Leonardo Bonetti

Diretor da Iniciativa Agronegócios

Op-CP-55

Nova classe de ativos para investidor comum?
Findas as eleições para o cargo majoritário do País e a eleição dos novos membros do Congresso Nacional, vislumbra-se um horizonte com diversas oportunidades e desafios para o Brasil. À luz do resultado das urnas, nota-se um anseio da maioria da população por mudanças significativas na condução econômica e política com relação ao que vinha sendo praticado pelos governos anteriores.
 
Os responsáveis pela condução da política econômica atual, todos alinhados com a escola liberal de Chicago e tendo em Paulo Guedes seu maior expoente, têm na reforma da previdência seu maior desafio no que tange ao equacionamento de médio e longo prazo para as contas públicas do País.
 
A aprovação da reforma da previdência, concomitante a uma política de diminuição do Estado com um programa vultoso de concessões e privatizações das centenas de empresas estatais, nos guiará para um futuro de juros de longo prazo convergentes com os juros praticados mundialmente e definitivamente inserirá o País na rota dos investidores mundiais.
 
Juros baixos de longo prazo darão previsibilidade aos investidores no que tange à tomada de decisão de novos investimentos, bem como induzirão os detentores da poupança privada atual a migrarem para investimentos de maior risco para atingirem suas metas de rentabilidade.
 
A cultura do “CDI” (Certificado de Depósito Interbancário), ainda reflexo dos períodos hiperinflacionários e da cultura de curtíssimo prazo tende a se arrefecer, e as mais diversas classes de ativos tendem a se precificar por parâmetros cada vez mais condizentes com as características intrínsecas aos setores em que atuam.
 
Não há como o setor produtivo se desenvolver e competir globalmente com as taxas de juros praticadas no País. Não há nação saudável do ponto de vista financeiro pagando os juros reais que o Brasil pratica há décadas. A poupança do País deixará gradativamente de financiar um Estado paquidérmico para financiar o setor produtivo.
 
No âmbito mundial, nota-se também uma mudança muito grande de paradigma dos grandes investidores e das grandes fortunas no que diz respeito à decisão de alocação de capital. Há uma preocupação crescente dos novos atores no impacto que seus investimentos terão, em aspectos sociais, econômicos ou ambientais, os chamados impact invest (investimentos de impacto).
 
Sai o retorno financeiro exclusivamente como parâmetro de retorno nos investimentos e entra em cena o chamado "capital de propósito". Esse capital vislumbra não somente retornos financeiros, mas também visam impactos positivos no contexto onde estão inseridos e no mundo, de forma geral.
 
No Brasil, esse movimento já existe e ganha robustez a passos largos. E sob esse prisma, classe de ativos, que hoje é restrita aos grandes investidores, tende a se popularizar e ganhar as prateleiras das mais diversas plataformas de investimento, que há muito vêm mostrando seu poder de capilarização junto a uma gama cada vez maior de investidores.
 
E, entre essas novas classes, uma que tem todas as condições para se popularizar é o investimento florestal. Hoje, os maiores atores dessa indústria são os fundos de pensão e os grandes investidores. Os fundos de pensão veem no plantio de florestas, com a respectiva aquisição de terras em lugares estratégicos, uma das formas de se obter o retorno atuarial que se prontificam aos seus cotistas.
 
Já as grandes fortunas veem nessa classe de ativos uma oportunidade ímpar de diversificação de portfólio de investimento, objetivando um maior equilíbrio, diversificação de risco e aquisição de produto descorrelacionado dos demais ativos que usualmente compõem suas carteiras (investimentos imobiliários, financeiros, juros, títulos privados, etc.).
 
