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Armando Luís Pironel

Diretor da Green Head Industrial e Serviços

Op-CP-28

Uma amazônia viável

Em 1967, o americano Daniel Ludwig iniciou a implantação de grande projeto na região do Vale do Jari, na divisa do Pará com o Amapá. Como parte desse projeto, Ludwig implantou uma fábrica de celulose que deveria ser abastecida por cerca de 200 mil hectares de plantações florestais.

Usou duas espécies no plantio, a Gmelina arborea, de origem asiática, e Pinus caribaea. Oposto aos bem-sucedidos plantios de pinus, as plantações de Gmelina fracassaram principalmente por sua excessiva demanda por solos férteis e suscetibilidade ao ataque de fungos da região.

Na época do fracasso de Ludwig com a Gmelina, o eucalipto já era plantado com sucesso no Sul do País há muitos anos, e o setor de florestas plantadas de fibra curta crescia, principalmente com o desenvolvimento de equipamentos que produziam papel somente com essas fibras. Assim, a mudança para plantações de eucalipto foi determinante para que o projeto de Ludwig sobrevivesse até os dias de hoje.

As taxas de produtividade alcançadas com o eucalipto na região foram comparáveis às das melhores plantações do Sul do País. Tal sucesso ocorreu, principalmente, graças à aplicação de modernas técnicas de manejo e melhoramento genético desenvolvidas no setor após anos de pesquisa.

A iniciativa de Ludwig mostrou a possibilidade de se plantar com sucesso florestas em grande escala na Amazônia, e, apesar de suas florestas terem sido implantadas em áreas desmatadas para tanto, o modelo pode ser extrapolado para condições em que o desmatamento não fora com o propósito da substituição por qualquer cultura.

Os plantios em mosaico utilizados por Ludwig, onde as florestas plantadas permeiam maciços de florestas nativas em terrenos de topografia acidentada, e faixas intercaladas em terrenos planos permitem o tráfego da fauna e servem de refúgio durante operações nas florestas plantadas.

Estudos realizados na região pela universidade East Anglia do Reino Unido demonstram que, em florestas de eucalipto de várias idades, a fauna, diversa em termos específicos e de grupos, usa as plantações de eucalipto como refúgio, para alimentação e/ou para passagem de um bloco para outro de floresta nativa.

O Brasil destaca-se no cenário internacional como um dos maiores produtores mundiais de madeira oriunda de florestas cultivadas. Plantamos em larga escala eucalipto, pinus, acácia, teca e o paricá, entre outras. No entanto a privilegiada posição mundial que conquistamos está muito aquém do nosso potencial.

Nossas florestas plantadas ocupam, aproximadamente, 0,8% do território nacional, e estudos de uso do solo, principalmente nos estados de menor distribuição demográfica, como é o caso do estado do Pará, demonstram um enorme potencial de crescimento de nossa base florestal, sem a necessidade de substituição de cadeias produtivas da base de produção de alimentos ou de florestas naturais.

Estudo das imagens de satélite da região Amazônica pelo Inpe e Embrapa estimou que, até 2008, cerca de 72 milhões de hectares de áreas de florestas naturais haviam sido removidos; destes, 83% ou cerca de 59 milhões de hectares foram transformados em pastagens.

Estima-se também que cerca de 50% dos pastos na Amazônia são degradados e que o manejo de gado se concentra no modelo extensivo de gado. No mais, as empresas do setor de florestas plantadas têm se dedicado como poucas ao envolvimento com as comunidades em geral, quer seja diretamente, ou indiretamente, por meio da sociedade civil organizada.

Prova disso tem sido a velocidade com que o setor conseguiu certificar suas florestas, uma vez que os princípios e critérios na área socioambiental são extremamente exigentes para a obtenção da certificação pelo FSC, por exemplo. A sociedade civil organizada, em seus vários setores, por sua vez, olha para os plantios de forma que as discussões sobre o futuro ganham em transparência e legitimidade.

Com tudo isso, é muito claro para quem olha com vistas à recuperação de tamanha quantidade de áreas degradadas ou ainda sobre a pressão por parte dos consumidores sobre a floresta nativa remanescente que plantar florestas na Amazônia é algo a se considerar, tanto por parte de grupos investidores, como por parte do governo e da sociedade civil organizada.

Atuar na Amazônia é uma grande responsabilidade, maior que a usual para o empreendedor florestal, mas acredito que, frente à capacidade que o setor demonstra no Brasil, temos por dever plantar florestas economicamente viáveis, socialmente justas e ecologicamente corretas na Amazônia.