Diretor de Sustentabilidade e Segurança, Saúde, Qualidade de Vida e Facilities da Suzano
Os impactos das mudanças climáticas já estão alterando a forma como produzimos, investimos e planejamos o futuro. Nesse contexto, a segurança hídrica deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser uma das principais agendas de desenvolvimento, competitividade e gestão de riscos das próximas décadas.
A água conecta produção, biodiversidade, clima e qualidade de vida – e é um insumo crítico para indústrias que dependem diretamente dos recursos naturais. Para setores como o de árvores plantadas, essa realidade exige uma mudança estrutural de perspectiva para garantir disponibilidade hídrica hoje e no futuro. A gestão restrita aos limites operacionais é insuficiente frente ao risco. É necessário avançar para uma abordagem integrada da paisagem e dos territórios onde atuamos.
Na prática, isso significa reconhecer que a água não é apenas um insumo operacional. Ela passa a ocupar um papel central na estratégia do negócio, influenciando diretamente a viabilidade das operações, a competitividade, a gestão de riscos e a capacidade de adaptação em um cenário climático cada vez mais desafiador. É também um exemplo claro de como as agendas ambiental, econômica e social são interdependentes e precisam ser analisadas de forma integrada.
Na Suzano, essa compreensão fez com que o fortalecimento da resiliência hídrica nos territórios onde atuamos se tornasse uma prioridade estratégica. Isso significa incorporar às decisões de negócio fatores como risco hídrico, variabilidade climática e capacidade de regeneração dos ecossistemas. O planejamento deixa de considerar apenas eficiência operacional e passa a incorporar elementos fundamentais para a sustentabilidade do negócio no longo prazo.
Essa visão influencia decisões relevantes, como localização de ativos, direcionamento de investimentos e perspectivas de crescimento. Também é um entendimento que buscamos compartilhar nos diferentes fóruns dos quais participamos, contribuindo para ampliar o debate sobre o papel da água na construção de uma economia mais resiliente. Acreditamos que a segurança hídrica se constrói a partir da integração entre floresta e indústria.
Na indústria, o desafio é produzir mais valor utilizando menos recursos, reduzindo a pressão sobre os sistemas hídricos por meio de eficiência, inovação e circularidade. Nosso compromisso público de redução da captação de água nas operações foi alcançado antecipadamente, com uma redução superior a 15% em relação ao ano-base de 2018. Mas atingir metas de eficiência, embora fundamental, não é suficiente para enfrentar os desafios hídricos que vêm se intensificando em diferentes regiões do mundo. A gestão da água exige uma abordagem mais ampla, capaz de enxergar além dos limites operacionais.
É por isso que, na frente florestal, partimos do entendimento de que a água é um recurso compartilhado e que sua disponibilidade depende das características e da dinâmica de cada bacia hidrográfica. Para nós, cada bacia deve ser entendida como uma unidade de gestão e planejamento. Esse conceito se traduz em ações concretas.
Atualmente, direcionamos esforços para aumentar a disponibilidade hídrica em 44 bacias consideradas críticas sob a perspectiva climática e hídrica, por meio de práticas sustentáveis de manejo florestal. As diferentes dimensões da segurança hídrica também estão incorporadas à Estratégia da Natureza da Suzano. Entendemos que os desafios relacionados à água não podem ser dissociados da conservação da vegetação nativa, do manejo florestal responsável e do relacionamento com os diversos atores presentes nos territórios. Todos esses elementos fazem parte de uma mesma agenda voltada à construção de paisagens mais resilientes para pessoas, ecossistemas e atividades produtivas.
Ao mesmo tempo, esse é um desafio que nenhuma organização consegue enfrentar sozinha. Se a água é um recurso compartilhado, as responsabilidades sobre sua gestão também precisam ser compartilhadas. A geração de resultados duradouros depende da capacidade de promover cooperação, alinhamento e governança entre os diferentes usuários de uma mesma bacia hidrográfica.
Para isso, é fundamental combinar conhecimento técnico, dados e colaboração. Informações hidrológicas, meteorológicas e operacionais nos permitem aprimorar modelos, antecipar riscos e apoiar decisões cada vez mais precisas. Mas são as parcerias e o trabalho conjunto que permitem transformar esse conhecimento em resultados efetivos para os territórios.
Transformar estratégia em ação exige uma estrutura robusta de gestão. A Suzano possui 12 fábricas próprias no Brasil e cerca de 2,9 milhões de hectares de terras, dos quais aproximadamente 1,1 milhão de hectares são destinados à conservação. Gerir recursos hídricos em uma operação dessa escala exige coordenação permanente entre diferentes áreas da companhia e uma forte integração entre liderança, ciência e operação.
Ao associarmos gestão baseada em indicadores ao fortalecimento de parcerias, ao apoio a iniciativas coletivas e à participação ativa em espaços de diálogo e tomada de decisão, buscamos contribuir para a construção de soluções que ampliem a resiliência hídrica das bacias e gerem benefícios compartilhados para todos os usuários da água.
Em última análise, o desempenho do negócio está diretamente conectado à saúde dos territórios onde atuamos. Por isso, entendemos que competitividade, sustentabilidade e resiliência territorial não são agendas distintas, mas partes de uma mesma equação. Para empresas que dependem diretamente dos recursos naturais, a segurança hídrica deixou de ser apenas uma agenda ambiental. Ela é, cada vez mais, uma agenda de negócio, de gestão de riscos e de geração de valor no longo prazo.