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Carlos Roberto Borba Rossetto

Gerente Geral de Marketing e Vendas da Komatsu Forest

OpCP84

Gargalos e soluções para um futuro mais produtivo
O campo que não para, mas que precisa de novas mãos: O setor florestal brasileiro é um dos pilares da economia nacional. Com uma cadeia produtiva que vai do preparo do solo à colheita, passando pelo baldeio e transporte, o segmento movimenta bilhões de reais ao ano e coloca o Brasil entre os maiores produtores de celulose, papel e madeira do mundo. No entanto, por trás dessa grandeza produtiva, esconde-se um desafio que cresce em silêncio e que vem tirando o sono de gestores, operadores e executivos do setor: a escassez de mão de obra qualificada.
 
Falar sobre gargalos de pessoal na operação florestal não é novidade. Mas a intensidade com que esse problema se apresenta hoje e a velocidade com que precisa ser enfrentado colocam o tema no centro do debate estratégico das empresas que operam nesse mercado. 
 
Afinal, não basta ter as melhores máquinas se não há operadores suficientes e bem-preparados para conduzi-las com segurança e eficiência. Entregar um bom resultado está diretamente ligado à qualidade da mão de obra que está trabalhando ali.

Um diagnóstico honesto: A escassez de operadores qualificados para equipamentos florestais tem raízes profundas. Diferentemente de outros segmentos industriais, a operação florestal ocorre em ambientes remotos, com jornadas exigentes, terrenos acidentados e condições climáticas adversas. Isso, por si só, já reduz significativamente o universo de candidatos dispostos a encarar a rotina do campo.

Some-se a isso a complexidade técnica das máquinas modernas. Harvesters, forwarders, feller bunchers, skidders e plantadeiras com sistemas de controles eletrônicos e de gestão intuitivos, mas cada vez mais preparados para obter dados de como o dedo da mão e o pé do operador se comportam a cada segundo. 

Operar essas máquinas com excelência demanda treinamento especializado, tempo de prática e uma curva de aprendizado que não é trivial. O mercado não forma operadores na velocidade em que as operações florestais crescem e se expandem. 

Outro ponto crítico é a rotatividade. O turnover elevado nas equipes de campo gera um custo silencioso e devastador: cada operador que sai leva consigo horas de treinamento, experiência acumulada e produtividade que dificilmente são repostas de imediato. Recrutar, contratar, treinar e aguardar a maturação de um novo operador podem levar meses — e o ciclo se repete com frequência preocupante. Se perde no campo e no custo, porque essa rotatividade tem um valor econômico grande também no departamento que cuida das pessoas, impactando a eficiência do negócio principal da empresa.

O envelhecimento da força de trabalho no campo também contribui para o cenário. A geração mais jovem, cada vez mais urbana e conectada, na maioria, não enxerga no trabalho florestal uma carreira atrativa — ao menos não no modelo tradicional. A distância das cidades, a falta de conectividade nas áreas de operação e as condições de alojamento em algumas operações são fatores que afastam talentos que poderiam renovar o setor.

Por fim, há o desafio da produtividade. Mesmo quando se tem operadores disponíveis, garantir que cada turno extraia o máximo potencial da máquina é um objetivo que raramente se atinge de maneira consistente. A variação de rendimento entre operadores é expressiva — e essa diferença se traduz diretamente em custos e resultados para a operação.

Caminhos que já estão sendo trilhados: Empresas líderes do segmento de equipamentos florestais — aquelas que não se limitam a fabricar máquinas, mas que enxergam o ambiente completo da operação — já compreenderam que o problema da mão de obra não pode ser ignorado ou terceirizado. É preciso ser parte ativa da solução.

Um dos caminhos mais sólidos e duradouros para enfrentar a escassez de operadores é o investimento em programas estruturados de formação de base. Trata-se de ir além do treinamento técnico pontual e construir uma jornada de capacitação que forme o operador desde o início — ensinando não apenas a operar a máquina, mas a compreender seus sistemas, interpretar dados, identificar falhas e trabalhar com segurança. 

Programas desse tipo, quando desenvolvidos em parceria com escolas técnicas, instituições de ensino e comunidades locais próximas às áreas de operação, têm o potencial de criar um pipeline contínuo de profissionais aptos a ingressar no setor. Mais do que resolver o problema imediato, eles constroem uma base sustentável para o futuro.

Simuladores de operação são ferramentas valiosas nesse contexto. Permitem que o treinando acumule horas de prática em ambiente controlado, sem risco para a máquina ou para a floresta, reduzindo o tempo necessário para que um operador novato atinja um nível de produtividade aceitável. O custo do simulador é amplamente compensado pela redução de danos, retrabalho e tempo de nivelamento.

