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Herly Carlos Teixeira Dias

Professor de Hidrologia Florestal e Manejo de Bacias Hidrográficas da UF-Viçosa

Op-CP-28

Técnicas práticas de sustentabilidade

Para ser real, a sustentabilidade deve fazer parte de uma cultura. Se dissermos que é a maneira de se desenvolver sem comprometer os recursos naturais para o futuro, e para isso o desenvolvimento de qualquer setor deve ser viável economicamente, correto ecologicamente e justo socialmente, então esse conceito deveria nascer junto com qualquer iniciativa de desenvolvimento.

Para o setor florestal, algumas iniciativas na área de produção da floresta para os diversos fins estão sendo desenvolvidas na tentativa de tornar o setor ainda mais sustentável. Alguns países já praticam a floresta de produção aliada a técnicas conservacionistas, ampliando os efeitos positivos do caráter permanente das culturas.

O manejo de bacias hidrográficas procura aperfeiçoar o uso dos recursos naturais disponíveis para a produção das florestas plantadas, tomando como suporte prioritário a própria bacia hidrográfica.

Para programar o manejo da bacia e para atingir seus objetivos com sucesso, torna-se necessária a compreensão dos limites da bacia, o que existe de recursos naturais disponíveis no interior dos limites, como esses recursos se integram e como é possível modificar essas integrações para se produzir sustentavelmente. Assim, a hidrologia florestal é fundamental para o entendimento da dinâmica da água e da relação atmosfera-solo-floresta na bacia hidrográfica.

Por isso temos desenvolvido pesquisas a partir de monitoramento hidrológico em bacias hidrográficas com florestas plantadas por meio do Laboratório de Hidrologia Florestal. Tem-se também, a partir desses estudos, iniciado a busca de técnicas de conservação de solo e água, adaptação e criação de novas técnicas, para compor o manejo das bacias hidrográficas florestadas. Dessa forma, podem-se citar alguns trabalhos como casos de sucesso.

Na bacia hidrográfica do Ribeirão São Bartolomeu, bacia que abastece parte da população de Viçosa e a Universidade Federal de Viçosa integralmente, instalou-se um experimento onde foi testada uma prática de conservação que normalmente é indicada para pastagens e culturas agrícolas, em um plantio de eucalipto típico do que é feito nas encostas dos morros da região.

O cordão de contorno nada mais é do que um terraço de base muito estreita, mas que tem grande efetivação na redução da energia cinética da água que desce morro abaixo. Isso diminui a erosividade da chuva e a erodibilidade do solo. Embora a floresta plantada apresente seus mecanismos de proteção do solo por meio da cobertura promovida pelas copas e pelo litter, verificamos que essa técnica reduz cerca de 50% do escoamento superficial de águas livres nas encostas dos morros com eucalipto.

Em outro experimento, como ação socioambiental, além do monitoramento hidrológico de uma bacia hidrográfica, busca-se testar uma técnica de manejo da bacia, já em uso na Europa, denominada Manejo em Mosaico, em que o corte da floresta no âmbito da bacia é feito de forma sequencial e estratégico, buscando distanciar a idade dos mosaicos, além de evitar o corte raso nessa unidade.

Ressalta-se que, além do Manejo em Mosaico, estão associados procedimentos conservacionistas no processo produtivo, como a permanência de resíduos, galhos, folhas, casca na área após corte; a não utilização de queimadas; caixa de coleta de água nas estradas; afastamento de APPs superior ao que consta na legislação; manutenção de RL conforme consta na legislação; manutenção de aceiros; monitoramento da fauna silvestre; e outros. Interessante também é a ação das instituições de ensino, pesquisa e extensão no desenvolvimento de cultivos florestais sustentáveis e alternativos para o setor agropecuário do País.

Nesse sentido, tem-se trabalhado na domesticação da macaúba, palmácea com grande potencial para produção de óleos e subprodutos como carvão a partir do endocarpo. Essa espécie tem uma ocorrência abrangente no País, porém a pouca viabilidade de seus frutos impediam o desenvolvimento do seu cultivo.

Recentemente, uma equipe de pesquisadores da UFV desenvolveu a técnica de produção de sementes germinadas, o que proporciona a produção comercial de mudas. A partir de então, uma série de trabalhos vêm sendo realizados para se determinar a melhor forma de condução dos cultivos, espaçamento, adubação, irrigação, consórcio com outras culturas.

Paralelo as esses estudos, têm-se desenvolvido experimentos com técnicas de conservação de solo e água e consequentemente o monitoramento do efeito do seu plantio nos recursos hídricos da bacia hidrográfica.

A espécie tem se mostrado bastante interessante para concentrar água de chuva em seu tronco e, assim, no solo a seu entorno, devido a sua arquitetura de copa, que é semelhante à de um funil. Apresenta também um baixo índice de escoamento superficial de água de chuva quando em consórcio com pastagem, feijão e associada ao cordão em contorno.

Essas iniciativas tornarão as florestas plantadas mais sustentáveis, porém nada disso será suficiente se os empreendedores não as adotarem. Acredito que chegará um tempo em que, por necessidade, mudaremos as expectativas mais pessimistas em relação à sustentabilidade do planeta, equilibrando a curva de crescimento populacional e disponibilidade de recursos naturais. Para isso, o manejo das bacias hidrográficas deve ser ampla e naturalmente aceito e implantado nos setores produtivos.