Quando falamos sobre os gargalos de mão de obra no setor florestal, é comum ouvirmos apenas que o problema está na falta de pessoas disponíveis para trabalhar. Na minha visão, essa análise simplifica demais uma questão mais complexa. O que estamos vivendo é o esgotamento de um modelo tradicional de trabalho.
Acredito que isso se dá pela combinação de dois fatores: há menos profissionais dispostos a trabalhar dentro desse modelo e a expansão das operações florestais acontecendo majoritariamente em regiões menos populosas, que, por sua vez, possuem déficit de infraestrutura social que dificulta a atração e retenção de pessoas de outras regiões do País.
Ao mesmo tempo, nosso setor que passando por transformações profundas em ritmo cada vez mais acelerado. As operações têm-se tornado mais tecnológicas e complexas, o que mudou as exigências técnicas para com os profissionais. Esse é um contexto, mas ele é também a solução. Entendo que é preciso abraçar a tecnologia como uma alavanca de aprimoramento e evolução do modelo de trabalho, o que acompanha as expectativas das pessoas em relação ao trabalho atualmente.
Novo perfil de profissional: Com as transformações tecnológicas, o perfil do profissional para a atividade florestal mudou. Precisamos de profissionais capacitados para operar equipamentos mais sofisticados, interpretar dados, lidar com protocolos de segurança cada vez mais rigorosos e tomar decisões diante de situações complexas no campo. Não se trata mais apenas de esforço físico, embora ele ainda aconteça.
Ao mesmo tempo, convivemos com movimentos sociais importantes: as novas formas de geração de renda e a urbanização. As novas gerações buscam outras perspectivas de carreira e oportunidades que estão conectadas às grandes cidades e, também, às novas formas de trabalho que adotam plataformas digitais como ponto central. São posições como motoristas de aplicativos e outras que dão a falsa percepção de ganho financeiro fácil, como atuar como influencer ou youtuber.
Neste ponto, a oferta de posições formais dentro do nosso setor encontra uma dissonância: regiões do interior do País que contam com investimentos da iniciativa privada e que, portanto, possuem vagas de emprego têm dificuldade de preencher as posições, mesmo quando as pessoas ainda não estão capacitadas.
Isso nos leva a uma reflexão: talvez o setor precise parar de discutir apenas como preencher vagas e começar a discutir como tornar o trabalho florestal mais atrativo e conectado às novas expectativas das pessoas.
Atuação sistêmica: Na Suzano, acreditamos que, além de atuar para a atração de talentos, precisamos adotar uma visão sistêmica e entender que não existe uma solução única ou definitiva. É preciso atuar simultaneamente em diferentes frentes: capacitação, tecnologia, desenvolvimento regional, qualidade de vida e pertencimento.
Na frente de capacitação, é importante a aproximação com instituições de ensino fora do eixo tradicional para ultrapassar os desafios relacionados à distribuição regional de mão de obra qualificada, além do fortalecimento de parcerias com organizações especializadas, como o Sistema S. Em relação à formação de profissionais para atuação nas operações mecanizadas de silvicultura, colheita e logística florestal, desde 2021, programas de capacitação técnica realizados pela Suzano em parceria com instituições de ensino já formaram mais de 3.500 profissionais. Vejo ainda a oportunidade das empresas do setor se unirem para criarem conjuntamente iniciativas de formação que atendam às demandas da nossa atuação.
Para além de oferecer vaga de trabalho, é necessário criarmos condições para que essas pessoas construam vínculos duradouros com o território. Promover o desenvolvimento regional é uma premissa que tem de ser endereçada por uma rede sólida que envolve a iniciativa privada e governos local e regional. Na prática, isso significa olhar para moradia, infraestrutura, acolhimento familiar e acesso a serviços seguindo a mesma velocidade do cronograma dos projetos, o que é sabido por nós, cidadãos brasileiros, que não acontece na realidade.
Algumas iniciativas que exemplificam essa atuação conjunta foram adotadas pela Suzano durante a construção da Unidade Ribas do Rio Pardo-MS, inaugurada no segundo semestre de 2024. A cidade não possuía oferta habitacional suficiente para receber as pessoas que viriam a trabalhar na futura fábrica. Com isso, a empresa, em parceria com a prefeitura, construiu 954 unidades habitacionais para seus colaboradores, contribuindo para a qualidade de vida dos nossos times e impulsionando a economia local.
Além disso, com foco no público das operações florestais, implementamos o Projeto Águas do Cerrado, que entregou apartamentos para profissionais contratados como ajudantes florestais, permitindo que famílias se estabeleçam na região com mais estabilidade. E buscando essa estabilidade, avaliamos oportunidades de emprego em nossas operações também para os demais membros da família, contribuindo para aumento da renda e prosperidade.
Ao fazer isso, a Suzano atesta que está ciente de seu papel na transformação socioeconômica das regiões onde atua, reafirmando o seu compromisso com as comunidades locais e seguindo o direcionador de cultura de que “só é bom para nós se for bom para o mundo”. Em contrapartida, os resultados aparecem nas operações: produtividade, segurança e redução do absenteísmo.
Na frente de tecnologia é onde acredito que está a principal alavanca de transformação transversal e permanente do modelo de trabalho no campo. Para começar, podemos adotar mais a gameficação em ações de capacitação e desenvolvimento, uma linguagem que é atrativa para as novas gerações. Para as operações de plantio e irrigação, há o avanço da mecanização que confere aos profissionais melhores condições de trabalho.
Em 2025 iniciamos na Suzano a operação do primeiro módulo 100% mecanizado para plantio da companhia e do Brasil. As pessoas que operam esses equipamentos já faziam parte da nossa força de trabalho, seja de forma direta, seja de forma terceirizada. Elas foram capacitadas e, ao assumirem a nova função, suas remunerações foram aprimoradas em comparação ao plantio manual, assim como as condições de segurança do trabalho, uma vez que há menor interação homem-máquina, exposição a resíduos e outros riscos do trabalho no campo.
Em relação à automação e à conectividade, parcerias com empresas de tecnologia e fabricantes de equipamentos no Mato Grosso do Sul nos permitiram viabilizar a operação remota de harvesters em ambiente real de colheita, controlado e conectado digitalmente, algo ainda incipiente no Brasil.
O que o setor ganha: Os ganhos provenientes desse novo modelo de trabalho são muitos: segurança e produtividade, atração e retenção de talentos, melhoria na qualidade no trabalho. Por isso, discutir mão de obra no setor florestal exige uma mudança importante de perspectiva. É relevante reforçar que as pessoas seguem sendo um fator crucial, afinal, a tecnologia só gera valor quando existe gente preparada para operá-la, interpretá-la e tomar decisões melhores a partir dela.
O nosso setor possui, indiscutivelmente, enorme potencial de crescimento e competitividade global. Por isso, acredito que o desafio não está na escassez de mão de obra, mas na nossa capacidade de acelerar as mudanças que o modelo de trabalho precisa incorporar para atender às demandas atuais. As soluções para esse desafio não estão prontas. Precisam ser construídas coletivamente e de forma intencional. Talvez essa seja uma das maiores oportunidades de transformação para o futuro do setor que temos diante de nós.