Luiz Carlos Estraviz Rodriguez

Professor de Economia e Planejamento Florestal da Esalq-USP

Op-CP-54

O tripé da sustentabilidade
Se os seus interesses estão voltados para a sustentabilidade econômica da atividade produtiva florestal na propriedade rural, seja bem-vindo a esta reflexão. Desempenho econômico vai além da simples relação com o mercado e deve considerar o tripé que, pela simplicidade com que é definido em inglês, apoia-se em três pês:  people, planet e profit.
 
Os plantios florestais homogêneos, como os de produção monoespecífica, ou os heterogêneos, como os sistemas de produção agroflorestal, de restauração de áreas degradadas e de recuperação de áreas de reserva legal ou preservação permanente, são opções que o produtor rural avalia quando planeja as atividades na sua propriedade. Os heterogêneos, entretanto, são menos polêmicos quando avaliados em termos de sustentabilidade, e, por esse motivo, trataremos aqui apenas dos plantios homogêneos de uma única espécie.
 
Os plantios florestais homogêneos, quer seja pela forma e extensão, ou ainda pela duração dos ciclos de produção, se destacam na paisagem rural brasileira. São, em geral, plantios florestais de alto rendimento, manejados para fins industriais que desafiam a silvicultura a evoluir e a buscar soluções mais rentáveis, que se harmonizem também com as questões sociais e ambientais.
 
Para buscar essa harmonia, vamos começar pelo terceiro pê (profit), de tratamento mais objetivo e básico, antes de avaliarmos as demais dimensões da sustentabilidade. Buscam-se regimes de manejo que maximizem o potencial produtivo da terra sem degradá-la, caso contrário, haveria desperdício e subutilização. 
 
Cultivar a terra no limite da sua capacidade produtiva, entretanto, é meta bastante desafiadora. Implica descartar processos de produção que esgotem ou afetem negativamente a capacidade produtiva da terra. O monitoramento disso é caro e demanda comprometimento com sistemas de produção mais sofisticados. Por exemplo, é princípio básico do ordenamento florestal que, para não exaurir o recurso terra, se meça regularmente o crescimento médio anual das árvores.
 
Na prática, quando conduzidos ciclos sucessivos florestais, busca-se a idade de colheita que maximize o crescimento médio anual, sem a exaustão do recurso terra no longo prazo. Para que essa idade seja definida, são mantidas tabelas de volume que revelam o crescimento do plantio florestal. Em seguida, opta-se pela idade que maximiza o volume médio anual (este calculado, em qualquer momento, pela simples divisão do volume observado pela idade), ou pela idade que maximiza o desempenho financeiro dos investimentos feitos.
 
No Brasil, pelas dádivas de um clima ameno e de uma natureza pródiga, os ciclos de produção florestal são curtos e têm idade ótima, que maximiza tanto o critério volumétrico como o critério financeiro. Essa característica dos nossos plantios florestais de rápido crescimento foi bem estudada na década de 1990, e o leitor interessado é convidado a buscar literatura daquela época.  
 
Consideremos, agora, os outros dois pês (planet e people). Tratemos de um exemplo que ilustra bem a importância de uma equilibrada discussão que contorne os desafios impostos pelo uso racional e sustentável da terra. Temos quase 8 milhões de hectares plantados com florestas no Brasil. Se considerarmos os plantios industriais manejados para a produção de celulose, pode-se dizer que quase todos são colhidos próximos à idade que maximiza o volume médio anual, também conhecido como incremento médio anual (IMA). Pois bem, o IMA médio nacional observado nesses plantios gira, atualmente, em torno de 35 metros cúbicos por hectare por ano (m3/ha/ano).
 
As previsões de demanda de celulose para os próximos 30 anos são crescentes, e a pressão para que o Brasil aumente a sua área com florestas plantadas é imensa. Segundo análises que temos conduzido, espera-se um crescimento de 65% nos níveis de produção de madeira em tora no Brasil, para fins industriais até 2050, provocados por um aumento estimado no consumo de 72%. Isso significa passar dos 131 milhões de m3 produzidos hoje para 210 milhões de m3 em 2050.
 
Esse aumento na demanda interna brasileira por madeira para fins industriais, proveniente de plantios florestais, somente poderá ser atendido por uma combinação de expansões. As quatro mais prováveis são: 1. ocupação de áreas com florestas naturais; 1. conversão de áreas com plantios agrícolas para áreas com plantios florestais; 3. recuperação de pastagens degradadas com plantios florestais; e 4. aumento da produtividade dos atuais plantios florestais. 
 
Evidentemente, a primeira alternativa é indesejável por impactar negativamente o planeta, um dos alicerces que constituem o tripé da sustentabilidade. A segunda e a terceira opção envolvem mudanças no uso da terra. Para que ocorram essas mudanças previstas nos cenários 2 e 3, produtores rurais precisariam receber estímulos de mercado ou incentivos do governo.
 
Nesses casos, novos mecanismos são necessários para o gradual ajuste das propriedades rurais às exigências do Código Florestal. Condições de financiamento da produção, por exemplo, terão que oferecer horizontes, carência e encargos mais adequados à natureza dessas atividades. É uma pena que, para esses fins, ainda faltem políticas públicas, pois a recuperação de áreas degradadas pela sua conversão para plantios florestais traria desenvolvimento e geração de empregos, promovendo assim o pê de people, no tripé da sustentabilidade.
 
A quarta opção é, na minha opinião, a mais promissora. A melhoria da produtividade nas atuais áreas já ocupadas com plantios florestais, aproximando-as do máximo potencial produtivo sustentável, reduz fortemente a pressão sobre as demais áreas já ocupadas pelo agronegócio e sobre as áreas ainda preservadas com florestas naturais. Nos estudos que estamos conduzindo, avaliamos o efeito de eventuais aumentos do IMA médio nacional para níveis mais próximos do máximo potencial produtivo dos atuais plantios florestais industriais.
 
Como exemplo, verificamos que a elevação de 35 para 45 m3/ha/ano na produtividade média nacional desses plantios resultaria numa menor área total plantada em 2050. Essa diferença seria da ordem de 700 mil hectares, ou algo próximo à área hoje plantada com eucaliptos na Bahia, o terceiro maior estado em área florestal plantada no Brasil.
 
Precisamos de soluções que levem a produtividade dos plantios florestais brasileiros para o mais alto nível potencial de produção sustentável. Teremos que melhorar os processos produtivos, tornando-os 1. adaptáveis, conforme evoluem as técnicas silviculturais; 2. resilientes aos impactos provocados pelo uso intensivo da terra; e 3. reversores de tendências em situações onde a exaustão do recurso eventualmente se manifeste.
 
O futuro do setor produtivo florestal depende de uma convergente estratégia de conciliação da produção com os temas ambientais e sociais. A sociedade e o planeta agradecerão.