo não é informal nem deixado ao acaso — ele é monitorado por meio de uma ferramenta objetiva e poderosa: o Mapa de Habilidades.

O Mapa de Habilidades é uma matriz que correlaciona o nível de conhecimento e qualificação de cada empregado com as instruções de trabalho e os treinamentos compulsórios aplicáveis às suas atividades. Em essência, trata-se de uma fotografia dinâmica da maturidade técnica de cada colaborador e de cada equipe. Por meio dessa ferramenta, é possível identificar lacunas de conhecimento, planejar ações de desenvolvimento direcionadas e acompanhar a evolução profissional ao longo do tempo.
 
Mais do que um instrumento de controle, o Mapa de Habilidades exerce uma função estratégica essencial: torna o desenvolvimento das pessoas visível, mensurável e passível de gestão. Em um setor em que a rotatividade pode comprometer a memória operacional da empresa, contar com um sistema que registra e valoriza a qualificação é uma forma concreta de proteger o capital humano e garantir a consistência das operações.
 
A evolução de cada empregado é demonstrada no mapa de forma progressiva, criando um senso de trajetória e reconhecimento que fortalece o engajamento e a retenção — dois elementos críticos em regiões onde as alternativas de emprego, ainda que limitadas, começam a se expandir com a chegada de novos empreendimentos do agronegócio.
 
O papel estratégico do RH nesse macrocenário: Olhar para o macrocenário da disponibilidade de mão de obra nas regiões onde a Vallourec Florestal atua é reconhecer que o papel de Recursos Humanos vai além do recrutamento e da administração de pessoal. Em um contexto de escassez estrutural, o RH precisa assumir a posição de agente ativo de desenvolvimento territorial, capaz de articular parcerias, criar soluções de formação e construir sistemas que protejam e valorizem o conhecimento organizacional.
 
As iniciativas que implementamos não foram apenas respostas a um problema operacional — representaram uma aposta em um modelo de atuação que coloca as pessoas e o desenvolvimento local no centro da estratégia. Os resultados, tanto nos indicadores operacionais quanto no fortalecimento das parcerias institucionais, confirmam que esse é o caminho certo.
 
O futuro da disponibilidade de mão de obra qualificada nas regiões do interior do Brasil depende, em grande medida, de empresas dispostas a assumir esse papel. Na Vallourec Florestal, essa é uma convicção que orienta cada decisão estratégica de Recursos Humanos. 

Alunos da Escola de Operadores de Equipamentos de Colheita Florestal da Vallourec Florestal