Marcus Vinicius Masson e Rodrigo Eiji Hakamada

Gerente de P&D da BSC e Professor de Silvicultura da UFR-PE, respectivamente

Op-CP-53

Pesquisa: uma afiada ferramenta de campo
Em um dos artigos mais diretos e claros da Revista Opiniões, na edição sobre “O futuro próximo da floresta plantada”, o sábio Edson Balloni questionava se valia mais a pena cultivar árvores ou repolho. Não era nada contra a cultura do repolho, mas sim uma indagação sobre a viabilidade de produção da madeira, que veio decaindo ao longo dos últimos anos e já poderia ser comparada àquela cultura. 
 
Três anos se passaram e o mercado de madeira não mudou significativamente. Ainda é possível se questionar se os repolhos não valeriam a pena. Com isso, toda a cadeia de produção de produtos florestais precisa, mais do que nunca, otimizar os seus custos, respeitando o tripé da sustentabilidade socioambiental e econômica. Isso só será possível através de duas grandes frentes de trabalho: o investimento em pesquisa, desenvolvimento e tecnologia e a aplicação de conceitos e tecnologias já conhecidas. 
 
Uma das formas de alavancar essa primeira linha é através das parcerias público-privadas. O setor de base florestal já desenvolve isso muito bem, no entanto ainda há espaço. Basta questionarmos quantos trabalhos sérios de mestrado, mestrado profissional e doutorados estão sendo conduzidos em parceria com as empresas. É pouco, essa parceria ainda pode ser expandida.
 
Há diversas inovações tecnológicas sendo investigadas e aplicadas no setor florestal, e, neste texto, concentraremos naquelas relacionadas à proteção florestal. Um dos trabalhos recentes busca o monitoramento de pragas e doenças através de índices de reflectância. 
 
O controle biológico já é uma realidade em florestas plantadas, e a distribuição de embalagens biodegradáveis para a liberação de inimigos naturais para lagartas desfolhadoras já utilizadas na agricultura é uma inovação que vem sendo testada. Esses trabalhos estão sendo conduzidos por diversas parcerias entre o setor privado e institutos de pesquisa, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais e a Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquista” (UNESP), nas figuras do professor Carlos Frederico Wilcken  e Edson Furtado. 
 
A ecofisiologia, ou seja, a ciência que investiga a resposta das plantas a mudanças no ambiente, tem servido como uma forma de inovação tecnológica, uma vez que dela saem produtos aplicáveis à floresta. Um exemplo é o uso do Índice de Área Foliar, ou a quantidade de folhas por área de floresta, capturado por sensores remotos que permitem o monitoramento quase online de injúrias em povoamentos de larga escala. Não é necessário, para isso, o uso de ferramentas caras, mas apenas imagens gratuitas do satélite Landsat que são disponibilizadas pela NASA, em média, a cada 15 dias.
 
Outra inovação que está “no forno” são as ferramentas ecofisiológicas para identificar materiais genéticos tolerantes a estresses, notadamente o estresse hídrico. Em trabalho publicado na revista Nature, compilamos pesquisas realizadas no mundo inteiro e observamos que há duas características que podem ser mensuradas e que aparentam predizer quando uma planta está próxima da mortalidade: a perda de condutividade hidráulica e a redução de carboidratos solúveis.

É preciso de mais trabalhos para validar essas informações no Brasil, mas, em suma, uma mensuração relativamente simples dessas duas características poderia classificar os materiais quanto à sua tolerância à falta d´água. 
 
Uma fragilidade das principais inovações é o fato de, via de regra, serem dispendiosas, não permitindo ao produtor de madeira o seu uso. Para isso, é fundamental que seja pensada uma forma de os institutos de pesquisa e extensão, como o Ipef, Embrapa, universidades públicas, absorverem as inovações que vêm sendo desenvolvidas pelo setor privado. Sabemos, há tempos, que essa relação se inverteu e que os institutos não conseguem acompanhar a rapidez do desenvolvimento das equipes de P&D&I das empresas privadas.
 
Além do presente texto, os articulistas desta edição estão citando dezenas de novas tecnologias, que agregam valor aos produtos e buscam otimizar os processos produtivos e de gestão. No entanto, não acreditamos que isso saia do papel sem que o foco seja 100% mantido na aplicação contínua das ferramentas em campo. Ou, parafraseando Dr. Nelson Barboza Leite, nunca o silvicultor de botina foi tão necessário para que as novas tecnologias não permaneçam apenas nas telas dos smartphones, tablets e notebooks.