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Marcio Veiga

Diretor Florestal da Veracel Celulose

OpCP84

O papel das empresas para mitigar o déficit de mão de obra
O setor florestal brasileiro vive um momento de transformação. A combinação entre expansão da demanda global por produtos de base renovável, avanço tecnológico das operações e fortalecimento das agendas de sustentabilidade tem ampliado o protagonismo da cadeia florestal na economia brasileira. Ao mesmo tempo, esse crescimento também evidencia um dos principais desafios do setor atualmente: a disponibilidade de mão de obra qualificada.
 
Nos últimos anos, empresas florestais de diferentes regiões do País passaram a enfrentar dificuldades crescentes para contratar profissionais técnicos e operacionais, especialmente em atividades ligadas à mecanização florestal, manutenção industrial, logística e operação de equipamentos de alta tecnologia. Esse cenário não é exclusivo do setor florestal, mas nele ganha contornos ainda mais relevantes devido à interiorização das operações e à velocidade das transformações tecnológicas.
 
Hoje, uma operação florestal moderna exige profissionais preparados para lidar com máquinas cada vez mais sofisticadas, sistemas digitais, monitoramento remoto, protocolos rigorosos de segurança e metas de produtividade alinhadas às melhores práticas ambientais. Em paralelo, cresce também a demanda por competências socioemocionais, como comunicação, trabalho em equipe, adaptabilidade e inteligência emocional.

Ao mesmo tempo em que há uma demanda crescente por profissionais qualificados, muitas regiões ainda convivem com limitações históricas de acesso à formação técnica e profissionalizante. Essa distância entre oferta e demanda de talentos cria um gargalo importante para a competitividade do setor e para o desenvolvimento sustentável dos territórios. É justamente nesse ponto que as empresas podem assumir um papel mais ativo na construção de soluções estruturantes.

Na Veracel Celulose, entendemos que investir na formação de pessoas é investir no futuro da própria região onde atuamos. Mais do que suprir necessidades operacionais, trata-se de contribuir para a geração de oportunidades, fortalecimento da economia local e transformação social de longo prazo.

Em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI, desenvolvemos programas voltados à capacitação de jovens e adultos do Sul da Bahia, conectando formação técnica, inclusão e empregabilidade. Um dos exemplos é o programa Jovem Aprendiz, que oferece uma trilha estruturada de desenvolvimento ao longo de 12 meses e já contribuiu para a formação de profissionais que hoje integram o nosso quadro de colaboradores. Também incentivamos nossos fornecedores que promovam a capacitação de seu time. 

Outro destaque é a formação técnica de operadores de máquinas florestais. Atualmente em sua quinta turma, o programa recebe grande interesse da população local: somente o ciclo atual contou com mais de 620 inscritos para 20 vagas. O índice de efetivação supera 80%, demonstrando a aderência entre a formação oferecida e as demandas reais do mercado.

Temos orgulho também de iniciativas voltadas à ampliação da diversidade no setor. Em nossa área florestal, 4,5% do quadro de colaboradores é composto por Pessoas com Deficiência (PcD). Outro exemplo é a realização de uma turma exclusiva para mulheres na formação de operadores de máquinas florestais, com 20 participantes efetivadas após a conclusão do programa. 

Historicamente, o segmento florestal é predominantemente masculino, mas temos observado uma transformação importante nesse perfil, impulsionada por ambientes mais inclusivos e pela própria evolução tecnológica das operações. Na Veracel, mais de 20% do nosso time florestal é composto por mulheres e estamos constantemente em busca de mais profissionais para ampliar esse número. 

Além da formação de operadores, investimos também na capacitação de mecânicos de máquinas florestais e na retomada do Curso Técnico em Celulose, realizado novamente após duas décadas. O interesse despertado demonstra o potencial existente na região: foram mais de 1.100 inscritos para 50 vagas na nova turma.
 
Outro aspecto fundamental é que os desafios atuais da mão de obra não dizem respeito apenas à contratação. A retenção de profissionais nas regiões do interior também exige atenção crescente das empresas. Isso passa pela criação de perspectivas reais de carreira, valorização das pessoas, ambientes seguros e oportunidades contínuas de desenvolvimento.

No caso do setor florestal, segurança é um valor inegociável. Por isso, os investimentos em treinamentos normativos, cultura de prevenção e formação técnica permanente são parte essencial da construção de ambientes de trabalho mais seguros e sustentáveis.

Quando falamos sobre o futuro do trabalho, é importante compreender que a solução para os gargalos de mão de obra não virá de iniciativas isoladas. Ela depende de uma atuação conjunta entre empresas, instituições de ensino, poder público e comunidades. É necessário fortalecer ecossistemas regionais de capacitação capazes de preparar pessoas para profissões que seguem evoluindo rapidamente.

O Brasil possui vantagens competitivas relevantes no setor florestal: produtividade, clima favorável, tecnologia e conhecimento técnico. Mas a sustentabilidade desse crescimento passa, inevitavelmente, pelas pessoas. Desenvolver mão de obra local é mais do que atender a uma necessidade do presente. É criar oportunidades para adolescentes, jovens e adultos construírem trajetórias profissionais em suas próprias regiões, reduzindo desigualdades e fortalecendo comunidades.