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Jorge Roberto Malinovski

Professor de Sistemas de Colheita da UF-PR e Diretor da Malinovski Florestal

Op-CP-32

A floresta plantada e suas interfaces ambientais

Quando se fala de florestas plantadas, dependendo do leitor, várias são as interpretações. Podem levá-lo a lembrar-se, por exemplo, da produção ou da sustentabilidade do meio ambiente. Desejo, aqui, traçar alguns comentários relacionados à interatividade entre essas duas formas de visualização dos plantios florestais.

Lembrando a história recente dos povoamentos homogêneos no Brasil, ele se iniciou com o advento dos incentivos fiscais e de reposição obrigatória nos idos da década de 1970, quando não era foco principal a interatividade entre a produção e o meio ambiente.

Os anos se passaram, e muitos projetos daquela época foram adquiridos e incorporados a grandes projetos verticalizados, e vários sofreram modificações e adequações ao longo do tempo. Iniciei com esse preâmbulo para, a partir de agora, discorrer sobre o assunto que escolhi para este artigo; “a infraestrutura florestal”, para a qual, nos projetos antigos, não se dava a real importância, pois o objetivo era plantar, e não se vislumbravam as necessidades para a colheita.

Como herança desse tempo, muitas empresas ainda têm talhões em forma e tamanho inadequados, estradas para fins florestais com grandes problemas relacionadas com densidade e qualidade, e muitas vezes necessitando de reorganizações em sua malha viária.  

A questão da rede viária – planejamento, construção e uso – é de fundamental importância quando relacionamos a produção com o meio ambiente, pois, em uma escala de interferência, ela é aquela que mais o agride. Uma estrada mal implantada pode influenciar negativamente tanto o solo, pela potencial erosão, como também a água, pelo carreamento de material, que afetará sua qualidade.  

O estabelecimento inadequado de uma estrada também causa um dano irreversível à paisagem, o que também é negativo do ponto de vista ambiental. Hoje, muitas empresas já colocaram em seus manuais a necessidade do “manejo da paisagem”, onde o desenho das estradas deve estar em consonância com a topografia da região, assim como o planejamento do corte das florestas.


Uma rede viária bem organizada reduz riscos e garante abastecimento fabril, e os cuidados com ela devem ser relevantes. As estradas não passam somente nas áreas de produção, mas, como integram áreas, passam por “Reserva Legal”, como também em “Áreas de Preservação Permanente”, que possuem maiores restrições legais para sua construção e uso.

É mais comum, hoje em dia, as empresas procurarem melhorar a rede viária existente do que buscar novas alternativas, principalmente em áreas de relevo mais ondulado, devido às questões de ordem burocrática acabarem prevalecendo sobre as questões técnicas.

Voltando ao passado, muitos projetos organizaram sua rede viária pensando somente no transporte de madeira utilizando caminhões de baixa tonelagem, o que, hoje em dia, não faz sentido, pois a maioria do transporte de toras se faz com caminhões de alta tonelagem, o que implica, indubitavelmente, melhorar a qualidade das estradas, tanto seu piso, como – e principalmente – as rampas e os raios de curva. Muitas vezes, não é possível usar o traçado existente, e se fazem necessários estudos de novas alternativas no total, ou, normalmente, em trechos.

Para que a rede viária florestal não seja a “vilã”, quando relacionamos os fatores de produção com o meio ambiente, se faz necessário um criterioso uso de parâmetros técnicos, tanto para o planejamento como também para a construção e a manutenção das estradas.

Esse ponto, hoje, é bastante discutido nas empresas, e muitas já têm normatização a respeito, mas, em minha opinião, falta ainda muito a se fazer, pois existe certa lacuna de planejamento, construção e uso em várias empresas do setor.

Também se podem relacionar aqui as estradas que serão usadas em uma fazenda/projeto que, via de regra, não ligam diretamente a área de produção com a indústria, pois passam por áreas de vizinhos, estradas públicas, entre outras, nas quais, muitas vezes, o padrão de qualidade não é o mesmo, e as empresas necessitam adequá-las ao seu meio de transporte.

Notam-se, por exemplo, vizinhos que não aceitam “deságue”, proveniente de drenagem das estradas, em sua propriedade. Então, o que fazer? Normalmente, se procuram acordos, mas nem sempre se consegue o esperado.

Outro ponto a se considerar nesse contexto é a formação de poeira, que, muitas vezes, se torna problema para o tráfego de caminhões que passam por vilas, povoados ou casas à beira das estradas. Como resolvê-lo? As empresas costumam regar com água, mas algumas leis estaduais estão restringindo cada vez mais essa prática, relacionando a captação de água com a vazão do córrego/riacho, o que está aumentando bastante o custo da operação.

Outra forma para minimizar o problema é a utilização de produtos químicos (enzimas, cal, entre outros), mas ainda com poucos resultados técnicos/econômicos comprovados.

As estradas devem garantir toda a cadeia produtiva da madeira: o plantio, a manutenção, a colheita, o seu transporte e a guarda da propriedade, de fundamental importância no negócio com floresta plantada; assim, ela deve, além de garantir sua função, estar em consonância com a manutenção da produtividade e a sustentabilidade do meio ambiente.

Assim, ela deve ser encarada de forma técnica/econômica e ambientalmente adequada, e daí vem a pergunta: qual é o custo aceitável das estradas na composição do custo da madeira? Essa pergunta pode ter diversas interpretações.

Primeiro, esse valor será debitado na empresa como “custo” ou “investimento”. Algumas empresas colocam “rede viária básica” (implantação) como investimento, e a “rede viária complementar” (colheita), como custo. Segundo, a interpretação de que estrada é só custo, e terceiro (menos usada) é que a estrada é investimento.

As estatísticas de custos no Brasil colocam que a média do custo da rede viária é de US$ 1 a US$ 2 por metro cúbico produzido, que compreende tanto a construção como a manutenção, porém esse valor dependerá muito da sua densidade e da sua qualidade.

Hoje, se discutem a “densidade aceitável de estradas”, a porcentagem de cascalhamento relacionado com garantia de abastecimento, o tamanho de talhões e, principalmente, os desenhos e as técnicas construtivas que garantam o transporte, mas que estejam em consonância com a sustentabilidade do meio ambiente. Portanto a rede viária adequada é a “chave” para o sucesso do negócio florestal proveniente de florestas plantadas no Brasil. Esse tema é bastante relevante, e, para melhor discuti-lo, acontecerá, em outubro deste ano, o Encontro Brasileiro sobre Infraestrutura Florestal, que abordará praticamente tudo o que apresentamos aqui. Para finalizar, gostaria de deixar uma pequena reflexão: “A melhor forma de preservar é saber usar”.