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Silvio Frosini de Barros Ferraz

Professor de Manejo de Bacias Hidrográficas da Esalq-USP

Op-CP-14

Manejo sustentável da microbacia

O conceito “manejo sustentável da microbacia” tem bases teóricas bem definidas e é bastante aceito no setor florestal brasileiro, especialmente no ramo de produção de papel e celulose a partir de plantios homogêneos. No entanto, existe uma dificuldade na implementação desse conceito na prática, o que nos leva a refletir um pouco sobre o tema.

O manejo de florestas evoluiu muito nos últimos 30 anos, em produtividade florestal e na adoção de técnicas de baixo impacto ambiental. Ainda assim, o aumento das exigências ambientais e a perspectiva de aumento da área plantada têm levado a uma busca pelo tão sonhado manejo sustentável de plantios florestais. Sob o ponto de vista ambiental, a sustentabilidade do manejo florestal exige, além do aumento da produtividade florestal, a preservação dos processos ecológicos mínimos, que garantam a integridade do ecossistema, envolvendo a retenção da biodiversidade local, a ciclagem de nutrientes e o equilíbrio hidrológico da microbacia.

É consenso que a unidade ecossistêmica de planejamento deva ser a microbacia, e com base nessa tese o Promab/Ipef - Programa de Monitoramento Ambiental em Microbacias do Instituto de Pesquisas Florestais, tem monitorado microbacias em várias regiões do Brasil, com o objetivo de desenvolver indicadores hidrológicos que dêem suporte ao manejo sustentável da floresta.

Dessas pesquisas, já se conhecem os principais efeitos do manejo florestal sobre a geração e regime de fluxo e química da água, além do desenvolvimento de indicadores hidrológicos do manejo florestal. Apesar da existência de uma base conceitual para o manejo florestal sustentável, da evidência dos efeitos do manejo e do desenvolvimento de bons indicadores, o passo seguinte ainda precisa ser dado, o qual consiste no planejamento e no estabelecimento de um sistema de manejo florestal baseado na microbacia, que garanta a integridade do ecossistema. Refletindo sobre esse próximo passo, podemos nos questionar sobre o que falta para que se atinja um manejo florestal mais sustentável da microbacia?

Em um primeiro momento, vem-nos à lembrança a falta de investimento na área ambiental, pois esta área é normalmente vista como geradora de custos e não de receitas. Isto é possível, mas a meu ver, qualquer investimento nessa área, sem a devida mudança de atitude, seria um desperdício, pois não atingiria o objetivo final, que é o aumento da sustentabilidade.

A mudança de atitude a que me refiro, traduz-se em algumas posturas básicas, mas difíceis de serem implementadas, como a de se enxergar não somente o ciclo produtivo da floresta, mas também encarar o meio ambiente como um parceiro da produção e não como um ônus a ser carregado. Essa parceria de longo prazo exige planejamento e melhoria contínua dos processos, apoiada em programas de monitoramento, onde falhas possam ser detectadas e corrigidas.

O monitoramento hidrológico, por exemplo, é um instrumento importante para o aprimoramento do manejo florestal, em busca da sustentabilidade, pois se pretendemos melhorar a relação entre a atividade produtiva e o meio ambiente, ou mesmo atingir um determinado patamar de sustentabilidade, será necessário acompanhar a evolução de alguns indicadores hidrológicos e, quando necessário, corrigir a rota.  

Enquanto a busca pela sustentabilidade não fizer parte da postura das pessoas, nenhum tipo de monitoramento ambiental fará sentido, pois não haverá planos e metas a se atingir e, assim sendo, não haverá interesse em conhecer e minimizar os erros e, portanto, corrigi-los. Não buscaremos nada além do que atender às exigências legais e de mercado e os investimentos em meio ambiente serão sempre vistos como custos, inoportunos, mas necessários.

Muito se ouve falar sobre microbacia, porém pouco se tem feito para implementar esse conceito, pois sua real importância como unidade de planejamento e gerenciamento, que está intimamente relacionada a essa mudança de horizonte, ainda é pouco compreendida. O conceito de microbacia como unidade de manejo somente será adotado quando houver uma conscientização de que o meio ambiente é parceiro da produção florestal, e aí, então, se sentirá a necessidade de monitorá-lo, para se buscar a sustentabilidade sonhada.  

Por outro lado, como ainda não temos o conceito de sustentabilidade fazendo parte efetivamente do planejamento da produção florestal, a utilização da microbacia como unidade de manejo é encarada como um aumento do custo de produção, ignorando que o retorno do investimento ocorrerá em médio e longo prazos. Desse modo, o termo “manejo sustentável da microbacia” deve ser refletido com maior profundidade, para não se correr o risco da superficialidade de uso do conceito, sem seu necessário aprofundamento.

Porém, sem deixar de reconhecer o esforço de diversas empresas e instituições de pesquisa, no sentido de avaliar, monitorar e buscar a melhoria do manejo florestal em direção à sustentabilidade, fica aqui um alerta para que se reflita sobre o tema e se envide esforços para uma mudança de visão sobre o manejo florestal. Ao refletirmos sobre a sustentabilidade da microbacia florestal, podemos pensar que a conceituação teórica está muito à frente da realidade econômica, mas será que não estamos subestimando nossa capacidade de enxergar o futuro?