Paulo Henrique Müller da Silva

Pesquisador do IPEF

Op-CP-54

A garantia da conservação genética
Os programas de melhoramento genético buscam genótipos (clones ou sementes) que gerem plantios comerciais uniformes e produtivos para fornecimento de matéria-prima. No entanto reduzem a variabilidade/diversidade genética com o avanço das gerações de melhoramentos, o que, operacional e economicamente, é facilmente justificado.

Porém amplia o risco de vulnerabilidade às condições estressantes que serão agravadas com as mudanças climáticas, pois aumentam o estresse abiótico e alteram a intensidade de ocorrência dos estresses bióticos. Não é comumente abordado, mas também existem efeitos devastadores na base genética das espécies vegetais devido às ações antrópicas, que podem ter as mais diversas motivações.
 
A conservação é uma preocupação mundial, provavelmente o melhor exemplo seja a construção e a manutenção do acervo do banco de sementes de espécies cultivadas em Svalbard, na Noruega, o maior e mais completo do mundo, que é apoiado pela FAO. Mas por que devemos fazer a manutenção da base genética no setor florestal? Como justificar o investimento? Como realizar a conservação? 

A diversidade genética é importante por diversos motivos e é fundamental para alcançar as metas do setor produtivo, independente da espécie, pois permite:
1) gerar ganhos genéticos;
2) atenuar os impactos dos estresses;
3) melhorar a qualidade da matéria-prima; e
4) manter espécies perdidas nos centros de origem/diversidade. 
 
A conservação genética é parte estratégica para garantir a segurança das culturas agrícolas e florestais cultivadas, lembrando que os cultivos são dinâmicos, e acontecem mudanças ao logo do tempo. Ganhos genéticos: é o aumento da produtividade, sendo a meta de todos os programas de melhoramento.
 
Para isso, é necessária a realização da seleção e da recombinação dos genótipos. O ganho será diretamente relacionado à variabilidade genética existente na população trabalhada, pois apenas uma fração da variação fenotípica é herdável, ou seja, será transmitida para a próxima geração.

Deve-se destacar que a produtividade é uma característica com muitos genes envolvidos e também que existe grande quantidade de espécies florestais com as quais podemos trabalhar, sendo que algumas têm ampla diversidade dentro da própria espécie. No caso do setor florestal, o aumento da produtividade pode ser obtido pelo aumento do incremento médio e também pelo aumento da tolerância ou da qualidade da madeira.
 
Atenuar os impactos dos estresses: atualmente, o setor florestal está se deparando com diversos desafios, como secas mais prolongadas, distúrbio fisiológico, “novas” pragas/doenças, etc. Quais serão os desafios do futuro? Não é possível prever, mas, com certeza, ocorrerão. Um “exercício” fácil de ser realizado é voltar no tempo e pensar em dois ou três ciclos de eucalipto atrás (de 15 a 20 anos) e responder algumas perguntas:
1. Quais eram os estresses que ocorriam?
2. Alguém conhecia o percevejo bronzeado (Thaumastocoris peregrinus), a vespa-da-galha (Leptocybe invasa), o psilídeo de concha (Glycaspis brimblecombei), talvez o Gonipterus spp? 
 
A incerteza do futuro é acentuada com os diversos cenários de mudanças de clima.  Um exemplo prático: há 15-20 anos, o material mais indicado para melhorar a tolerância à seca nos plantios comerciais era o Eucalyptus camaldulensis, lembrando que a origem em Petford (QLD) é a que apresentava melhor crescimento. Com a ocorrência das pragas atuais, diminuiu o interesse pela espécie por ser muito susceptível, apesar de existir grande variação dentro da espécie, que possui ampla distribuição natural e que poderia ser trabalhada por um número maior de instituições.
 
Qualidade da matéria-prima: procura constante de melhoria visando aumentar a eficiência no uso da matéria-prima e que está diretamente relacionada ao processo produtivo, sendo impactada pelos avanços tecnológicos do processo e das características do produto final. Aproveitando o exercício de voltar no tempo, pergunta-se: Qual era a densidade adequada para produção de celulose uma ou duas décadas atrás? As espécies do gênero Corymbia poderiam ser utilizadas para celulose? Qual será a característica desejada no futuro? Pois é, atualmente, existe a procura por material tolerante aos diferentes estresses e com maior densidade (Ex.: Eucalyptus cloeziana, em que ocorre o distúrbio fisiológico), materiais diferentes dos comerciais, mas que podem viabilizar a plantação comercial em algumas regiões. No entanto qual foi o investimento nesses materiais ao longo das últimas décadas? Quais instituições trabalharam na conservação, no melhoramento de populações ou mesmo na obtenção de clones? 
 
