Ricardo Anselmo Malinovski

CEO da Malinovski Florestal

Op-CP-59

Planejamento de estradas florestais
Como é de conhecimento de todos, o setor de florestas plantadas é um dos poucos setores da economia que trabalha com ciclos produtivos longos, com o mínimo de 6 anos, no caso da cultura do eucalipto. Todos os anos, as empresas traçam seus planejamentos estratégicos, táticos e operacionais.

Também, anualmente, após intermináveis reuniões em seus diversos departamentos, elaboram orçamentos complexos e milionários para terem previsibilidade dentro de cada operação (implantação, reformas, colheita, logística, etc.).  Aparentemente, tudo é programado para funcionar de forma rotineira, constante, a custos baixos, com qualidade, alta eficiência e, principalmente, de forma segura. 
 
Esse é o cenário de uma grande empresa florestal, que possui técnicos altamente capacitados, tecnologia de ponta e recursos financeiros favoráveis para a realização de investimento. Dashboards diários/semanais do planejado x realizado são apresentados constantemente para os gestores, que são elogiados ou criticados pelo cumprimento ou não dos indicadores preestabelecidos. Atingir a excelência e o cumprimento das metas, nesse caso, desafia o gestor a sempre melhorar, de forma incansável, a busca desses resultados.
 
Para o planejamento das estradas florestais, não deveria ser diferente. No entanto, aqui, existe uma lacuna para reflexão e que pode afetar, a qualquer momento, a companhia, levando em consideração que as estradas são as artérias que vão garantir a fluidez das operações para a implantação, manutenção e proteção das florestas e que, em momento apropriado, serão utilizadas para o transporte da madeira para o respectivo abastecimento fabril.  
 
Qual é a garantia que elas foram bem planejadas e estão em perfeitas condições de tráfego independentemente da fase em que serão utilizadas? Mesmo em empresas florestais com equipes técnicas robustas, percebe-se, de forma rotineira, uma incongruência na condução da importância de se ter um bom planejamento das estradas que vise à otimização de rotas, que defina, com critérios técnicos palpáveis, a qualidade dessas estradas, pensando em tipo de pavimentação, CBR, raio de curvas, declividade atrelada à composição veicular de carga a ser utilizada, etc.

O alicerce para o planejamento da rede viária está em uma boa base cadastral georreferenciada da empresa. Embora essa seja uma premissa importante, é comum encontrar bases de mapas incompletas ou desatualizadas, com densidades de estradas fora dos limites aceitáveis para a otimização das operações. 
 
Falta informação de qualidade das estradas atuais, o que afeta significativamente a gestão de risco do abastecimento, em caso de chuvas, por exemplo, uma vez que não se sabe quais são as estradas adequadas ao transporte. Algumas empresas sequer possuem um manual de estradas para padronização de construções e respectivas manutenções, bem como controle de qualidade dessas operações, dificultando ainda mais a garantia de trafegabilidade.
 
O planejamento ideal da rede viária florestal deve ser integrado, reunindo normas técnicas construtivas, conhecimento da região quanto a solos, pluviosidade, análise econômica e otimização, entre outros. O horizonte de planejamento deve ser pensado para o curto e longo prazo, composto inicialmente de um projeto conceitual e um anteprojeto, onde se define o planejamento global do sistema viário, verificando a necessidade de EIA-RIMA, interpolando todos os fatores de influência para se propor um layout adequado. E, em seguida, realiza-se o projeto, onde se definem não só todos os padrões técnicos como também se contemplam os projetos geométrico, geotécnico, drenagem, etc.
 
Atualmente, muito se fala sobre tecnologias, otimização, Big Data, floresta 4.0, etc. A grande chave, e o principal desafio, é justamente a integração. O planejamento ideal de estradas depende do planejamento ideal de todas as outras áreas do sistema produtivo, atribuído a análises de sensibilidades quanto à variância de fatores de influência, como custo do frete, demanda por produto e produtividade dos módulos. 
 
Sendo as estradas o segundo maior investimento em um empreendimento florestal, perdendo apenas para as florestas em si, o seu planejamento adequado possui extrema importância para a rentabilidade do projeto. O layout deve ser proposto de forma a atender não só à fase inicial de implantação das florestas, mas também pensando nas atividades posteriores, como a manutenção, proteção, colheita e transporte. Assim, o planejamento da rede viária deverá contemplar, de forma equilibrada, as questões sociais, econômicas, ambientais e técnicas.
 
O aspecto social proporciona a conexão entre polos, consolidação da economia local, além do desenvolvimento cultural, com melhores oportunidades de recreação, turismo, saúde, entre outros. Já o econômico está estritamente atrelado com a produção e o suprimento de madeira, sendo indispensáveis para a cadeia produtiva. Quanto ao aspecto ambiental, consideram-se os pontos vulneráveis e buscam-se alternativas para minimizar e/ou mitigar os impactos decorrentes da construção de estradas. Já com relação ao técnico, é considerado o planejamento, a construção e os procedimentos de manutenção e conservação.
 
As técnicas de planejamento para a construção e a manutenção das estradas variam de acordo com a necessidade de cada empresa. Devem ser observadas as características da área quanto às condições do terreno: tipos de solos, topografia e hidrografia, bem como as condições de tráfego − dimensões dos veículos, velocidade e intensidade de tráfego. 
 
Com base em todos esses fatores, define-se a qualidade e o padrão construtivo para cada classe de estrada. Alguns dos fatores que influenciam na qualidade da rede viária são a disponibilidade de matéria-prima (cascalhos, britas, escória, argila, etc.), equipamentos e capacidade de investimentos.
 
O planejamento de estradas não deve ser considerado algo estático, uma vez que diversas premissas utilizadas para a definição do layout se alteram com o decorrer do tempo, como a alteração do sistema de colheita e a distância de extração. Dessa forma, recomenda-se repensar e replanejar o sistema viário sempre que houver alterações como essas, visando à redução da densidade. 
 
A densidade de estradas do projeto deve ser considerada um fator determinante na composição dos custos do empreendimento, pois, quanto maior a densidade, maior serão os custos de construção e manutenção, a perda de áreas de efetivo plantio e, quando associada ao sistema de drenagem deficiente, maiores também são a predisposição a processos erosivos e os impactos ambientais.
 
Felizmente, hoje, as tecnologias disponíveis estão ajudando, de forma significativa, a refinar o planejamento das estradas. Um dos exemplos é a utilização de imagens de satélite e/ou drone para identificação e classificação de qualidade das estradas. Também existem softwares no mercado para auxiliar no desenho das vias, de forma otimizada, correlacionando diversos fatores de influência para definição das melhores rotas, visando sempre à redução dos custos e à garantia de abastecimento.E para você, no seu negócio, qual é a importância que você dá para as estradas?