Me chame no WhatsApp Agora!

Ronaldo Viana Soares

Professor de Controle de Incêndio Florestal da UF Paraná

Op-CP-03

A proteção contra incêndios florestais

O Brasil tem potencial para ser o maior fornecedor mundial de madeira e produtos florestais, pois não há outro país no mundo, onde o incremento médio das florestas iguale-se ao obtido aqui. Isto só não ocorre devido à visão míope de nossos dirigentes, que além de não instituírem uma política florestal adequada, ainda perseguem o setor com uma regulamentação ambiental exagerada e indevida, com restrições que não atingem, por exemplo, a agricultura industrial, muito mais nociva ao ambiente do que as plantações florestais.

Para que o país continue destacando-se no cenário florestal mundial, é necessário, além de prosseguir com os avanços na parte silvicultural, proteger as florestas, plantadas ou nativas, de seus inimigos naturais. E, dentre esses inimigos naturais, o fogo é o que apresenta o maior potencial de danos a todas as florestas, exceto aquelas localizadas nos trópicos úmidos que, devido às condições climáticas, não queimam, a não ser que sejam previamente derrubadas.

Isto é o que acontece na floresta tropical da Amazônia, onde o fogo é um agente secundário de destruição. Ele é usado sob forma de queimada, para limpar o terreno, mas somente depois que a floresta é derrubada e a biomassa exposta ao sol para secar. Atualmente, várias empresas florestais possuem sistemas bem estruturados e eficientes de controle de incêndios.

Outras, no entanto, relutam em investir em proteção, sob a alegação de que nunca ocorreu problema grave de fogo em suas terras, esquecendo-se que uma área florestal pode passar anos ou décadas sem uma ocorrência de incêndios, o que não a torna imune ao fogo. De repente, sem nenhum aviso prévio, um único incêndio pode destruir grandes extensões de florestas, mesmo em áreas sem registros anteriores de problemas com fogo.

Com exceção das áreas cobertas pelas florestas tropicais úmidas da Amazônia, pelo excesso de umidade, e da caatinga, por falta de continuidade do material combustível, todas as demais regiões brasileiras apresentam condições para ocorrência de incêndios florestais. Afinal, um dos maiores e mais destrutivos incêndios florestais já registrados no mundo ocorreu no estado do Paraná, em 1963, atingindo cerca de 2 milhões de hectares e matando 110 pessoas.

Muitos empresários do setor florestal não hesitam em comprar um harvester por cerca de US$ 300.000, mas acham excessivamente cara uma torre de observação, que custa aproximadamente US$ 50.000 e protege uma área de 10.000 a 20.000 ha, dependendo das condições de relevo. Como as torres constituem-se no maior investimento de um sistema de proteção contra o fogo, pode-se dizer que o custo de instalação desse sistema representa cerca de 0,5% do custo de implantação de um projeto de reflorestamento.

Vale lembrar que sem o investimento em proteção, pode não haver madeira no futuro para os harvesters colherem. Outra grande deficiência na área de proteção contra os incêndios é observada nas unidades de conservação, tanto federais, como estaduais e municipais. Anualmente, são noticiados pela imprensa incêndios em parques, principalmente nacionais, que não fazem trabalho de prevenção, nem possuem estruturas para combatê-los.

É lamentável que importantes amostras de ecossistemas brasileiros, que deveriam ser preservados para as gerações futuras, estejam à mercê do fogo. Merece destaque também, quando se aborda este tema, a questão do uso do fogo no meio rural. Por ser um instrumento barato e útil em muitas circunstâncias, o fogo sempre foi e continua sendo bastante usado no manejo florestal e em práticas agrícolas, em praticamente todo o mundo.

No Brasil, existe uma legislação bastante eficiente que disciplina o uso do fogo, sob forma de queimas controladas. Como não se pode proibir o uso do fogo, a política correta é permiti-lo, de acordo com certas normas técnicas, justamente como consta da legislação brasileira.  A exceção no país é o estado de São Paulo que, contrariamente ao bom senso, aprovou uma lei proibindo o uso do fogo no meio rural, mas abrindo uma exceção para a queima pré-colheita da cana, justamente a mais prejudicial ao ambiente.

Além disso, a proibição é um fracasso, pois quando se viaja através do estado, principalmente nos meses de agosto e setembro, observam-se incontáveis queimadas feitas de modo clandestino pelos agricultores. Como não há uma fiscalização sobre essas queimadas, a probabilidade delas escaparem do controle e transformarem-se em incêndios é muito grande, pois, como diz um velho ditado finlandês: “Fire is a good servant but a poor master”. Por isto, é melhor ensinar e exigir que se faça corretamente do que simplesmente proibir.

A prevenção de todas as fontes de fogo é uma meta inalcançável e, por isto, alguns incêndios sempre vão ocorrer, causados por raios, descuidos ou incendiários. Por isto, as empresas e instituições florestais devem estar sempre preparadas para uma rápida ação de combate aos incêndios, que não foram prevenidos.

A prevenção, quando bem planejada e executada, pode reduzir o número de ocorrências, principalmente aquelas originadas por descuidos. Entretanto, dados coletados por pesquisadores do Laboratório de Incêndios Florestais da UFPR, referentes ao período 1998-2002, mostram que os incendiários tornaram-se a principal causa de incêndios florestais no país, com mais de 60% das ocorrências, o que dificulta a prevenção, pois estes incêndios propositais são os mais difíceis de se prevenir.

Este aumento de incêndios causados por incendiários é resultante de problemas sociais, da luta pela posse da terra, do vandalismo, de ações de vingança e mesmo do fascínio que o fogo exerce em certas pessoas, pois como bem disse Marcelo Gleiser, no livro A Dança do Universo: “O fogo tem uma natureza dual, sendo ao mesmo tempo perigoso e útil, belo e destruidor, mágico e intangível”.