Professor de Economia Florestal da UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina
Quando recebi o convite para falar sobre a formação dos profissionais do setor florestal, imediatamente me recordei de uma conversa com o Professor Marcos Milan, ainda nos primeiros anos da minha trajetória como docente na UDESC. Na ocasião, discutíamos as transformações no perfil e no comportamento dos acadêmicos, quando ele lançou uma reflexão que permaneceu comigo ao longo dos anos: “Será que os alunos estão mudando ou somos nós que estamos ficando velhos?”
Mais de uma década se passou desde aquela conversa e acompanhamos a chegada de novas gerações ao ensino superior. Também vivenciamos o período da pandemia, que exigiu a adoção do ensino remoto por um longo intervalo de tempo, alterando as dinâmicas de aprendizagem, interação e formação. Além disso, temos observado uma queda na procura por cursos superiores na área das Engenharias.
Neste cenário, podemos discutir algumas questões importantes, sendo a primeira delas: Como está a realidade da formação de profissionais da Engenharia Florestal no Brasil?
Para responder a essa pergunta, busquei dados oficiais do Censo da Educação Superior, elaborado pelo INEP e disponibilizado pelo Serviço Florestal Brasileiro por meio do Sistema Nacional de Informações Florestais.
O primeiro aspecto que chama a atenção é a redução da procura pelos cursos de Engenharia Florestal. No ano de 2024, do total de vagas ofertadas, menos de 60% foram preenchidas.
Analisando os últimos 10 anos, observamos que a procura por cursos superiores em Engenharia Florestal reduziu em mais de 33%. No mesmo ano, 1.044 novos profissionais entraram no mercado de trabalho, representando uma redução de 42% no número de concluintes no período 2016-2024. Esses números são preocupantes e conduzem a reflexões inevitáveis: Quais os motivos da redução da procura e do número de formados? O que nós estamos fazendo para enfrentar esse problema?
Com relação à procura pelos cursos, existem diversos fatores que merecem destaque. O primeiro deles pode ser observado nos dados dos censos do IBGE que mostram uma redução da população brasileira com até 34 anos, fenômeno que impacta diretamente a demanda pelo ensino superior. No entanto, as mudanças demográficas não explicam sozinhas esse cenário, destacando-se também o crescimento dos cursos superiores na modalidade EAD, que concorrem com os presenciais.
Em pesquisa desenvolvida junto a estudantes do Ensino Médio catarinense, em parceria com a ACR, observamos até o momento que 42% dos entrevistados afirmaram que não considerariam, ou somente aceitariam em caso de necessidade, uma vaga de emprego cujas atividades fossem desenvolvidas parcial ou integralmente no meio rural, independentemente do nível da função. Quando o questionamento foi direcionado especificamente para o trabalho florestal, esse percentual aumentou para 56%.
Outro dado relevante refere-se às expectativas dos estudantes após a conclusão do Ensino Médio. Cerca de 50% afirmaram que pretendem continuar os estudos conciliando a formação acadêmica com o trabalho. Esse resultado deve ser considerado no planejamento dos cursos de Engenharia Florestal, tradicionalmente estruturados em período integral, o que pode dificultar o acesso e a permanência de parte dos estudantes. Além disso, algumas respostas evidenciaram desconhecimento significativo sobre as atividades desenvolvidas pelas empresas do setor.
Diante desse contexto, temos buscado implementar estratégias voltadas ao aumento da procura pelo curso. Entre elas, destaco o planejamento da grade horária dos diferentes semestres de forma a possibilitar períodos livres para estágios ou atividades profissionais. Também realizamos ações de divulgação do curso, incluindo visitas aos laboratórios e a execução de atividades práticas que aproximem os estudantes da realidade da profissão. Outra iniciativa importante foi a busca ativa de candidatos inscritos nos processos seletivos. Os resultados de tais ações já estão sendo observados, com o aumento no número de ingressantes.
Entretanto, uma questão tão importante quanto o ingresso é a permanência. Se, por um lado, a entrada de novos acadêmicos tem diminuído, por outro, os índices de evasão têm aumentado. Entre os fatores relacionados a esse cenário, destacam-se a troca de curso e as dificuldades enfrentadas em disciplinas, especialmente aquelas que exigem maior domínio de cálculo, como a tradicionalmente temida Dendrometria.
Neste aspecto, confesso que ainda percebo poucas ações efetivas voltadas à permanência estudantil nos cursos. Algumas iniciativas conjuntas entre universidades vêm sendo desenvolvidas por meio de encontros anuais destinados à discussão de temas relevantes para a Engenharia Florestal, como atualizações das Diretrizes Curriculares Nacionais. É importante destacar que a DCN atualmente válida para o curso é de 2006, evidenciando a necessidade de atualização frente às transformações ocorridas nas últimas décadas.
Visando compreender a percepção dos próprios acadêmicos, busquei a opinião da Maria Cecília e do Vicenzo, aos quais agradeço a colaboração. Entre os pontos destacados por eles, chamou a atenção a necessidade de ampliação das atividades de caráter prático e adaptações pedagógicas. Concordo plenamente com eles: a Engenharia Florestal não pode ser ensinada apenas dentro das salas de aula.
Aulas práticas e visitas técnicas são fundamentais para a formação de profissionais aptos a atuar nos diferentes segmentos do setor florestal, permitindo que o acadêmico compreenda a complexidade do ambiente de trabalho, desenvolva hard skills e fortaleça sua conexão com a profissão. Quanto aos recursos pedagógicos, eles destacaram a importância de serem colocados em situações reais de tomada de decisão, por meio de atividades que envolvam a resolução de problemas.
Para encerrar minha reflexão, gostaria de falar um pouco sobre os alunos. Nas pausas do cafezinho, muito se comenta sobre as diferenças entre as gerações. Nestes momentos, volto a refletir sobre a conversa com o Professor Milan e chego à conclusão: sim, os alunos estão mudando.
Temos observado, em alguns casos, dificuldades relacionadas à formação básica, como limitações em operações matemáticas, escrita e interpretação de textos, problemas que podem ser resolvidos por ações de nivelamento e acompanhamento acadêmico. No entanto, o que mais me chama a atenção são os problemas com a análise crítica dos resultados obtidos (árvores com 500 m³ estão cada vez mais frequentes) e no desenvolvimento das soft skills de forma geral.
Neste ambiente de mudanças, gostaria de lançar uma reflexão final aos professores da Engenharia Florestal. Diante de toda a realidade discutida e uma nova geração nascida e crescida em um ambiente tecnológico, muitas vezes dependente da IA, o que estamos fazendo para nos adaptar? Neste novo cenário, muitas das estratégias de ensino às quais fomos expostos, observando os nossos mestres, não são mais eficientes. Assim, para garantir a qualidade da formação e o fortalecimento da profissão, cabe a nós deixar o saudosismo de lado e buscar estratégias alternativas mais adequadas à nova realidade.