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Paulo César Sentelhas

Professor de Agrometeorologia na Esalq-USP

Op-CP-61

Os riscos de incêndios florestais
Proteção florestal é a área que estuda vários aspectos relacionados ao cultivo florestal, dentre os quais os incêndios florestais. O incêndio florestal é a ocorrência de fogo em áreas florestais, podendo ser em áreas com vegetação nativa ou em plantações de espécies florestais de interesse econômico, como eucalipto, pínus, teca, entre outras.

A ocorrência de fogo em áreas florestais se dá por diferentes causas, sendo essas de ordem naturais, principalmente causada por raios, ou ação humana, classificada como acidental ou criminosa. Os incêndios florestais têm uma grande importância em função dos graves prejuízos resultantes de suas ocorrências, seja em florestas nativas ou plantadas.

Nas áreas nativas, os incêndios promovem prejuízos ambientais imensuráveis, já que, além de promover graves danos à biodiversidade vegetal, ainda afeta os animais silvestres e as populações que habitam essas áreas. No caso da ocorrência de incêndios em florestas plantadas, os prejuízos são basicamente econômicos e sociais, já que plantações afetadas pelo fogo perdem, na maioria dos casos, seu valor econômico, afetando toda a cadeia produtiva da espécie de interesse e, consequentemente, os empregos gerados no setor florestal.

Além disso, a queima das florestas nativas e plantadas, em todo o mundo, especialmente na costa oeste do Estados Unidos, na Austrália, no Ártico siberiano, na Europa Ocidental, na África Equatorial e no Brasil, contribuem expressivamente para a emissão de CO2 e, assim, para o processo de aquecimento global, já que esse gás de efeito estufa altera o balanço de ondas longas da Terra.

O uso do fogo como prática agrícola e florestal, mais conhecido como queimada, é um tema controverso e mal compreendido em alguns casos, como destaca Alvares et al (2014). Segundo esses autores, se, por um lado, os incêndios causam grandes impactos no ambiente, por outro, a queimada, quando usada de forma controlada, pode ser uma ferramenta útil.

Apesar disso, o uso do fogo como atividade agrícola e florestal, cada vez mais, vem sendo evitado em razão de seus impactos, especialmente, na qualidade do ar, a não ser em casos muito específicos, onde a lei ainda possibilita seu uso, como em áreas cultivadas com cana-de-açúcar, em que a colheita mecanizada não é possível.

Nesses casos, deve haver um plano de manejo, o qual tem que ser protocolado e aprovado, de acordo com o Código Florestal Brasileiro, junto aos órgãos ambientais no nível estadual. Relato apresentado por Alvares et al indica que os incêndios florestais, há muito tempo, são uma grande preocupação no Brasil; porém o tema ganhou mais destaque a partir dos graves incêndios ocorridos no inverno de 1963, ano em que geadas, seguidas de seca intensa, propiciaram condições extremamente favoráveis à ocorrência de incêndios no Centro-Sul do Brasil, especialmente no estado do Paraná, onde mais de dois milhões de hectares de florestas nativas e plantadas foram consumidos pelo fogo.
 
A partir dessa ocorrência, iniciaram-se os primeiros estudos sobre riscos de incêndios no Brasil, com a introdução de índices para seu monitoramento, os quais tiveram como base os estudos pioneiros realizados no Canadá e nos Estados Unidos, na década de 1930. Atualmente, o Brasil sofre com incêndios, tanto em área de florestas nativas como de florestas plantadas.

Se, por um lado, a ocorrência de incêndios em áreas nativas é um problema a ser monitorado e solucionado pelos órgãos governamentais competentes, por outro, os incêndios em plantações florestais devem ser monitorados e controlados pelos produtores e empresas do setor florestal.

Nessas áreas, os incêndios variam entre locais e anos, sendo o principal fator de suas ocorrências as condições meteorológicas. Dentre as condições meteorológicas que mais afetam os incêndios florestais, as altas temperaturas, a baixa umidade relativa do ar, a ausência prolongada de chuvas e a intensa velocidade do vento são as principais. 

Assim, quanto mais longo o período seco do ano e menor a latitude do local, mais favoráveis serão as condições meteorológicas para a ocorrência de incêndios. No Brasil, os incêndios em florestas plantadas se concentram nas áreas produtoras das regiões Centro-Oeste, Sudeste, Nordeste e Norte, onde o período seco do ano, que pode durar de quatro a oito meses, leva à ocorrência de altas temperaturas (> 35 oC) e de baixíssima umidade relativa do ar (< 30%), tornando a matéria vegetal altamente inflamável, o que facilita a combustão em casos de raios, queimadas descontroladas ou ações criminosas.

Além disso, a velocidade do vento auxilia na manutenção e propagação dos incêndios. Apesar de, atualmente, existirem diversas formas de monitoramento de incêndios, desde índices que avaliam o risco de fogo, com base em condições meteorológicas, até o uso de sensoriamento remoto para identificação de focos de calor e de áreas com presença de fogo,
 
não há uma técnica padrão para monitoramento e controle dos incêndios. No setor florestal brasileiro, ambas as técnicas vêm sendo empregadas com êxito, sendo a primeira para indicar o risco e definir estratégias de minimização dos incêndios, enquanto a segunda é mais empregada para identificar as áreas com fogo, de modo a deslocar a brigada antifogo para as  áreas incendiadas. 
 
No caso dos índices de risco, o mais empregado vem sendo o índice de Monte Alegre, índice acumulativo que indica o risco de incêndio florestal com base na umidade relativa, às 13h, e na ocorrência de chuvas (fator atenuador do risco). Esse índice foi desenvolvido, testado e validado para a região de Telêmaco Borba, PR, por Soares (1972), e vem sendo amplamente testado e utilizado, desde então, em todo o Brasil, com excelentes resultados.
 
Dada sua aplicabilidade e importância, o índice de Monte Alegre, baseado exclusivamente nas condições meteorológicas, vem sendo utilizado operacionalmente em sistema de monitoramento agrometeorológico, como o apresentado abaixo e extraído do sistema Agrymax. Esse sistema monitora as condições de risco de incêndios florestais em todo o Brasil, com um ponto a cada 25 km, sendo atualizado diariamente e contando com a previsão desse risco para os próximos 30 dias.

Na Figura 1, são apresentados os riscos de incêndio decendiais, porém calculados na escala diária, na região de Brasília, DF, para a série histórica de 1994 a 2020, mostrando claramente as variabilidades sazonais e interanuais do risco de incêndio. Além disso, o sistema Agrymax disponibiliza, para cada dia dessa série histórica, um mapa mostrando o risco de incêndio em todo o Brasil (Figura 2), o que possibilita identificar sua variação espacial.

Diante da crescente pressão da sociedade e de órgãos ambientais brasileiros e internacionais sobre as atividades agrícolas e florestais, o monitoramento e o controle dos incêndios florestais devem ser, cada vez mais, efetivo, de modo a garantir a sustentabilidade das atividades do setor, minimizando os impactos no ambiente e maximizando as produtividades.