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Bibiana Ribeiro Rubini

Diretora de Inovação e Bioeconomia da CMPC

OpCP85

Integração de dados e Inteligência Artificial como vetor de competitividade
A última década no setor de base florestal foi marcada por um avanço sem precedentes na adoção de tecnologias de campo. Passamos por ciclos intensos de digitalização: incorporamos drones para mapeamento de falhas de plantio, implementamos sensores LiDAR em inventários de precisão, adotamos dados de satélite para monitoramento e aceleramos o melhoramento genético com a seleção genômica. No entanto, a despeito do alto valor individual dessas soluções, a maioria das operações florestais ainda enfrenta um gargalo estrutural: o isolamento da informação. Geramos um volume massivo de dados que habitam sistemas heterogêneos, resultando em diagnósticos reativos, desconectados e na potencial perda de oportunidades estratégicas.
 
A grande mudança, já em curso, não reside na criação de novos sensores isolados ou na simples adoção de tecnologias adicionais, mas sim na arquitetura de integração desses fluxos: a construção do Gêmeo Digital Florestal (Digital Forest Twin). Longe de ser um conceito abstrato ou um mero modelo visual tridimensional, o Gêmeo Digital na prática operacional é uma infraestrutura de dados conectada que permite antecipar gargalos, mitigar perdas e sincronizar a floresta com a fábrica. A transformação fundamental promovida por essa abordagem é a transição de um modelo de gestão focado em "medir o que aconteceu" para uma infraestrutura capaz de "prever e prescrever o que deve ser feito".
 
Para que o Gêmeo Digital entregue seu real potencial de valor, a integração precisa ocorrer em múltiplos níveis de escala espacial e temporal. Simplificando a complexidade do ecossistema, podemos estruturar essa infraestrutura sobrepondo quatro camadas essenciais de informação:
 
1. Camada biológica:
O histórico genético de cada clone, associado ao seu perfil metabólico e à sua resposta a marcadores de estresse. Não se trata apenas de mapear qual material genético foi plantado, mas de simular seu crescimento em diferentes cenários de solo e clima projetados para as regiões de interesse. Ao incorporar ferramentas de biotecnologia, seleção genômica e monitoramento contínuo em campo, conseguimos antecipar com alta precisão a produtividade e a qualidade da biomassa.
 
2. Camada de sensoriamento terrestre e próximo:
O uso de robótica e sensoriamento tridimensional nos viveiros e no campo. Na fase de viveiro, a automação com visão computacional atua na triagem e fenotipagem de mudas, além do uso de luz UV para controle sanitário. No campo, o sensoriamento tridimensional via LiDAR (seja terrestre, embarcado em harvesters ou via drones) reconstrói a estrutura da árvore, entregando informações precisas sobre o volume e a arquitetura da biomassa disponível.
 
3. Camada geospacial:
A integração contínua de dados de satélite — combinando imagens ópticas multiespectrais, térmicas e dados de radar de abertura sintética (SAR). Modelos de inteligência artificial geospacial permitem identificar variações na umidade do solo, anomalias no índice de área foliar e estresse hídrico fisiológico. Isso melhora a predição da produtividade e orienta de forma assertiva as necessidades de intervenção no campo.
 
4. Camada processual e industrial:
A conexão direta entre os parâmetros da floresta em pé e as variáveis operacionais da fábrica de celulose. A disponibilidade e a qualidade dos dados, associadas à capacidade analítica avançada, permitem reduzir a variação da matéria-prima e aumentar a estabilidade do processo industrial e da qualidade dos produtos finais.
 
Quando essas quatro camadas conversam sob uma mesma plataforma, a tomada de decisão no setor ganha uma nova dimensão. O aspecto mais relevante é que não se trata de uma projeção para um futuro distante. A integração de dados e a automação de alta precisão já mostram resultados concretos em diferentes geografias do setor produtivo global, tanto no ecossistema florestal quanto no agrícola de alta escala:
 
Integração geospacial e mitigação de risco abiótico (América do Norte e Europa): Na silvicultura do Hemisfério Norte, a fusão de dados orbitais de radar (SAR) com modelos microclimáticos locais e amostragem de umidade do solo em tempo real permitiu a criação de sistemas de alarme preditivo para estresse hídrico e risco de incêndio. Um exemplo consolida-se no programa europeu Copernicus, que disponibiliza mapas de risco de incêndio para janelas de até seis dias, facilitando o direcionamento preventivo de recursos. Além disso, o programa estabeleceu o Wildfire Risk Index, indicador que cruza o perigo iminente do fogo com a vulnerabilidade de pessoas, do meio ambiente e do valor econômico exposto nas áreas mapeadas.
 
Automação de alta precisão e padronização biológica na Ásia: Na China, a expansão dos programas de reflorestamento em larga escala impulsionou a adoção de técnicas avançadas de micropropagação e a construção de viveiros automatizados. O uso de veículos autônomos e sistemas robóticos integrados à visão computacional para triagem, poda e manejo nutricional de mudas garantiu a redução da variabilidade do material genético que vai para o campo a níveis próximos de zero. Os parâmetros da muda (altura, diâmetro de colo, arquitetura radicular e histórico sanitário) são registrados individualmente e associados diretamente ao sistema de informação geográfica do talhão de destino, alimentando a linha de partida do Gêmeo Digital.
 
Previsibilidade de qualidade da madeira no Brasil: No cenário nacional, grandes operações de celulose e papel vêm avançando na conexão entre inventários florestais tridimensionais (via LiDAR) e modelos de adensamento básico e rendimento industrial. Ao cruzar o histórico de desenvolvimento da floresta com dados geospaciais de estresse hídrico ao longo dos anos de rotação, os algoritmos preveem não apenas o volume de metros cúbicos de madeira por hectare, mas a densidade do lenho e o teor de lignina. Essa informação permite programar o abastecimento do digestor da fábrica com misturas de madeira (blends) otimizadas, reduzindo o consumo de reagentes químicos no cozimento e estabilizando a operação industrial.
 
A materialização do Gêmeo Digital encerra a era dos "chutes informados" e do planejamento estático de longo prazo. A integração de dados gera impactos diretos e mensuráveis no desempenho econômico das empresas. Seja ao acelerar a silvicultura de precisão, ao otimizar o planejamento logístico e o manejo de longo prazo, ou ao disponibilizar dados antecipados para a fábrica, o impacto da unificação da informação em uma única plataforma representa, sem dúvida, a nova onda do desenvolvimento tecnológico florestal.