Delegada Comercial – Florestal e Tecnologias Limpas, Serviço de Delegados Comerciais do Canadá
Canadá e Brasil, duas das maiores nações florestais do planeta, dispõem hoje de bases científicas, industriais e institucionais para transformar sua cooperação bilateral em resultados concretos de inovação e negócios.
A relação econômica entre os dois países atravessa um momento de convergência estratégica. O Brasil é a décima maior economia do mundo, com Produto Interno Bruto superior a US$ 2,1 trilhões, o que corresponde a mais da metade do PIB de toda a América do Sul.
É também o maior parceiro comercial do Canadá na região e o terceiro nas Américas, atrás apenas de Estados Unidos e México. Em 2025, o comércio bilateral somou C$ 12,7 bilhões, um crescimento de quinze por cento em relação ao ano anterior.
Mais de 500 empresas canadenses mantêm operações no Brasil, e o investimento canadense no País — somando fundos de pensão, veículos de infraestrutura e gestores de ativos — é estimado em até C$ 80 bilhões.
A negociação em curso de um Acordo de Livre Comércio Canadá-Mercosul projeta essa trajetória para os próximos anos, com potencial de abrir novos canais para empresas, centros de pesquisa e ecossistemas de inovação dos dois lados.
Essa aproximação não se explica apenas por volume de comércio. Canadá e Brasil compartilham uma condição estrutural pouco comum: são nações de dimensão continental, com bases de recursos naturais extensas e uma questão de fundo semelhante — como administrar essa riqueza florestal de forma sustentável, responsável e competitiva em um cenário de mudanças climáticas e pressão sobre os ecossistemas. Juntos, os dois países concentram uma parcela expressiva das florestas do mundo, o que confere à parceria bilateral uma relevância que ultrapassa o interesse puramente comercial.
Essa proximidade também tem raízes acadêmicas: o Canadá é, há mais de duas décadas, o principal destino de estudantes brasileiros no exterior, e o Acordo Canadá-Brasil de Ciência, Tecnologia e Inovação já resultou em parcerias consolidadas entre universidades, institutos de pesquisa e o setor privado dos dois países — um capital de relacionamento que hoje sustenta iniciativas como o próprio Seaflor.
O setor florestal desponta como um dos eixos mais promissores dessa convergência. O Brasil consolidou uma das indústrias florestais mais dinâmicas do mundo, com atores globalmente relevantes em celulose e papel e interesse crescente em produtos de madeira de maior valor agregado.
O Canadá, por sua vez, acumula know-how em tecnologia de manejo florestal, automação, tecnologias de informação e comunicação aplicadas à silvicultura, e em madeira engenheirada — categoria que inclui a madeira laminada cruzada (CLT) e outras soluções de construção em madeira maciça, hoje em expansão em projetos urbanos ao redor do mundo.
Essa complementaridade entre a escala produtiva brasileira e a especialização tecnológica canadense é o pano de fundo de iniciativas como o Woodrise Tour, evento técnico de três dias apoiado pelo Canadá em parceria com a UFPR, a FIEP e a Fundação Araucária, programado para setembro em Pinhais, Paraná, durante a International Wood Week.
No plano institucional, essa cooperação é operacionalizada pelo Serviço de Delegados Comerciais do Canadá (TCS), rede oficial do governo canadense para facilitação de negócios no exterior, presente na Embaixada em Brasília e nos Consulados em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O TCS atua em múltiplas frentes: apoio a empresas canadenses na exportação para o Brasil, identificação de oportunidades de negócio e parceiros locais, produção de inteligência de mercado sobre tendências setoriais, riscos e questões regulatórias, facilitação de investimentos brasileiros no Canadá, apoio a parcerias de pesquisa, desenvolvimento e inovação, e suporte na resolução de entraves enfrentados por empresas no exterior. Para instituições e empresas brasileiras, o serviço funciona também como porta de entrada para fornecedores e parceiros tecnológicos canadenses, conexões com empresas em busca de distribuidores ou joint ventures no Brasil, e participação em missões comerciais e eventos de aproximação empresarial.
O diagnóstico apresentado durante o webinar de encerramento da Seaflor, em junho passado, descreveu um mercado brasileiro de alto potencial, mas também de alta complexidade. O Brasil não figura hoje como mercado relevante de exportação para celulose, madeira serrada e produtos processados básicos de origem canadense, dado que o País opera com custos de produção mais baixos e ciclos de crescimento florestal mais rápidos — uma vantagem competitiva estrutural difícil de equiparar. A esse quadro somam-se os desafios amplamente conhecidos como "Custo Brasil": complexidade tributária e regulatória, burocracia, custos de conformidade, incerteza jurídica, tarifas de importação e barreiras não tarifárias, lacunas de infraestrutura e logística, além de forte concorrência local e internacional.

Nesse ambiente, parcerias estratégicas tornam-se decisivas para navegar diferenças de idioma, cultura empresarial e exigências técnicas e comerciais; resultados concretos costumam demandar de três a cinco anos de maturação, e segmentos como o de celulose permanecem concentrados em um número reduzido de compradores.
As oportunidades, no entanto, concentram-se justamente nos segmentos em que o Canadá desenvolveu experiência diferenciada: automação e soluções de conectividade aplicadas ao manejo florestal, ferramentas de conformidade ambiental, social e de governança (ESG) e de rastreabilidade da cadeia produtiva, bioprodutos derivados de lignina, e madeira maciça de engenharia — como CLT e vigas lameladas coladas.
Eventos técnicos como o Seaflor e o Woodrise Tour de setembro consolidam-se como espaços privilegiados de intercâmbio tecnológico entre os dois países, complementando o trabalho de aproximação institucional já em curso. Esse trabalho tem-se traduzido em ações concretas nos últimos anos. No Paraná, o TCS mantém engajamento ativo com a UFPR – Universidade Federal do Paraná, a APRE – Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal, a FIEP – Federação das Indústrias do Estado do Paraná e a Fundação Araucária.
Em 2025, o especialista canadense Eric Karsh, referência internacional em engenharia de madeira, participou do EBRAMEM – Encontro Brasileiro em Madeiras e em Estruturas de Madeira, e um webinar conjunto entre UFPR e UBC discutiu inteligência artificial e empreendedorismo aplicados à indústria florestal.
O Congresso Internacional Woodrise — que promove a construção em madeira de médio e alto porte e alterna sua sede entre Canadá, França e Japão — teve sua quinta edição realizada em Vancouver em 2025, com a participação de uma delegação brasileira composta por representantes da indústria, do governo, da Fundação Araucária e da academia.
O conjunto dessas iniciativas situa o setor florestal como um dos capítulos mais consistentes da relação bilateral entre Canadá e Brasil: uma cooperação construída sobre bases científicas e acadêmicas sólidas, que hoje encontra expressão concreta em oportunidades de negócios, transferência de tecnologia e inovação conjunta.
A Seaflor 2026 reafirmou esse percurso e aponta para os próximos passos dessa agenda compartilhada — do intercâmbio acadêmico à cooperação técnica aplicada, delineando um horizonte comum para a bioeconomia florestal dos dois países.