O investimento em floresta plantada captura movimentos econômicos antagônicos do País. Caso a condução econômica, fiscal e política fique comprometida, o cambio se apreciará, e as indústrias de celulose, por exemplo, que têm 70% dos seus custos em real e 90% das suas receitas em dólar, tornam-se ainda mais competitivas, permitindo pagar mais pelo seu insumo primordial que é a floresta. 
Caso o cenário seja mais promissor, e é com esse cenário que trabalhamos atualmente, haverá um incremento do Produto Interno Bruto, com retomada de atividades dependentes dessa melhora, como a construção civil, por exemplo, aumentando, assim, o consumo de madeira como insumo para chapas, laminados e indústria moveleira.
 
Aliado a esses fatores, o Brasil apresenta grandes vantagens competitivas no setor de florestas plantadas (e me aterei somente a esse segmento), se comparadas aos outros atores internacionais. Enquanto a produtividade de uma floresta de eucalipto no Brasil é de 37m3/ha/ano, na China, é de aproximadamente 29m3/ha/ano, no restante da América do Sul, é de 27m3/ha/ano, e, na Europa, não chega a 10m3/ha/ano.
 
Traduzindo essa dinâmica para efeito caixa das empresas de celulose, por exemplo, o custo em US$/tonelada produzida reflete-se da seguinte forma: Brasil: US$ 237; USA: US$ 454; China: US$ 427; países ibéricos: US$ 337; e Chile/Uruguai: US$ 327. Há algum tempo, os fundos de investimento detectaram que a demanda pelo ativo "madeira" será uma constante para suprir esses mercados e vem se posicionando na compra de terras nas mais diversas regiões do País. 
 
Tal posicionamento leva em conta tanto a valorização dessa terra ao longo do tempo como o acesso a mercados diversificados, as condições regulatórias e ambientais apresentadas e a mitigação do maior número de variáveis de produção possível. Nesse prisma, o estado do Mato Grosso do Sul figura como o principal destino desses investimentos, quando pensamos em florestas plantadas de eucalipto, pois lá se encontra o maior polo de celulose do mundo, um dos poucos lugares no planeta que comungam dois grandes players, Eldorado Brasil S/A e Suzano S/A, disputando os mesmos ativos; condições ambientais e regulatórias bem satisfatórias quando comparadas a outras regiões do País; proximidade a outros centros consumidores (estado de São Paulo); além de existir um histórico de silvicultura na região, onde grande parte do custo de aprendizagem já foi pago ao longo do tempo. Aliado a isso, o estado apresenta uma grande oferta de áreas de pastagem, em muitos casos degradadas, tendo como atividade econômica a pecuária extensiva, apresentando ainda preços acessíveis ao investimento florestal. 
 
A simples adequação ambiental e fundiária dessas áreas, somada à transformação de terras improdutivas em produtivas e a eventual “clusterização” desses maciços, é vetor de apreciação dos investimentos. Nessas áreas, após a transformação com florestas plantadas, temos ainda diversos produtos e serviços não madeireiros que são muito pouco explorados e que, na maioria dos casos, são tratados como upsides futuros do investimento florestal. 
 
Nas áreas do grupo Iniciativa Agronegócios, pioneiro em tornar o investimento florestal acessível a pessoas físicas, essas questões são levadas muito a sério. As áreas apresentam um sequestro de carbono na ordem de 12.000 kg de carbono/ha/ano, faz-se a recomposição das Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente, e não somente o abandono das áreas para regeneração natural, fora a contratação exclusiva de mão de obra local, gerando, dessa forma, os impactos positivos que, aliados ao retorno financeiro, farão o investimento florestal ser cada vez mais difundido como classe de ativo relevante aos investidores presentes no mercado nacional. 
 
Espera-se dos novos dirigentes a formação de uma política nacional para o setor, com o desenvolvimento de instrumentos jurídicos que permitam a securitização dos ativos, flexibilização da compra de terras por grupos estrangeiros e informações sólidas e consistentes do mercado florestal em âmbito nacional, observando as peculiaridades das mais diversas regiões e suas vocações. Esses fatores, somados ao dinamismo da iniciativa privada, permitirão que o mercado florestal se torne acessível aos pequenos poupadores.