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Sofia Maria Gonçalves Rocha

Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Qualidade da Madeira da Universidade Federal do ES e Técnica Florestal da Eldorado

OpCP65

O impacto das condições climáticas na densidade
O Brasil possui alta diversidade de condições ambientais, e o seu território é classificado em até 12 tipos climáticos, com variação em suas características, desde locais úmidos a secos, tropicais a temperados e com distintas sazonalidades entre as estações do ano. Os climas predominantes no Brasil são os tropicais, seguidos de climas subtropicais e uma parte menos expressiva com clima seco. 
 
Além da diversidade climática existente no Brasil, o mundo tem passado por um cenário de mudanças climáticas, em que a tendência é um aumento global de temperatura e déficit hídrico. Nesse contexto, com a finalidade de manter as florestas plantadas de eucalipto com produtividade e qualidade de madeiras ideais aos objetivos da indústria florestal, há urgência de se conhecerem as estratégias utilizadas pelas diferentes espécies e materiais genéticos, pois, somente assim, será possível o direcionamento eficiente durante a etapa de escolha adequada para o plantio.
 
O fuste das árvores apresenta relações funcionais um tanto quanto distintas, em que, mesmo quando desempenham papel de condução da água para sobrevivência das árvores, são responsáveis pela sua sustentação mecânica. Nesse sentido, quando os plantios são submetidos às condições climáticas contrastantes e que inferem situações de estresses às plantas, estratégias de modificações no arranjo anatômico são as mais significativas e refletem diretamente sob a densidade básica da madeira.

Clones de Eucalyptus grandis x Eucalyptus urophylla, em resposta à exposição em locais com menores disponibilidades hídricas, utilizaram estratégias anatômicas da diminuição de diâmetro e área de vasos e aumento na espessura das paredes de fibras, com a finalidade de garantir a segurança hidráulica, otimizando a utilização da menor quantidade de água disponível e garantir a resistência à embolia nos vasos condutores. 
 
Essas adaptações anatômicas com menor quantidade de espaços vazios (vasos condutores) e maior de materiais lenhosos (paredes de fibras) refletem na maior densidade básica da madeira e sugerem que materiais genéticos que apresentam maior tolerância a menor disponibilidade hídrica tendem a possuir madeira mais densa.

Seguindo essa lógica, é preciso ressaltar que a influência das condições climáticas na densidade da madeira perpassa desde as alterações anatômicas até a produtividade das florestas. As modificações na densidade da madeira, motivadas pelas variações climáticas, nem sempre apresentam tendências lineares com a produtividade, e, principalmente, cada material genético pode adotar estratégias distintas, de acordo com sua interação com as variáveis meteorológicas.

Esse cenário é exemplificado pela observação da interação da densidade básica da madeira de dois clones plásticos com as variáveis meteorológicas de 11 locais que possuem condições climáticas distintas no Brasil, conforme mostra a figura em destaque. Ao passo que o Eucalyptus grandis apresenta correlações mais fracas entre a densidade básica e as variáveis meteorológicas, o Eucalyptus urophylla apresenta forte correlações, o que sugere que a densidade básica desse clone é fortemente modificada pelas variações climáticas.
 
Outro ponto importante é que, enquanto o E. grandis sugere que há um aumento na densidade básica da madeira em locais com maiores temperaturas e déficit hídrico, para o E. urophylla (AEC 144), altas temperaturas e déficit hídrico, em algumas situações, ocasionam a diminuição na densidade básica da madeira. Esse resultado ilustra, de forma clara, que nem sempre locais mais secos e quentes inferem em plantios menos produtivos com madeiras mais densas, sendo necessário conhecer as tendências intrínsecas de cada material genético.
 
A combinação entre a produtividade volumétrica de uma floresta e a densidade básica de sua madeira origina a estimativa de biomassa da madeira de um povoamento, sendo essa a variável que atrai a indústria de transformação. Nesse sentido, é preciso analisar se, de acordo com a finalidade industrial, a diminuição volumétrica de madeira, ocasionada pela condição climática do ambiente, pode ser compensada pela produção de biomassa, impulsionada pelo acréscimo de densidade básica na madeira.

Observamos essa compensação em pesquisa realizada com um clone de E.grandis x E.camaldulensis avaliado entre cenários úmido e subúmido, onde houve uma diminuição de 27% da produção volumétrica e acréscimo em 9% na densidade básica da madeira, o que resultou em uma diferença não significativa na produção de biomassa, igualando-a entre os dois cenários. 
 
Visto que a influência do clima na densidade da madeira de eucalipto é uma resposta clone-específica e que não se pode determinar uma linearidade entre as condições climáticas, produtividade e densidade da madeira, o foco da pesquisa florestal tem sido voltado aos entendimentos de como a densidade básica da madeira de diferentes materiais genéticos se modifica frente a distintos cenários climáticos e quais os impactos na madeira como matéria-prima.

Essa tem sido uma ferramenta promissora e vem ganhando espaço nos programas de aprimoramento genético florestal, pois as novas fronteiras de expansão florestal têm apresentado condições mais áridas, e é urgente selecionar materiais genéticos que atendam à demanda em produtividade de madeira, mas com densidade em faixas ideais de acordo com o objetivo da indústria.
 

 

O Gráfico mostra as Correlações de Pearson entre a densidade básica da madeira e as variáveis meteorológicas para clones de Eucalyptus urophylla e Eucalyptus grandis aos 4 anos de idade.


DB: Densidade básica da madeira (g.cm3);

T: Temperatura (°C);

Ppt: Precipitação anual (mm.ano-1);

UR: Umidade relativa média (%);

RS: Radiação solar (Mj.m-2.dia-1);

DPVmax: Déficit de pressão de vapor máximo (kPa.dia-1);

DEF: Déficit hídrico (mm.ano-1);

SazT: Sazonalidade da temperatura (°C);

SazPpt: Sazonalidade da precipitação (mm.ano-1).