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Dagoberto Stein de Quadros

Professor aposentado de Engenharia Econômica e Economia Florestal da FURB - Universidade Regional de Blumenau

OpCP85

Empreendedorismo e inovação na silvicultura
Todos sabemos que na área do melhoramento genético do Eucalyptus e do Pinus, bem como na aplicação dos conhecimentos das geociências, o setor de base florestal é destaque internacional. Por outro lado, no desenvolvimento de máquinas e equipamentos e no financiamento de novas áreas de reflorestamento, temos muito a avançar.
 
É importante nos atentarmos para o fato de que, desde o início dos anos 1800, o tema empreendedorismo e inovação já é discutido. O economista Jean-Baptiste Say caracterizou nesta época que o empreendedor é o indivíduo que se baseia nos fatores de produção (terra, capital e trabalho) para transferir recursos de setores de baixa para os de alta produtividade, assumindo os riscos da atividade. Importante salientar que somente após a segunda guerra mundial é que surgem os fatores de produção modernos: a capacidade tecnológica e a capacidade empresarial.
 
Em 1942, Schumpeter apresenta a teoria da Destruição criativa afirmando que o empreendedorismo está no ato de perceber e aproveitar novas oportunidades. O empreendedor é o “motor do capitalismo”. Em termos macroeconômicos, o autor destaca que a inovação gera rupturas alterando os ciclos econômicos de forma contínua.
 
Em 1975, Sábato e Botana propõem uma articulação política-estratégica que define a inovação como sendo a união de esforços entre os Governos (como regulador e financiador da política), Universidades (com a formadora de pessoas e instituição de pesquisa) e a Empresariedade (como demandadores de conhecimento). Esta articulação é denominada de Triângulo de Sábato, um sistema de relação que caracteriza a inovação. Assim se conceituou Inovação  como um modelo de desenvolvimento.
 
Peter Drucker, em 1985, em sua obra Inovação e Empreendedorismo nos trouxe à discussão temas importantíssimos ao empreendedorismo. Sua mais conhecida contribuição está nas estratégias empreendedoras:
• Com tudo e de frente, seja líder do seu mercado;
• Bater-lhes onde eles não estão, com rapidez e força;
• Nichos ecológicos, específicos e especializados;
• Mudanças de valores e características, crie valores e observe as percepções.

Já Larry Farrell, em 1993, publica o best-seller Empreendedorismo: fundamentos das organizações empreendedoras, em que seus estudos indicam que todo empreendedor possui:
• Missão a Cumprir, é uma questão de sobrevivência, é um comprometimento pessoal;
• Visão produto/cliente, o cliente e o produto são um só corpo;
• Inovação Rápida, é necessário sentir o calor da ardente de criar;
•  Gente Automotivada, ame o que você faz, seja um exemplo.

Em seu livro Dez Tipos de Inovação, Larry Keeley apresenta em 1993 uma estrutura de inovação que se baseia em três categorias: a primeira com foco no funcionamento interno, a segunda com foco no produto ou serviço principal, e a terceira com foco no cliente. Uma importante contribuição veio em 2009, quando Tim Brown lançou o Design Thinking como um caminho para o fim das velhas ideias e que o processo tem de estar centrado no ser humano.

Nota-se que o conceito de inovação se alterou ao longo do tempo. De um modelo de desenvolvimento, passou a um modelo de gestão empresarial. Este fenômeno é comum na área da gestão de empresas principalmente quando surge uma nova expressão mágica e salvadora como a inovação. Nestes casos, invariavelmente, surgem arcabouços de conhecimentos colaterais à expressão da época, no entanto, estes sempre circulam em torno das cinco principais bases da ciência da administração que são o planejamento estratégico, o marketing, os recursos humanos, a gestão operacional e a análise econômica.
 
Atualmente se fala na quádrupla hélice, com a inserção da sociedade civil como quarta hélice, uma anomalia moderna e desnecessária. Também se discute atualmente que o foco da inovação deve estar na resiliência, ou seja, na capacidade humana de enfrentar momentos difíceis, mas seguir em frente. A inovação está se voltando ao advento da aceleração digital forçada, adicionada à exponencialidade da inteligência artificial. Muito ainda está por vir.

Conhecedores do histórico conceitual acima, da sua evolução ou retrocesso, e agora olhando para o setor de base florestal brasileiro, deve-se destacar que ele carece de ação no sentido da inovação e do empreendedorismo.

Um dos caminhos que temos é o de seguir os bons exemplos. Neste sentido, sugiro analisarmos o primeiro polo de inovação e parque tecnológico criado em Palo Alto, Califórnia/EUA, em 1951, o Stanford Research Park, criado com o esforço do município e de uma universidade, que é hoje considerado o epicentro do Vale do Silício e que dispensa apresentações.

No ano 2000, a partir do esforço da Prefeitura da cidade de Barcelona,  Espanha, foi fundado o “22@Barcelona”, um Distrito de Inovação que transformou uma zona industrial degradada em um polo tecnológico voltado a economia do conhecimento. Talvez o mais importante da Europa na atualidade.

No Brasil, também em 2000, foi fundado pelo Governo do Estado de Pernambuco, o “Porto Digital”, com o objetivo principal de reter talentos e revitalizar o centro histórico do Recife, e acabou sendo uma impressionante política pública de inovação e empreendedorismo.

No início da década de 2010, o Governo do Estado de Santa Catarina iniciou a concepção de um projeto de inovação que culminou com a criação da Rede Catarinense de Centros de Inovação. Com 20 unidades ativas ou em desenvolvimento no Estado de Santa Catarina, tem-se um grande exemplo de modelo de desenvolvimento calcado na Tríplice Hélice.

Na cidade de Blumenau-SC, estamos começando a transformar o nosso CIB – Centro de Inovação de Blumenau, no tão sonhado DIB – Distrito de Inovação de Blumenau, um passo importantíssimo no sentido de desenvolver uma microrregião a partir dos conceitos de inovação e empreendedorismo.

Pergunto onde estão os nossos exemplos? Infelizmente, talvez a melhor resposta seja a de que temos apenas iniciativas. Que, apesar do trabalho hercúleo de vários colegas e instituições, ainda não obtivemos grandes resultados. Carecemos de iniciativas contundentes no sentido de unir os esforços dos governos, das universidades e da empresariedade a favor da inovação e do empreendedorismo.

Temos muito trabalho a ser realizado, esta é a parte boa...

O setor de base florestal necessita incorporar no seu dia a dia expressões como Centros de Inovação, Distritos de Inovação, Ecossistemas e Hub, Planos de Negócios, Cocriação, Mentorias, Incubação, Startups, Pichts, Aceleradoras de Investimento, Investidores Anjos, Escritórios de Projetos e Captação de Recursos.

Foi muito fácil ser professor de empreendedorismo 30 anos atrás, também foi fácil participar de um projeto governamental de inovação há 15 anos. Difícil é saber o que vem pela frente. Após 40 anos labutando no setor, me pego a pensar em “Qual é o futuro do futuro da silvicultura brasileira?” Neste sentido, deixo algumas reflexões:
• Por que a base florestal está estagnada em 10.000.000 hectares reflorestados no Brasil?
• Não seria a hora de fomentarmos a inovação e o empreendedorismo no nosso dia a dia?
• Não está na hora de realmente investirmos nas pessoas?