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Marcelo Leoni Schmid

Diretor do Grupo Index

OpCP85

A IA vai substituir o trabalho do engenheiro florestal ?
Existe uma dúvida que paira atualmente sobre cada profissional e, no caso do engenheiro florestal, não é diferente: a inteligência artificial vai substituir o meu trabalho? 
 
A dúvida é legítima, pois em pouco mais de dois anos as ferramentas de IA generativa deixaram de ser curiosidade tecnológica para se tornar parte da rotina de campo, escritório e sala de reunião. Mas a pergunta certa talvez não seja se a IA substituirá o profissional, e sim que tipo de profissional ela irá substituir.

O setor de base florestal observa esse movimento com particular atenção porque lida, há décadas, com um problema que a tecnologia sempre prometeu resolver e raramente resolveu por completo: a dispersão da informação. Dados de campo, imagens de satélite, históricos de manejo, séries de preço e uma quantidade crescente de exigências ambientais e regulatórias convivem em sistemas diferentes, planilhas paralelas e, não raro, na memória de quem está há mais tempo na operação. A consultoria florestal nasceu, em boa medida, para organizar esse conhecimento disperso e transformá-lo em decisão. É natural, portanto, que seja também um dos primeiros elos da cadeia a testar até onde a inteligência artificial consegue ir nessa tarefa.

Um exemplo ilustra bem esse movimento. O Grupo Index, consultoria florestal fundada em 1971 e que hoje tem um histórico de mais de 700 clientes atendidos entre investidores, indústrias de celulose, siderurgia e agronegócio, iniciou em 2018 um processo de investimento em tecnologia que passou por blockchain, sensoriamento remoto e, mais recentemente, inteligência artificial. O percurso é revelador porque não trata a IA como um produto isolado, mas como uma camada que se sobrepõe a cada etapa do trabalho de consultoria, e é justamente essa sobreposição, mais do que qualquer ferramenta específica, que ajuda a entender a pergunta sobre o futuro do engenheiro florestal.

Na prática, o uso cotidiano de IA em uma consultoria de base florestal acontece em pelo menos três camadas distintas, que também ajudam a mapear onde está o valor real da tecnologia.

A primeira camada é a mais simples: a IA como insumo de consulta diária. Ferramentas de inteligência artificial são usadas como fonte de referência rápida, da mesma forma que antes se recorria a um manual técnico ou a um colega mais experiente. Nessa camada também entram os sistemas de geoprocessamento com IA embarcada, capazes de detectar automaticamente florestas, áreas agrícolas e mudanças no uso do solo a partir de imagens de satélite, tarefa braçal que, feita manualmente, consumia dias de trabalho de um engenheiro e o desviava de tarefas mais importantes.

A segunda camada é mais sofisticada e ainda pouco explorada pela maioria das empresas do setor: a IA como colega de trabalho. Trata-se de usar ferramentas já existentes, mas com instruções (prompts) bem desenhadas, para montar equipes virtuais de "consultores" em diferentes níveis de especialização, que se apoiam mutuamente em “cross support”. Um exemplo prático é a organização de agentes de IA para ler, cruzar e analisar grandes volumes de documentos públicos. Outra tarefa braçal que tradicionalmente demandava uma equipe inteira debruçada sobre processos, editais e relatórios por semanas. 

A terceira camada é a que representa a mudança mais profunda: tratar a IA não como ferramenta de apoio, mas como infraestrutura – a primeira opção para qualquer tarefa, não a última (“IA native”). Isso significa dois movimentos simultâneos. O primeiro é organizacional: cada gestor e analista passam a atuar também como gestores de agentes de IA, criando e orquestrando assistentes a partir das próprias rotinas de trabalho. O segundo é técnico: a construção de uma inteligência artificial própria, treinada sobre a base de dados da empresa e desenhada para "pensar" da forma como pensam os consultores mais experientes.

Essa terceira camada só é possível depois de um trabalho anterior, menos visível e bem mais trabalhoso: organizar as bases de dados públicas e as informações de satélite em categorias que façam sentido para a tomada de decisão florestal. Do lado operacional, isso inclui monitoramento de ativos ambientais, detecção de anomalias, geadas, pragas e doenças, risco de fogo e focos de incêndio, contagem de árvores, volumetria, matocompetição, altimetria, identificação de silvicultura, estimativa de gênero e idade e avanço de colheita.

Do lado de mercado, entram disponibilidade e competitividade, identificação de ativos florestais, biomassa florestal, custo de frete e logística, estudos e prospecções de mercado, oferta e demanda florestal, e preço e liquidez. Só depois dessa organização é que se torna viável treinar um modelo especialista, no caso do Grupo Index batizado de Arbor, capaz de cruzar essas variáveis com a agilidade que a operação florestal moderna exige: interatividade, atualização de informação em tempo real e tráfego seguro de dados sensíveis.

É diante desse tipo de ferramenta que a pergunta inicial ganha urgência. Um modelo assim consegue, em minutos, reunir uma capacidade de análise equivalente à de vários engenheiros trabalhando com os métodos tradicionais. Mas capacidade de análise não é o mesmo que capacidade de decisão. 

O foco real da IA aplicada às empresas florestais está na visão ampla e na organização da informação para a tomada de decisão, pois ela resolve o trabalho operacional, repetitivo e demorado. O que ela não resolve, ao menos não sozinha, é: quem é o dono da decisão e o fiador da confiança diante de um cliente, de um investidor ou de um órgão regulador?

Essa distinção fica mais clara quando se olha para a origem da própria palavra "inteligência". Ela vem do latim inter (entre) e legere (escolher, ler) e significa literalmente "escolher entre" ou "ler nas entrelinhas", ou seja, capacidade de discernir, comparar e selecionar a melhor opção entre várias possibilidades. É uma definição que descreve bem o trabalho de um bom engenheiro florestal, mas não descreve o funcionamento de um modelo de linguagem, por mais avançado que seja.

O profissional cujo valor se resumia a repetir procedimentos, compilar planilhas e aplicar fórmulas conhecidas está, de fato, em risco, não porque a IA "pensa melhor", mas porque esse tipo de tarefa nunca exigiu, a rigor, o "escolher entre" que dá nome à inteligência. Já o profissional que interpreta contexto, pondera trade-offs, assume risco e responde por uma decisão diante do cliente segue insubstituível, ainda que trabalhe cercado de agentes de IA.

O desafio que se coloca agora para as empresas de base florestal não é escolher entre manter os métodos tradicionais ou adotar a IA, mas decidir com que velocidade e disciplina vão construir a camada de dados e de agentes que torna a inteligência artificial útil para o setor. Quem tratar isso como um projeto de tecnologia isolado tende a colher pouco. Quem tratar como uma mudança na forma de organizar conhecimento e decisão, ou seja, o mesmo problema que a consultoria florestal sempre existiu para resolver, sairá na frente.
No fim, a floresta continua exigindo o que sempre exigiu de quem a maneja: bom senso, experiência de campo e capacidade de decidir sob incerteza. A inteligência artificial não muda essa exigência. Ela só torna mais evidente quem, de fato, a cumpria.