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José Marcio Cossi Bizon

Head Florestal da Bracell MS

AsCP26

Manejo ecoeficiente para conservação da água
Gestão eficiente da água não se resume ao monitoramento de volumes captados, consumidos ou devolvidos ao ambiente. Embora essas métricas sejam fundamentais para orientar decisões e avaliar desempenho, a sustentabilidade hídrica começa muito antes: no solo, na vegetação e na forma como as paisagens produtivas são manejadas. Na produção florestal, traduzimos essa visão em práticas que vão muito além do plantio das árvores. 
 
Quando observamos a água sob a perspectiva da paisagem, percebemos que sua disponibilidade está diretamente relacionada à capacidade do ambiente de armazenar e regular os fluxos hídricos. E, neste contexto, o solo deixa de ser apenas um suporte para a produção e passa a ser uma das principais infraestruturas naturais para a conservação da água.

Portanto, investir no planejamento da conservação do solo e na adequada implantação das práticas de manejo contribui para aumentar a infiltração da água da chuva, reduzir processos erosivos e minimizar o assoreamento dos cursos d’água. Consequentemente, favorece-se a permanência da água no ambiente, fortalecendo a resiliência das paisagens produtivas e dos ecossistemas associados.

Além disso, o planejamento da implantação florestal também considera a paisagem de forma integrada: identifica áreas prioritárias para conservação, protege as áreas naturais e promove a recuperação de ambientes alterados. Essa abordagem contribui para fortalecer a conectividade ecológica e ampliar a capacidade dos ecossistemas de desempenhar funções ambientais essenciais, incluindo aquelas relacionadas à conservação dos recursos hídricos.

O avanço da tecnologia aplicada ao manejo florestal permite produzir de forma cada vez mais eficiente e responsável. É justamente nessa capacidade de conciliar produtividade e conservação que está a ecoeficiência: na utilização dos recursos naturais de forma racional, promovendo benefícios adicionais ao ecossistema, adotando práticas que reduzam impactos e contribuam para a manutenção dos serviços ecossistêmicos que sustentam os ciclos hidrológicos.
 
A conservação dos recursos hídricos também depende da manutenção dos processos ecológicos que sustentam o funcionamento das paisagens. Nesse sentido, ações como o monitoramento ambiental e patrimonial, a recuperação de áreas naturais, a restrição do acesso de animais domésticados aos ambientes nativos, a prevenção de incêndios e os programas de educação ambiental contribuem para reduzir pressões sobre o meio ambiente e fortalecer sua capacidade de conservar solo, água e biodiversidade. São iniciativas complementares que reforçam a conexão entre produção responsável e conservação ambiental.

Grande parte das áreas atualmente destinadas ao cultivo de eucalipto no Mato Grosso do Sul ocupa antigas áreas de pastagens, que estavam em diferentes níveis de degradação. Mais do que uma mudança de uso da terra, esse processo representa uma oportunidade de restaurar funções ecológicas essenciais da paisagem por meio da adoção destas práticas conservacionistas, o manejo adequado para conservação do solo e planejamento ambiental.
 
Na minha visão, as métricas da gestão hídrica precisam ir além dos indicadores tradicionais de captação e consumo. A capacidade de infiltração da água no solo, o controle de processos erosivos, a recuperação de áreas degradadas, a conservação da vegetação nativa e a proteção das áreas sensíveis da paisagem também devem ser considerados indicadores relevantes. Esses parâmetros ajudam a compreender não apenas o quanto de água é utilizado, mas principalmente quão eficiente é o território em conservar, regular e disponibilizar esse recurso ao longo do tempo.

Em um cenário marcado por mudanças climáticas e crescente pressão sobre os recursos naturais, conduzir a sustentabilidade ambiental com métricas claras na gestão da água significa compreender que a água não deve ser analisada de forma isolada. Ela é reflexo da qualidade das paisagens que construímos, da forma como manejamos e conservamos o solo, que reflete a capacidade de integrar produção, conservação e inovação em uma única estratégia de desenvolvimento sustentável. Reconhecer essa relação amplia a compreensão da gestão hídrica e fortalece a adoção de indicadores capazes de refletir, de forma mais abrangente, a sustentabilidade dos sistemas produtivos.