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Antonio Joaquim de Oliveira

Presidente Executivo da Duratex

Op-CP-44

Compartilhando o conhecimento
O setor de florestas plantadas surgiu há um século no Brasil e teve um boom de desenvolvimento a partir da implantação dos incentivos fiscais de 1967. Naquela época, começou o desenvolvimento cooperativo do conhecimento, uma forma de trabalho que se caracterizou como marca registrada do setor. Vejamos o caso do eucalipto: uma produtividade de 10 a 15 m³/ha/ano subiu para os atuais níveis de 50 m³/ha/ano nesse pouco tempo.
 
Pela falta de tecnologia existente à época, as empresas de base florestal sentiram a necessidade de se unir aos centros de formação de conhecimento, que são as universidades. Liderados por um grupo pequeno de empresas, entre elas a Duratex, foram criados, em 1968, o Ipef – Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais, junto à Esalq – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP e, logo em seguida, a SIF – Sociedade de Investigações Florestais, junto à UFV – Universidade Federal de Viçosa. 
 
Esses grupos de pesquisa foram crescendo, agregando novas empresas e centros de desenvolvimento e compartilhando conhecimento. A ideia era simples e forte: os problemas enfrentados para entender às exigências e às necessidades das diferentes espécies florestais eram comuns a todos, e, reunindo esforços, poderíamos crescer rapidamente. 
 
Tive a oportunidade de ser presidente tanto da SIF (1998-2000) como do Ipef (2000-2005) e, durante o período em que estive à frente desses institutos, pude ter certeza de que o trabalho cooperativo foi o responsável por trazer conhecimento ao setor. Ou seja, foram as lideranças nas empresas e os professores comprometidos com a geração de tecnologia aplicada que promoveram esse desenvolvimento. Nos primeiros anos do estabelecimento do setor de florestas plantadas, tudo precisava ser estudado e compreendido.

Foi assim com a iniciação de diferentes 
espécies de eucalipto no Brasil, que começaram os primeiros programas de melhoramento genético das espécies potenciais. A Duratex foi uma das pioneiras na introdução comercial do Eucalyptus grandis, que passou a ser melhorado por meio de ciclos de seleção. A clonagem surgiu como ferramenta fundamental para propiciar a reprodução dos melhores indivíduos selecionados nas florestas melhoradas, e, com isso, surgiu um novo padrão de homogeneidade das florestas, facilitando não somente operações da silvicultura, mas, principalmente, da colheita.
 
Nos aspectos de manejo florestal, investiu-se muito em pesquisas para conhecimento da relação entre diferentes usos da madeira e espaçamentos mais apropriados, bem como técnicas de manejo por podas e por desbastes. Foram também investidos esforços para
identificar as necessidades nutricionais do eucalipto, associadas aos diferentes tipos de solos e climas.
 
Naturalmente, àquela época, as tecnologias foram muito adaptadas da agricultura, caracterizada por preparos intensivos de solo e uma metodologia em que o uso do fogo era permitido. Mas esse modelo de preparo intensivo de solo passou a ser questionado quando, sob os avanços da sociedade nos aspectos ambientais, começou a haver muita troca de informação entre as empresas e os centros de geração de tecnologia, com envolvimento dos fabricantes de insumos para uso florestal. Foi quando surgiu o cultivo mínimo, que gerava a redução de custos de implantação florestal em um cenário de escassez crescente de mão de obra, atingindo um outro patamar para a silvicultura do eucalipto.
 
Nesse cenário de dificuldades de mão de obra, a Duratex foi uma das pioneiras em adaptar o modelo escandinavo de colheita florestal e de transporte de madeira, totalmente mecanizados. Esse foi mais um exemplo de trabalho cooperativo que incluiu a colaboração de inúmeros fabricantes e de fornecedores de máquinas, sistemas e peças.  
 
Agora é a vez da mecanização da silvicultura, já que a mão de obra será cada vez mais escassa. As diferentes operações necessárias ao desenvolvimento da floresta terão de passar por um processo de simplificação e de racionalização para se conseguir um modelo mais enxuto e eficiente.
 
