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André Dezanet

Gerente Geral da Vallourec Florestal e Conselheiro da AMIF

OpCP84

Quem vai trabalhar no campo?
“Estamos com problema de mão de obra!” Essa é uma das afirmações que mais tenho ouvido nos últimos anos em conversas com colegas do setor florestal, muitos deles também com operações no estado de Minas Gerais.

A escassez de profissionais vem se consolidando como um dos principais desafios estruturais do setor, e, de fato, essa é uma percepção recorrente, uma realidade iniludível, que se vem manifestando de diversas formas: jovens aprendizes que não se identificam com as oportunidades disponíveis, devido à baixa aderência com seus propósitos pessoais; recém-formados em busca de atividades ligadas à tecnologia e inovação em detrimento de funções operacionais de campo; trabalhadores rurais cada vez mais demandados por outras cadeias produtivas agrícolas em expansão; e mão de obra técnica concentrada em centros urbanos, distante das áreas florestais.
 
Essa escassez não é pontual, mas resultado de um contexto econômico e sociológico mais amplo. Dados da PNAD Contínua do IBGE mostram uma redução expressiva da taxa de desemprego no Brasil, que caiu de 14% em 2021, no período pós-pandemia, para 5,6% em 2025, atingindo o menor nível da série histórica iniciada em 2012. Ao mesmo tempo, o agronegócio brasileiro tem apresentado forte expansão — com crescimento acumulado estimado em torno de 20% nos últimos cinco anos — consolidando-se como o principal motor da economia nacional.

Esse cenário tem uma consequência direta: quanto melhor o desempenho econômico, maior a competição por recursos humanos, elevando os desafios de atração e retenção de profissionais. Paralelamente, observa-se uma transformação significativa no perfil do trabalhador. 
 
As novas gerações ingressam no mercado já imersas em tecnologia digital, com expectativas diferentes em relação à carreira, qualidade de vida e propósito. Há uma clara tendência de menor interesse por atividades intensivas em campo, expostas a condições como calor, poeira e deslocamentos, o que impacta diretamente setores como o florestal, cuja operação depende fortemente dessas atividades.

Diante desse cenário, a questão central passa a ser estratégica: como estamos atuando para antecipar essas transformações e nos adaptar a essa nova realidade? As práticas de recursos humanos estão alinhadas com essa nova realidade? As estratégias de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação estão captando as tendências emergentes e entregando resultados no ritmo necessário? A gestão de riscos está antecipando desafios e direcionando esforços para situações críticas que se estão impondo?
 
A experiência recente da Vallourec Florestal ilustra bem esses desafios. Em um projeto de produção industrial de carvão vegetal implantado em uma área localizada a cerca de 40 km do núcleo urbano mais próximo, com acesso predominantemente por estradas de terra, evidenciou-se a dificuldade estrutural na atração de mão de obra qualificada para operações industriais em ambiente rural.

Em especial, posições relacionadas à automação industrial, elétrica e mecânica mostraram-se particularmente críticas, revelando uma lacuna relevante entre a oferta disponível de profissionais e as exigências técnicas dessas funções, ainda distante de soluções que possam ser aplicadas de forma rotineira e sustentável.
 
Operando nas regiões Centro, Norte e Noroeste de Minas Gerais, também se observa uma crescente indisponibilidade de trabalhadores locais para atividades rurais intensivas, reflexo tanto da transformação do mercado de trabalho quanto da competição com outras cadeias produtivas em expansão.

Diante desse contexto, enquanto soluções estruturais de longo prazo ainda são consolidadas — especialmente por meio da mecanização de operações historicamente intensivas em mão de obra, com destaque para a silvicultura —, têm sido adotadas soluções adaptativas. Entre elas, destaca-se o aumento da busca por trabalhadores provenientes de outras regiões do País, evidenciando a retomada de movimentos migratórios típicos do trabalho rural brasileiro, como alternativa para sustentação das operações.
 
Como resposta, estratégias estruturadas têm ganhado relevância. A construção de uma proposta de valor ao colaborador, reconhecida por resultados expressivos em certificações como Great Place to Work – GPTW, tem contribuído para retenção e engajamento. Além disso, parcerias estratégicas com instituições de ensino e programas de formação técnica, como, por exemplo, o SENAR-MG, que possui uma forte presença nas cidades do interior do estado e portfólio amplo de formações, vêm se consolidando como instrumentos fundamentais para garantir o abastecimento de profissionais no médio e longo prazo.

Nesse contexto, destaca-se também um movimento relevante de expansão da oferta de formação superior na área florestal nas regiões de atuação da empresa. Nas últimas duas décadas, novas instituições passaram a oferecer cursos de Engenharia Florestal, ampliando a base de formação que anteriormente se concentrava em poucas escolas tradicionais.

A UFVJM, em Diamantina, implantou seu curso em 2002; a UFMG, no campus de Montes Claros, iniciou em 2012, com uma estrutura consolidada de pós-graduação; e a UFSJ, em Sete Lagoas, criou seu curso em 2014, fortalecendo a interiorização do ensino superior e a formação técnica regional. Além disso, surgem iniciativas complementares, como a avaliação em andamento pelo CEFET-MG, campus Curvelo, para a criação de um curso de Engenharia Agronômica, com potencial aderência às demandas do agronegócio, da silvicultura e da produção de carvão vegetal. Esse movimento reforça a tendência de ampliação da oferta de formação técnica voltada às cadeias produtivas regionais.
 
O desafio da mão de obra da indústria florestal não deve ser tratado apenas como um problema operacional, mas como um tema estratégico. Ele exige antecipação, integração de políticas de recursos humanos, inovação tecnológica e fortalecimento de parcerias institucionais. Em um ambiente de crescimento econômico e de transformação do perfil profissional, as empresas que conseguirem se adaptar com maior agilidade estarão mais preparadas para sustentar sua competitividade no longo prazo.