Eduardo José de Mello

Vice-presidente de Operações e Melhoramento Genético da FuturaGene

Op-CP-54

Trangenia em plantações florestais: para quando?
A agricultura se beneficia dos cultivos transgênicos há quase duas décadas. Em países que são grandes produtores de grãos, como os Estados Unidos, o Brasil e a Argentina, os plantios são, em sua quase totalidade, feitos com sementes geneticamente modificadas. A soja transgênica começou a ser plantada em pequena escala no Brasil, em 1997, e, atualmente, 95% do plantio dessa leguminosa é realizado com sementes geneticamente modificadas. 
 
Os números são impressionantes: 67 países já adotaram os plantios transgênicos, totalizando uma área cultivada de 190 milhões de hectares no mundo. A área plantada com sementes geneticamente modificadas cresceu 112 vezes em 22 anos. Não há registro de adoção de tecnologia tão rápida e abrangente na história da agricultura moderna. 
 
No Brasil, os transgênicos ocupam 50 milhões de hectares, o que representa 75% da área agrícola plantada no País. Segundo relatório da ISAAA (International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications) de 2018, no período de 1996 a 2016, o aumento de produtividade proporcionado pelos transgênicos representou um ganho de US$ 186 bilhões para os produtores de todo o mundo. Cerca de 17 milhões de pequenos produtores adotaram essa tecnologia e tiveram aumentos significativos em sua renda.
 
O Brasil possui, aproximadamente, 6 milhões de hectares de área plantada com eucalipto e é referência no cultivo dessa espécie. Temos a maior produtividade e a vantagem competitiva no cenário internacional. Alcançamos esse patamar excepcional usando o que há de mais moderno em termos de tecnologia. Nossas florestas plantadas estão cada vez mais parecidas com plantios agrícolas. 
 
Sabemos fazer, de forma primorosa, o reconhecimento das características locais onde os plantios serão realizados, temos material genético de alta qualidade, capacidade para preparar o solo e fertilizar com precisão, além de monitorarmos, com eficiência, a qualidade, as pragas, as doenças, entre outros aspectos relevantes para o cultivo florestal. 
 
Apesar disso, ainda não conseguimos incluir, em nossos plantios, os benefícios que a transgenia traz à agricultura. Isso ocorrerá algum dia?  Acredito que sim. Principalmente se considerarmos os desafios que a humanidade enfrentará nas próximas décadas, como o aumento da demanda por madeira, resultante do crescimento populacional e dos padrões de consumo de uma crescente classe média. 
 
Nesse contexto, inovações tecnológicas que tragam soluções para as necessidades da sociedade, de forma responsável, serão fundamentais. O estudo de ciências que suportam o desenvolvimento da transgenia no eucalipto tem avançado, de forma significativa, nos últimos anos. Temos também, no Brasil, um grupo seleto de empresas que atuam nesse desenvolvimento. 
 
Uma análise dos dados públicos encontrados no site da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) indica que cinco empresas estão desenvolvendo a tecnologia do eucalipto geneticamente modificado (GM) e que mais de 100 experimentos já foram autorizados.
 
O melhoramento genético do eucalipto demanda tempo e recursos. Estima-se que o tempo necessário para o melhorista conseguir um clone comercial seja de 15 a 20 anos. O desenvolvimento de um clone comercial transgênico deve consumir tempo semelhante. 
 
Em 2015, a CTNBio aprovou, de forma inédita no mundo, o primeiro eucalipto geneticamente modificado. Esse eucalipto foi desenvolvido pela empresa FuturaGene, subsidiária da Suzano Papel e Celulose, em trabalho iniciado em 2001, e apresenta produtividade superior ao clone original não modificado. 
 
Após a aprovação pela CTNBio, que atestou a biossegurança desse eucalipto GM, foram iniciados cruzamentos controlados para gerar novos clones GM, adaptados a diversas regiões do País, por meio de melhoramento convencional. Esses novos clones GM de segunda geração estarão prontos para plantios em maior escala nos próximos anos. 
 
No portfólio de projetos das empresas brasileiras que atuam nesse desenvolvimento, as principais características encontradas são: resistência a herbicida, tolerância a insetos, produtividade, qualidade da madeira e tolerância a estresses ambientais. Dessa forma, podemos vislumbrar que, no futuro, nossos plantios de eucalipto apresentarão todas essas características melhoradas pela biotecnologia, ou parte delas, o que contribuirá para o País manter sua posição na vanguarda da eucaliptocultura mundial. 
 
Uma aposta com grandes chances de acerto é que o próximo produto a ser aprovado para uso comercial será o eucalipto GM resistente a herbicida, já que a tecnologia está sendo pesquisada por diversas empresas no Brasil. Essa foi a primeira tecnologia a ser adotada na agricultura há 22 anos e ainda é amplamente utilizada. Após todo esse tempo de uso, pode-se atestar sua biossegurança e grandes benefícios para o produtor. Com o eucalipto, espera-se o mesmo sucesso, uma vez que essa cultura requer tratos culturais intensos nos primeiros anos pós-plantio. 
 
O eucalipto também é reconhecidamente uma espécie muito sensível ao herbicida glifosato. Bastam algumas gotas, ocasionadas por falhas na aplicação, para que a produtividade seja afetada ou até cause a morte da planta. No eucalipto resistente ao herbicida, isso não mais ocorrerá. Com o fim das perdas por falhas na aplicação, ganhos em produtividade também deverão ocorrer, a exemplo do que foi observado na agricultura. Serão geradas múltiplas oportunidades de ganhos operacionais com a mecanização da aplicação do herbicida, gerando importantes conquistas para o setor.
 
Os dados da CTNBio mostram que uma razoável plataforma de pesquisa para tolerância a herbicida já está implantada no campo nas estações experimentais das empresas desenvolvedoras. Isso nos faz acreditar que, na próxima década, essa tecnologia deverá estar à disposição dos produtores. 
 
Inovações no processo de transformação genética, o domínio da edição gênica e a possibilidade de reduzir o ciclo de seleção com uso de seleção genômica tendem a reduzir drasticamente esse tempo, e, talvez, possamos contar com eucaliptos melhorados por meio de técnicas laboratoriais mais cedo do que imaginamos. Mas isso é tema para outra edição da Revista Opiniões.