Sempre que falamos sobre o manejo florestal, cito o Programa Torre de Fluxo (Eucflux), pioneiro no estudo aprofundado dos balanços de carbono, água e nutrientes ao longo de todo um ciclo de uma floresta de eucalipto. O intuito do projeto é formular recomendações práticas de manejo que otimizem a produção e garantam a sustentabilidade desses plantios comerciais. As contribuições desse projeto têm sido tão expressivas para o setor florestal que o consórcio de empresas participantes, do qual fazemos parte, já estuda sua continuidade em maior escala por diferentes regiões produtoras de eucalipto no Brasil, acrescentando a contribuição das tecnologias de sensoriamento remoto para o monitoramento dos balanços de carbono, água e nutrientes. 
 
Não podemos deixar de lembrar a questão das pragas e doenças que, pouco a pouco, vão surgindo e se estabelecendo em solo brasileiro. Há também outros riscos para as florestas, como o fogo, a seca e os extremos de temperaturas. Todos são ameaças que, se não forem bem tratadas, colocam em risco todo o investimento feito por anos. Mais uma vez, é preciso o compartilhamento de conhecimento comum entre as empresas e do trabalho cooperativo. 
 
A questão do uso da água e das mudanças climáticas também surge nesse mesmo contexto: são todas situações que terão de ter abordagem comum entre diferentes empresas. Os modelos climáticos sugerem quadros diferentes e exigem cada vez mais tecnologia e conhecimento compartilhado para nos prepararmos para um futuro que já começou.
 
Não podemos mais falar somente de nosso conhecimento técnico e específico da área florestal. É necessária também uma abordagem setorial mais forte. Por isso participamos ativamente junto a diferentes órgãos setoriais e ONGs. Gosto de citar a Indústria Brasileira de Árvores, a IBÁ, que permite importantes conquistas ao setor de florestas plantadas, em ações de regulamentação, certificação, uso de defensivos e fertilizantes que, dia a dia, tornam-se mais necessários, e também em ações junto a setores da sociedade que, motivados por razões ideológicas, trazem confronto incessante à atividade florestal.
 
Foram muitas as viagens técnicas e os intercâmbios estabelecidos pelos grupos de empresas e de pesquisadores nos mais diversos locais do mundo onde se plantam e usam florestas, com o objetivo de adquirir conhecimento e estabelecer uma tecnologia florestal brasileira. Hoje, o setor de florestas plantadas é maduro, com um conhecimento consolidado e compartilhado entre os diversos atores e preparado para atender às demandas da sociedade no fornecimento dos mais diversos produtos de base florestal.
 
No futuro, essa cooperação na busca do conhecimento terá de ser cada vez mais aprofundada, interagindo com outros setores. Exemplo disso são as iLPFs – Integração Lavoura, Pecuária e Floresta, em que diferentes atividades de origem rural compartilham um mesmo espaço, necessitando de uma abordagem conjunta de conhecimento. Nas iLPFs, temos uma forte integração com outros setores da sociedade, aproximando as grandes empresas florestais dos pequenos produtores rurais.
 
Alguns novos usos da floresta plantada exigirão abordagens de conhecimento mais inovadoras, como nas florestas manejadas para diferentes aplicações e na geração de energia ou no desenvolvimento de novas tecnologias, como nanocelulose e transparência da madeira, somente para citar algumas.
 
Novas abordagens de ocupação de solo que tragam a interação entre a floresta e outros sistemas produtivos exigirão o compartilhamento de conhecimento e o estabelecimento de consensos entre diferentes setores, que, por sua vez, terão de estar aliados à conservação da biodiversidade.
 
Não tenho dúvidas de que o setor de florestas plantadas, que hoje, representa 5% do PIB industrial, 4% das exportações brasileiras, 4 milhões de empregos diretos e indiretos e R$ 10 bilhões de arrecadação de impostos, somente adquiriu essa dimensão graças ao desenvolvimento conjunto do conhecimento florestal.