Tecnologia como aliada: autonomia e teleoperação: Se a formação de base representa a solução de médio e longo prazos, a tecnologia oferece respostas para o curto prazo e abre perspectivas transformadoras para o futuro da operação florestal. Duas tendências merecem atenção especial: os movimentos autônomos e a teleoperação.

1. Harvester de pneus em colheita de eucalipto. - 2. Programa de treinamento em simuladores para formação e atualização de Operadores. - 3. Teleoperacão de carregamento de toras no pátio em teste para operação em campo.

Os movimentos autônomos já são realidade em algumas funções específicas. Sistemas que controlam automaticamente o cabeçote harvester, otimizam o posicionamento do forwarder durante o carregamento ou regulam a pressão hidráulica conforme o terreno, reduzem a dependência da habilidade individual do operador e aumentam a consistência do rendimento. Um operador mediano, assistido por automação inteligente, pode entregar resultados próximos aos de um operador experiente — e isso muda completamente o cálculo da produtividade.
 
A teleoperação, por sua vez, abre uma fronteira ainda mais ampla. A possibilidade de operar uma máquina florestal remotamente, a partir de um centro de controle localizado em área urbana, resolve de uma só vez vários dos problemas listados anteriormente: elimina a necessidade de o operador estar fisicamente em campo, amplia o universo de profissionais elegíveis para a função, melhora as condições de trabalho e facilita a atração de talentos mais jovens.

Nativos digitais familiarizados com interfaces tecnológicas e até mesmo os aposentados, que deixaram a carreira para trás pelas intempéries do dia a dia, podem ser provocados a atender ao mercado de trabalho de operadores, sendo realizado em uma sala com ar condicionado e café de máquina.

Ainda estamos nos primeiros capítulos dessa história. A teleoperação em ambientes florestais impõe desafios técnicos significativos — conectividade em áreas remotas, latência nas comunicações, percepção do ambiente em tempo real, segurança dos sistemas. Mas o avanço das redes de comunicação, a expansão da cobertura de dados e o desenvolvimento de sensores cada vez mais precisos indicam que esse caminho é inevitável e bem possível. As empresas que investirem agora em pesquisa e desenvolvimento nessa área estarão à frente quando a tecnologia estiver madura para escala.

Máquinas mais produtivas e eficientes: fazer mais com menos: Outra frente fundamental de atuação é a própria evolução dos equipamentos. Máquinas mais produtivas, com maior disponibilidade mecânica e menor tempo de manutenção, reduzem a pressão sobre a quantidade de operadores necessários. Se um harvester de nova geração produz 20% mais metros cúbicos por hora do que seu antecessor, isso significa que a mesma operação pode ser realizada com menos turnos, menos máquinas e, consequentemente, menos operadores.

E essa evolução de produtividade dos equipamentos se faz clara: máquinas mais eficientes vêm se posicionando ao longo dos anos com maestria, elevando o patamar de metros cúbicos por hora nas principais atividades de colheita — e há uma evolução que vai ser ainda muito maior a curto prazo nas etapas do plantio.

O monitoramento remoto e a telemetria avançada permitem que gestores acompanhem em tempo real o desempenho de cada máquina e de cada operador, identificando desvios, antecipando falhas e ajustando estratégias de forma dinâmica. 

Dados bem utilizados são uma fonte poderosa de produtividade. Hoje as informações que estão na tela da máquina, com os objetivos definidos de resultado para operador, permitem a ambos (o gestor e o operador) conferir em tempo real se o “pace” está dentro do prometido. Interpretar isso de maneira estruturada e ágil faz o jogo mudar dentro dos minutos daquele jogo, e isso é um caminho muito pouco percorrido com a capacidade de entrega já existente nos equipamentos.

O caminho é longo, mas a direção está clara: Seria ingênuo afirmar que as soluções descritas acima resolverão o problema da mão de obra no setor florestal no curto prazo. O caminho é longo. A formação de uma nova geração de operadores qualificados demanda anos. A maturação das tecnologias de autonomia e teleoperação para aplicações florestais em larga escala igualmente requer tempo, investimento e muita pesquisa aplicada.

Mas a direção está clara. As empresas que compreenderem que o gargalo de mão de obra é, também, uma oportunidade de inovação sairão na frente. As que combinarem investimento em gente, com programas sérios de formação e valorização profissional, com investimento em tecnologia (automação, dados, conectividade) serão as que definirão os padrões de operação do setor nos próximos anos.
 
O setor florestal brasileiro tem todos os ingredientes para liderar essa transformação: escala de operação, tradição técnica, capacidade de investimento e, cada vez mais, consciência de que o futuro do negócio depende de como enfrentamos os desafios de hoje. A mão de obra é um desses desafios. E ele merece — e já está recebendo — a atenção que sempre mereceu.