Jefferson Bueno Mendes

Diretor da BM2C - Business Management Consulting

Op-CP-59

Investimentos florestais: necessários e rentáveis?
A resposta para a primeira parte do título é sim, e o racional é simples. Como em qualquer outro setor da economia, investimentos para a produção de matéria-prima é necessário, principalmente porque o processo de produção é intensivo em capital, tempo e tecnologia. Já quanto à segunda parte, relativa à atratividade dessa classe de investimento (plantios florestais), minha opinião é a de que a rentabilidade tem ficado aquém do seu potencial. 
 
O setor florestal é um “animal” bem diferente da maioria dos demais setores da economia, justamente por ser intensivo em capital, tempo e tecnologia, e por depender significativamente das condições edafoclimáticas para realizar sua produção. Essas características tornam o setor marginal no mundo dos investimentos. 
 
Mais especificamente, a silvicultura como atividade econômica apresenta alguns desafios “orgânicos” para os investidores florestais: longo período para o retorno do investimento; complexo processo de entrada e saída; necessidade intensiva de capital, alto grau de incerteza devido aos fatores bióticos; mercado de madeira “perfeitamente imperfeito” (clusters de comercialização associados a poucos consumidores com um alto poder de barganha).
 
No Brasil, essas características restringem as oportunidades de investimento a praticamente duas classes de investidores: à indústria de base florestal, principalmente à de celulose e de painéis reconstituídos, e aos investidores institucionais, normalmente fundos de pensão e alguns family offices. Marginalmente, também participam pequenos investidores, normalmente produtores rurais buscando o aproveitamento de terras de baixa produtividade. Regra geral, esses investidores têm pouco ou nenhum incentivo/intenção de participar ativamente no mercado florestal devido à baixa ou a nenhuma rentabilidade. 
 
Em nosso país, o investimento florestal se viabilizou em meados da década de 1960, com a política dos incentivos florestais, que vigorou até o início da década de 1980. A partir daí, os investimentos aconteceram somente via indústria, novamente celulose e painéis reconstituídos, até o final da década de 1990. No início da década de 2000, os investidores internacionais chegaram ao Brasil comprando ativos florestais através de gestores de investimentos (TIMOs ), repetindo o que aconteceu nos Estados Unidos em meados da década de 1980. Mais no final da década de 2000, surgiram as TIMOs nacionais, replicando o modelo adotado pelas empresas internacionais. 
 
Na primeira onda de investimentos, as TIMOs compraram ativos já produtivos, em mercados mais maduros, com boas oportunidades de arbitragem econômica. Em um segundo momento, com a exaustão das oportunidades, essas organizações iniciaram projetos greenfield, assumindo os riscos inerentes à atividade silvicultural. E, mais recentemente, começaram a financiar a silvicultura para as indústrias de celulose e de painéis reconstituídos, via compra de plantios existentes e acordos de suprimento de longo prazo, com retorno prefixado. 
 
Analisando a história do mercado de investimentos florestais (incentivos > integração floresta-indústria > TIMOs), pode-se dizer que houve uma evolução positiva, mas não o suficiente para tornar o mercado de madeiras e, por consequência, o setor florestal mais sustentável e eficaz. 
 
Quando comparamos o setor florestal brasileiro com outros players de destaque, como os Estados Unidos e os países nórdicos, vemos que há muitas oportunidades para escalarmos o ranking internacional. Mas isso somente irá ocorrer com um mercado de madeira realmente competitivo, onde haja um equilíbrio de forças. 
 
E como poderíamos melhorar a saúde desse mercado considerando que a maioria dos clusters brasileiros têm mercados significativamente imperfeitos? Entre as muitas ações necessárias, gostaria de destacar quatro, sem uma ordem de prioridade. A primeira pode parecer desnecessária, redundante, mas não é: precisamos de uma política florestal estruturante para o País, com visão, 
 
estratégia e ação de longo prazo, algo que não existiu nas últimas três décadas. Houve, sim, uma série de iniciativas “virtuais”, não estruturantes e sem consequências práticas positivas. Também houve, por parte do Governo Federal, a disponibilização de “ferramentas”, como as linhas de financiamento, mas também sem resultados estruturantes como os obtidos com a política de incentivos fiscais da década de 1960. Aqui vale um parêntese: não estou defendendo a volta dos incentivos fiscais. 
 
Com o valor investido na época, poderíamos ter, hoje, pelo menos 14 milhões de hectares, ao invés dos 8 a 9 milhões existentes. Uma segunda iniciativa para tornar a estrutura do mercado mais sólida seria a efetiva inclusão dos produtores rurais na cadeia produtiva florestal.
 
Tentativas anteriores, via “fomento florestal” e “parcerias”, promovidas por parte da indústria e pelo governo, fracassaram por razões que não cabem ser discutidas neste artigo. Em contraste, tanto na Europa quanto na América do Norte, o produtor rural é parte ativa da cadeia produtiva florestal, contribuindo significativamente para a sustentabilidade do setor florestal e da economia rural como um todo. No Brasil, esse modelo permitiria a otimização do uso da terra e a viabilização de indústrias em regiões de alta concentração populacional e sem grandes extensões de terras disponíveis para a silvicultura intensiva, ou onde o uso potencial do solo é agrícola. 
 
A terceira sugestão é a criação de mecanismos financeiros adequados à silvicultura. Pode-se argumentar, aqui, que esses mecanismos já existem, disponibilizados pelo FCO, FNE e BNDES, por exemplo. Mas, considerando o contexto do mercado silvicultural, principalmente quanto ao retorno dos investimentos, discordo da efetividade desses mecanismos. Com certeza, eles podem ser significativamente melhorados. Adicionalmente, há outros mecanismos mais democráticos e eficazes que poderiam ser adotados no Brasil, como timberland evergreen funds, real estate Investment trusts e os real state funds. Esses mecanismos dariam acesso a muitos investidores que hoje fogem do investimento florestal devido aos seus desafios orgânicos.
 
Para finalizar minhas sugestões, acredito que os investidores devem considerar outros modelos de investimento, associando os ativos “plantios florestais”, “terra”, “agricultura” e “pecuária”. Essa associação criaria mais valor para os investidores e reduziria o risco base do investimento florestal. 
 
O modelo tradicional de negócio (aquisição de ativos com base no fluxo de caixa descontado) tem enfrentado adversidades significativas em mercados maduros. Essas quatro sugestões têm um grande potencial de tornar os mercados mais atraentes e atrair mais investimentos. Com certeza, outras medidas/ações merecem ser discutidas, como a regulação do acesso à terra pelo capital estrangeiro. Esse assunto está em pauta no congresso brasileiro, mas, desde 2010, temos escutado que “... em dois meses esse assunto estará resolvido”. Enquanto isso, os investidores internacionais têm que usar a criatividade e pagar o “custo Brasil” para investir no setor florestal, algo que muitos deles têm evitado.