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Plínio Célio Ignez e Cesar Augusto Valencise Bonine

Consultor de Projetos da Suzano e Gerente Executivo de Inovação da Suzano, respectivamente

OpCP85

O dilema da inovação
A silvicultura brasileira é reconhecida mundialmente como um dos maiores casos de sucesso da inovação aplicada ao agronegócio. Em poucas décadas, o Brasil transformou suas florestas plantadas em referência global de produtividade, alcançando níveis superiores aos de muitos concorrentes internacionais. Esse desempenho não foi resultado apenas de condições naturais favoráveis, mas principalmente da capacidade inovadora do setor de transformar a ciência em vantagem competitiva, por meio de investimentos consistentes em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I).
 
Para se ter ideia dessa evolução, até 1950 o Brasil possuía uma produção limitada de eucalipto, bastante concentrada no estado de São Paulo, sobretudo para geração de energia e para a construção de ferrovias. Nessa mesma década, Leon Feffer e seu filho, Max Feffer, foram pioneiros em uma inovação disruptiva que transformaria a silvicultura no País:
 
o desenvolvimento do eucalipto para a produção de celulose. Na época, a fibra curta do eucalipto não era considerada promissora para essa finalidade, e o Brasil tinha forte dependência da importação de celulose para a fabricação de papel. Na década de 1970, a clonagem de eucalipto tornou-se realidade e transformou os patamares de produtividade do setor. 
 
Esses exemplos demonstram a importância da inovação para o crescimento e a sustentabilidade da silvicultura brasileira. O melhoramento genético, a clonagem em larga escala, o desenvolvimento de híbridos mais produtivos, os avanços em fertilização e manejo, além da mecanização e da digitalização das operações, têm sido fundamentais para a manutenção dos diferenciais de produtividade.

Entretanto, o desafio atual tornou-se mais complexo. A agenda do setor já não se resume ao aumento da produção. É necessário reduzir os custos de formação florestal, aumentar a eficiência no uso de insumos, elevar a resiliência dos plantios e responder às crescentes incertezas trazidas pelas mudanças climáticas. Eventos extremos, períodos de seca prolongada, ondas de calor, alterações nos regimes de chuva e o surgimento de novas pragas introduzem riscos que exigem novas soluções tecnológicas e novos modelos de gestão.
 
Nesse contexto, surge uma questão estratégica fundamental: como assegurar o equilíbrio entre a eficiência operacional e a inovação para sustentar a competitividade do setor florestal brasileiro?

A resposta está no conceito de Ambidestria Organizacional, que representa a capacidade de equilibrar explotação e exploração no desenvolvimento de projetos florestais. Ou seja, otimizar continuamente os sistemas produtivos atuais enquanto se investe na criação das próximas rupturas tecnológicas.

Para o setor florestal, a ambidestria significa continuar buscando redução de custos de formação florestal, melhorias operacionais e ganhos incrementais de produtividade, ao mesmo tempo em que se investe em genética avançada, inteligência artificial, automação, adaptação climática, desenvolvimento de produtos e novos modelos de negócio. Empresas ambidestras entendem que a competitividade do amanhã depende dos investimentos realizados hoje.

A Suzano tem utilizado essa lógica em diversas frentes. Ao mesmo tempo em que promove ganhos operacionais, mantém investimentos relevantes em pesquisa e desenvolvimento. Essa abordagem amplia o conceito tradicional de inovação, que deixa de estar restrito à floresta e passa a alcançar toda a cadeia de valor. Entretanto, fazer escolhas do que investir, quanto investir e quando investir, tratando-se de iniciativas em pesquisa, desenvolvimento e inovação, não é uma tarefa fácil e óbvia. Muitas vezes são apresentadas inúmeras iniciativas, que somadas extrapolam os recursos disponíveis. Assim, fazer escolhas inteligentes passa a ser um importante componente da ambidestria.

Uma das formas de avaliar o desenvolvimento dessas iniciativas nas empresas é a utilização do Funil de Inovação orientado pela escala de maturidade tecnológica, conhecida como TRL (Technology Readiness Levels). O Funil de Inovação é uma abordagem estratégica que permite avaliar os estágios de desenvolvimento das iniciativas de um portfólio, e o TRL é uma escala desenvolvida pela NASA para avaliar o estágio de maturidade de um projeto. Quando o Funil de Inovação é orientado pela escala de TRL, ele oferece uma visão clara do nível de maturidade tecnológica da iniciativa e do tempo requerido para serem concluídas, facilitando a priorização das iniciativas e assegurando a ambidestria na gestão do portfólio.
 
Os níveis de TRL e seus respectivos descritivos são apresentados no Manual de Operação da EMBRAPII, com as seguintes descrições definidas na imagem em destaque: Sob a ótica do Funil de Inovação, diversas iniciativas foram implementadas pela Suzano nos últimos anos, tanto voltadas à eficiência operacional no curto prazo quanto no médio e longo prazo.
 
Como exemplo de iniciativas de eficiência operacional no curto prazo, temos o aperfeiçoamento do colar de proteção de mudas, tecnologia que consiste na aplicação de uma mistura de resíduo orgânico celulósico e água ao redor das mudas de eucalipto para reduzir o consumo de água na irrigação das mudas e garantir a sua maior sobrevivência em campo durante a fase de plantio.

Trazendo iniciativas de médio e longo prazo, destacamos o Speed Breeding, iniciativa em desenvolvimento que visa reduzir em mais de 50% o tempo de desenvolvimento clonal da Suzano, e ainda a iniciativa de Resiliência florestal e adaptação das florestas às mudanças climáticas, com a integração de diversas tecnologias incluindo o uso de biocontroladores, monitoramento climático de precisão e outras práticas de manejo. 

As vantagens competitivas que colocaram o Brasil na liderança global não são permanentes. Elas precisam ser continuamente renovadas e dependem da capacidade das empresas em conectar ciência, tecnologia, floresta e cliente em uma agenda integrada de inovação.

Funil de Inovação orientada à escala TRL: da ciência à operação em escala