Independentemente da definição de sustentabilidade, há uma implicação comum: não basta olhar apenas para os limites do próprio negócio. A sustentabilidade exige enxergar o território. No contexto ambiental e de recursos hídricos, o território que se materializa de forma concreta e sistêmica é a bacia hidrográfica.
A bacia hidrográfica não é apenas uma unidade de drenagem; é onde se articulam os usos da terra, a dinâmica das águas, a biodiversidade e as atividades humanas. As decisões de uma empresa influenciam rio abaixo, afetando comunidades e ecossistemas. Da mesma forma, sofre influência do que ocorre a montante. Ignorar essa rede reduz a sustentabilidade a uma compensação local, quando, na realidade, ela exige visão integrada do território, o que nos leva à hidrossolidariedade.
Assim, gestão ambiental deve assumir a bacia como unidade de planejamento, reconhecendo que a saúde do manejo florestal está ligada à saúde do território. Como traduzir isso em práticas? Pela gestão baseada em métricas, pois sem indicadores claros não há gestão – apenas intenções.
Mas métricas precisam de valores, princípios, critérios. E, no manejo de bacias, os princípios incluem: respeitar a disponibilidade natural de água; conhecer os limites do sistema; conservar áreas hidrologicamente críticas; manter a conectividade; respeitar a variabilidade e a heterogeneidade; e praticar a hidrossolidariedade. Incorporá-los ao manejo significa ir além da madeira, considerando o regime hídrico, a qualidade da água, a conectividade de habitats e a resiliência. Para isso, adota-se a microbacia como unidade de planejamento. Ela integra dados hidrológicos, ecológicos e socioeconômicos, permitindo monitorar impactos e aprimorar intervenções.
A água é insumo para a produção florestal. O consumo por plantações de rápido crescimento tende a ser superior ao de vegetação de menor porte, reduzindo a vazão. Por isso, o planejamento deve respeitar a disponibilidade natural, usando indicadores como o índice de aridez (ETP/P) e a sazonalidade da precipitação (Pcv), que identificam áreas com maior aptidão para plantios.
A água também é resultado do manejo, ligado à provisão e regulação. A manutenção da cobertura florestal, especialmente em áreas críticas, é fundamental para a regulação do ciclo. A hidrossolidariedade enfatiza o equilíbrio entre produção e conservação, assegurando ecossistemas aquáticos e demandas humanas.
O solo é suporte desses serviços. Sua conservação e a retenção de sedimentos são essenciais para a qualidade da água. O manejo adequado – terraceamento, resíduos florestais, proteção de zonas ripárias e planejamento de estradas – controla o escoamento, reduz a erosão e previne o assoreamento.
Ao adotar a microbacia, três métricas iniciais se destacam: ocupação por plantios, vegetação nativa e densidade de estradas. A ocupação afeta o consumo e a vazão; a vegetação protege a recarga e a qualidade; as estradas controlam a erosão e o assoreamento. A combinação desses três indicadores – ocupação, vegetação e estradas – nos guia na tomada de decisão e no dimensionamento do esforço necessário para cada microbacia.
Ela revela, por exemplo, se o caminho é o manejo convencional, a adoção de mosaicos com diferentes idades, a escolha de espécies de menor consumo hídrico, a restrição de práticas ou a priorização de restauração ecológica. Mais do que isso, orienta a alocação de recursos e a intensidade do monitoramento, permitindo que a busca pela hidrossolidariedade seja planejada de forma progressiva e priorizada, conforme a capacidade de cada território. Cada métrica exige linha de base, frequência e protocolo.
O valor não está no número, mas na tendência. A bacia está melhorando? O manejo contribui para a regulação? A gestão com métricas é um ciclo: medir, avaliar, ajustar e medir. Assim, a gestão sai da retórica e entra na ação, adotando a microbacia como unidade de planejamento e concretizando-se em métricas que orientam decisões.
Nota: A autora agradece à Klabin pela parceria e ação rumo ao manejo florestal hidrossolidário.