Perdas de espécies, centros de origem/diversidade: muitas vezes, ocorrem perdas por causas antrópicas ou mesmo catástrofes naturais. Um exemplo: a utilização de uma das populações de conservação de Eucalyptus urophylla, da Estação Experimental de Ciências Florestais de Anhembi, pertencente à Universidade de São Paulo, para recompor a vegetação da região de origem que foi devastada por uma erupção vulcânica. A conservação fora da região de origem pode ser, às vezes, a única forma de conservação para algumas espécies. 
 
Na agricultura ou na silvicultura, a conservação é fundamental, e existem diferentes formas de conservação, como banco de sementes, pólen, propágulos vegetativos em condições controladas. Pode ser realizada em campo, sendo in situ ou ex situ. A conservação in situ refere-se àquela realizada no próprio local de ocorrência natural da espécie. Para as espécies dos gêneros Eucalyptus ou Pinus, por não ocorrerem naturalmente no País, a conservação tem que ser ex situ. Para as espécies de ciclo longo, o ideal é que seja em campo, pois os genótipos podem recombinar-se e gerar novas combinações, ocorrendo, assim, a manutenção da base genética e adaptação, sendo a parte estratégica da conservação genética para os programas de melhoramento. 
 
O trabalho de conservação ou mesmo de melhoramento de populações é algo que tem sido deixado de lado ao longo das últimas décadas, talvez por não gerar produtos em curto prazo. O trabalho de conservação deve ser realizado por tempo indeterminado, pois o objetivo é perpetuar as espécies ou as populações que devem ficar disponíveis para os programas de melhoramento.
 
Diversas instituições públicas e privadas no País realizaram ou realizam trabalhos de conservação genética de eucalipto e pínus, os programas de conservação genética são estabelecidos a partir de populações com boa base genética. Mas, com o passar do tempo e a falta de diretrizes em escala nacional, o trabalho com a maioria das espécies acaba sendo deixado de lado, sendo trabalhadas apenas as espécies mais plantadas em larga escala. 
 
Muitas populações com espécies de eucalipto e pínus foram cortadas, pois a espécie não apresentava interesse, no momento do corte, para a instituição. Muitas vezes, o banco de germoplasma foi transformado em madeira de serraria para melhorar o fluxo de caixa da instituição em um momento de crise.
 
A maioria dos trabalhos de melhoramento genético florestal no Brasil ficou a reboque das empresas que avançaram com o Eucalyptus urophylla e E. grandis (pura ou em combinações híbridas). As outras espécies ficaram em segundo plano, sendo pouco trabalhadas e, por muitas vezes, sendo descartadas sem a correta avaliação de seu potencial. Materiais que poderiam estar mais bem adaptados às condições edafoclimáticas brasileiras atualmente, apenas com um pouco mais de investimento. Assim, hoje, teríamos materiais mais adequados para os atuais desafios, sem a necessidade de retornar à região de origem. 
 
Cabe destacar que muitos materiais já não são mais acessíveis na origem. No setor florestal, os trabalhos de conservação devem ser conduzidos concomitantemente com os programas de melhoramento, utilizando as ferramentas da biotecnologia. 
 
O trabalho, preferencialmente, deve ser conduzido com diversas instituições e, no mínimo, em escala nacional. Deve ter como meta abranger um grande número de espécies com potencial para as diversas condições edafoclimáticas e usos, sem perder de vista as características de cada espécie e que as populações de conservação são a segurança de diversidade que podem ser acessadas a qualquer momento, para garantia do setor.

Não podemos prever o futuro, apenas temos a certeza de que teremos mudanças e, ao contrário de muitas culturas agrícolas, precisamos de muito tempo para mudarmos os genótipos comerciais, sendo que voltar ao passado para recuperar o germoplasma perdido não é possível.