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Luiz Carlos Estraviz Rodriguez e Silvio Frosini de Barros Ferraz

Professores do Departamento de Ciências Florestais da Esalq/USP

OpCP64

“Sapiens” florestal
A sabedoria ou sapiência florestal consiste em reconhecer as florestas como provedoras de alimento, água, proteção e todos os seus serviços ambientais, mas também entender os seus limites, a importância da sua perenidade, de seu equilíbrio, sua diversidade e de como compartilhar seus recursos e serviços com demais organismos e ecossistemas do planeta.
 
Nesta reflexão, daremos destaque ao papel que as universidades têm na formação de recursos humanos, capazes de propor soluções tecnológicas e científicas para o convívio sadio da raça humana com as florestas. A formação universitária vai além da graduação de profissionais silvicultores especialistas no cultivo de espécies florestais e menos ainda de exploradores de recursos naturais. Espera-se que as universidades formem profissionais conscientes de que o bem-estar humano depende da existência de florestas para que os serviços ecossistêmicos possam ser continuamente ofertados pelas florestas.
 
Para atender à crescente demanda por alimentos, água potável, madeira, fibras e combustíveis, temos levado os sistemas naturais ao limite da sua capacidade de resiliência. Nos últimos 50 anos, como seres humanos, impactamos os ecossistemas do nosso planeta com velocidade e extensão bem maiores do que em qualquer outro período da história, colocando em risco a capacidade de o planeta se recuperar.

A formação universitária, para reverter essa situação e atender com adequada competência às futuras demandas, precisará capacitar profissionais que saibam promover a transição para sistemas de produção multisserviços, mais biodiversos, e de base energética descarbonificada. Isso se justifica por acordos e compromissos multilaterais que o Brasil vinha assumindo até 2018, e pela evidente necessidade de gerar empregos que o mantenha num ritmo adequado de desenvolvimento econômico interno, sem perder competitividade no cenário internacional.

No cenário internacional, o Brasil é signatário, com mais 193 países-membros das Nações Unidas, da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (ratificada na Cúpula de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas de 2015) e tem sido protagonista, desde 1992, na Convenção sobre Diversidade Biológica. Internamente, esses compromissos levaram, por exemplo, à elaboração de uma Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB), que estabelece como um dos seus objetivos estratégicos a disseminação e fomento de “práticas de manejo sustentáveis na agricultura, pecuária, aquicultura, silvicultura, extrativismo, manejo florestal e de fauna” que assegurem o desenvolvimento de sistemas de produção pautados pela biodiversidade.
 
Estarmos preparados nas universidades significa, portanto, formarmos profissionais que ajudem o Brasil a atender a esses compromissos e que sejamos capazes de atender também a expectativas da nossa própria sociedade. Como as que surgem da organização da sociedade civil e que podem ser ilustradas pelo exemplo da Coalizão Brasil para o Clima, Florestas e Agricultura.

Em sua visão para 2030 e 2050, esse grupo de líderes do agronegócio brasileiro estabelece como prioridade “produzir mais e melhor por meio da agropecuária e da silvicultura, criar valor e gerar benefícios a partir da floresta nativa, acabar com o desmatamento, viabilizar políticas públicas de Estado e construir instrumentos econômicos alinhados com a economia de baixo carbono, com as metas de Paris e com a promoção da biodiversidade”.
 
Temos refletido sobre isso na Universidade de São Paulo e estamos dando início a um ambicioso programa de ações que visam à revitalização da área de silvicultura com espécies nativas e de pesquisas inovadoras em recursos florestais. Voltadas para a produção biodiversa, a economia circular, a conservação e restauração de ecossistemas naturais, a produção de biocombustíveis, produtos madeireiros e demais serviços ecossistêmicos, essas ações têm como objetivo criar um ambiente de formação que estimule a relação docente-discente, que induza a atualização constante e que capte os desafios das novas demandas.

É nosso entendimento que a adequada formação universitária, na área das ciências florestais, começa com um bom nivelamento em ciências básicas, principalmente nas bases do que vêm sendo chamadas de STEM (acrônimo dos termos em inglês: sciences, technology, engineering and mathematics). Seguida de uma formação específica que contemple o aprofundamento em quatro grandes temas: base genética e técnicas de propagação, métodos silviculturais sustentáveis, gestão da oferta de serviços ecossistêmicos e habilitação técnico-industrial.

O domínio da base genética florestal permite a atuação profissional em estratégias de domesticação de espécies ainda não totalmente adaptadas aos sistemas de produção. Envolve o mapeamento e identificação de material genético superior, o desenho de bancos de dados de recursos genéticos florestais e de conservação in situ e ex situ de material genético a partir da criação de bancos ativos de germoplasma (BAGs). A complementar compreensão de técnicas de propagação envolve o aprofundamento no estudo da fisiologia da reprodução e da propagação de espécies de alto valor, a conservação de sementes e de sistemas de produção de mudas, seminais ou clonadas, a partir de material selecionado apto para o plantio em larga escala.

A habilitação em métodos silviculturais sustentáveis significa formar profissionais que conheçam com profundidade os sistemas de plantio de arranjos mono e multiespecíficos, a demanda nutricional e as estratégias de proteção contra pragas e doenças desses plantios, os recursos existentes de mecanização das operações de manejo e colheita e o manejo voltado para o maior equilíbrio entre oferta de serviços ecossistêmicos e a produção para processamento industrial ou consumo humano direto.

A capacitação em gestão contempla o treinamento no uso e desenvolvimento de protocolos de monitoramento da biomassa, biodiversidade e água, a capacidade de planejar a paisagem em diferentes escalas e arranjos de cultivo e a promoção de competências suficientes para avaliar a sustentabilidade social, ambiental e econômica das cadeias de produção florestais.

Finalmente, a habilitação técnico-industrial envolve a imersão em conhecimento que promova o desenvolvimento de tecnologias de processamento de produtos que podem ser extraídos das florestas naturais e dos plantios florestais. Isso envolve o aprofundamento em questões químicas e físicas para compreensão, por exemplo, do funcionamento de biorrefinarias e do uso da madeira e frutos como fontes de biocombustíveis.

Muitas das questões citadas requerem significativos avanços científicos, e, para isso, os docentes nas universidades precisam seguir atuando como cientistas. Nesse sentido, temos seguido aqui na Esalq o lema da Universidade de São Paulo, que estabelece como razão da nossa existência o fazer ciência para ensinar bem (Scientia Vinces). Acreditamos que fazer ciência nos ajuda a ensinar e a fazer com que o Homo evolua de forma realmente sapiens na área florestal.