A dificuldade de contratação de profissionais qualificados já opera como um limitador da expansão industrial em diferentes regiões do mundo. O problema atravessa setores como siderurgia, silvicultura, mineração, construção pesada, logística e manufatura avançada. Mais do que preencher vagas, o desafio é sustentar operações cada vez mais automatizadas, digitalizadas e pressionadas por metas ambientais mais rigorosas.
A escassez de trabalhadores qualificados já afeta economias como Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Suíça, Irlanda e Portugal. No Brasil, o cenário segue a mesma direção. Segundo levantamento da ManpowerGroup, 81% dos empregadores brasileiros relatam dificuldades para encontrar profissionais com as competências necessárias às funções. O País aparece entre os mais impactados pela falta de talentos no mundo.
Dados da Confederação Nacional da Indústria – CNI, mostram movimento semelhante: em 2020, apenas 5% das empresas apontavam dificuldades relevantes na contratação de profissionais qualificados. Hoje, esse percentual alcança 23%.
Os indicadores revelam uma mudança estrutural no mercado de trabalho industrial. A indústria continua demandando operadores, técnicos, mecânicos, engenheiros, especialistas em automação, manutenção e controle de processos. Mas a natureza dessas funções mudou. A operação industrial exige capacidade analítica, familiaridade com tecnologias digitais e domínio crescente sobre eficiência energética e descarbonização.
Ao mesmo tempo, a indústria passou a disputar atenção com novos modelos de trabalho. Muitos jovens já não enxergam o ambiente industrial como primeira opção profissional. Em alguns casos, atividades informais ou de renda imediata parecem mais atrativas do que carreiras técnicas de longo prazo. Isso impõe às empresas um desafio adicional: reconstruir o interesse pelas profissões industriais.
A nova geração da indústria: Essa discussão passa, antes de tudo, pela percepção que a sociedade tem da própria indústria. Para atrair profissionais, o setor precisa demonstrar capacidade de inovação, sofisticação tecnológica e conexão com as aspirações das novas gerações, que valorizam, cada vez mais, valores atrelados à sustentabilidade.
Um dos estudos mais relevantes e recentes sobre o tema é a pesquisa global da Deloitte – Gen Z & Millennial Survey 2025 –, que ouviu mais de 23 mil jovens em 44 países, incluindo o Brasil. O levantamento mostra que a sustentabilidade influencia diretamente as decisões da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012), desde o que consomem até onde escolhem trabalhar.
Na Aperam, esse compromisso está no centro da estratégia da companhia. Nossa visão é ser líder global na criação de valor na economia circular de materiais infinitos. Com o propósito de transformar os desafios atuais em soluções futuras, adotando a circularidade e desenvolvendo materiais que não apenas sejam infinitos, mas também impactantes.
O biochar e o bio-óleo são exemplos de como essa lógica está presente em nossa operação. A rota siderúrgica da Aperam é baseada no uso de carvão vegetal renovável proveniente de florestas plantadas certificadas e manejadas de forma sustentável no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Durante o processo de carbonização da madeira, os gases gerados são captados, condensados e tratados, dando origem ao bio-óleo. Um biocombustível 100% renovável, capaz de substituir fontes fósseis em processos industriais e contribuir para a redução das emissões de CO?.
Já o biochar é obtido a partir da separação de faixas específicas do carvão vegetal. Quando aplicado ao solo, ele retém carbono por centenas de anos, evitando sua liberação na atmosfera. Além disso, melhora a retenção de água, amplia a disponibilidade de nutrientes e contribui para a regeneração de solos degradados.
Essa integração entre base florestal, bioenergia e produção do Aço Verde Aperam ajuda a redefinir a percepção da indústria e fortalece a conexão da empresa com os jovens talentos.
Recrutamento mais amplo, operação mais eficiente: Parte da resposta ao apagão de mão de obra também passa pela revisão dos perfis historicamente priorizados pela indústria. Durante décadas, muitos segmentos restringiram oportunidades a grupos específicos, com predominância da contratação masculina. Esse modelo já não responde às exigências operacionais nem à dinâmica atual do mercado de trabalho.
Na Aperam BioEnergia, avançamos nos últimos anos em programas voltados à ampliação da presença feminina nas operações e à inclusão de pessoas com deficiência (PCDs). Hoje, por exemplo, as mulheres representam mais de 25% do efetivo da empresa. Em 2022, eram 98 colaboradoras; atualmente, já são mais de 500.
Ainda há um longo caminho pela frente, e seguimos investindo em programas de capacitação afirmativa, sendo os mais recentes voltados à formação de motoristas e operadoras industriais. No caso dos colaboradores PCDs, também na Aperam BioEnergia, a meta é alcançar 100 profissionais até 2026. Em agosto deste ano, será realizada a quarta edição do programa de formação, iniciativa que contribuirá para atingir esse objetivo.
Além de ampliar o alcance do recrutamento, essas ações também geram ganhos operacionais. Equipes mais diversas ampliam perspectivas na resolução de problemas, fortalecem a segurança operacional e contribuem para uma gestão de processos mais eficiente e inovadora.
Capacitação técnica virou questão estratégica: Outro aprendizado importante foi entender que o mercado sozinho já não consegue suprir toda a demanda por profissionais qualificados. As empresas passaram a assumir participação direta na formação técnica das futuras equipes.
Por iniciativa própria, desenvolvemos programas de estágio, jovem aprendiz, parcerias com universidades, aproximação com escolas técnicas e iniciativas voltadas à educação profissional antes mesmo da contratação. O objetivo é aproximar estudantes da realidade industrial e apresentar carreiras ligadas à engenharia, automação, metalurgia, silvicultura e tecnologia aplicada à produção.
A permanência desses profissionais também depende de fatores que vão além da remuneração. Perspectiva de crescimento, mobilidade interna, acesso à qualificação e desenvolvimento de lideranças passaram a ter peso decisivo. Na Aperam BioEnergia, mais da metade das vagas vem sendo preenchida por movimentação interna. Isso fortalece a sucessão técnica, preserva conhecimento operacional e amplia a percepção de carreira de longo prazo dentro da companhia.
O novo mapa da competitividade industrial: Durante muito tempo, competitividade industrial esteve associada principalmente a fatores como energia, logística, escala produtiva e acesso a matérias-primas. Esses elementos continuam decisivos. Mas a capacidade de atrair, desenvolver e reter profissionais qualificados passou a ocupar posição igualmente estratégica dentro das empresas.
Contratar e reter profissionais está mais difícil. As novas gerações trazem consigo novas prioridades, valores e expectativas, o que força a indústria a se mover e se adaptar. Entender essa mudança será um diferencial competitivo importante para as empresas nos próximos anos.
O debate sobre mão de obra deixou de ser um tema restrito à área de Gente e Gestão. Hoje, integra a agenda industrial, tecnológica e econômica das companhias que buscam conciliar crescimento e sustentabilidade em um cenário de transformação acelerada.