Moacir José Sales Medrado

Pesquisador Aposentado da Embrapa Floresta e Diretor da Medrado e Consultores Agroflorestais Associados

Op-CP-59

Monoculturas, diversificação e a ocupação do espaço pela plantação florestal
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as plantações florestais comerciais ocupam uma área de 10 milhões de hectares, e, segundo o Ibá – Industria Brasileira de Árvores, o Brasil lidera a produtividade florestal, com uma média de 35,7 m³/ha/ano para os plantios de eucalipto e 30,5 m³/ha/ano para os plantios de pínus.

O Setor de Plantações Florestais Comerciais (SPFC), apesar de ocupar cerca de 1% da área do País, responde por 91% de toda a madeira produzida para fins industriais. Considerando pisos e painéis de madeira, papel, celulose, madeira serrada e carvão vegetal, cresceu, em 2018, 13,1% em relação a 2017, gerando uma receita de R$ 86,6 bilhões. Esse crescimento superou o da indústria e o da agropecuária. A cada ano, aumenta sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) e, em especial, no PIB industrial. 
 
O plantio de árvores com objetivo comercial iniciou seu crescimento no final da década de 1960, com os incentivos fiscais governamentais do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF. A partir daí, com o reforço de algumas políticas governamentais e capital próprio, as empresas florestais foram adquirindo grandes áreas em diferentes biomas, com maior expressividade na mata atlântica, no cerrado e no pampa.
 
O SPFC destina cerca de 6 milhões de hectares para a conservação, somando-se às áreas de restauração, Área de Preservação Permanente (APP), Reserva Legal (RL) e Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Da área plantada, cerca de 5,8 milhões de hectares são certificados. Apesar disso, persiste, entre os cidadãos, um conflito equivocado de interesses entre produção e conservação que tem levado, muitas vezes, a uma percepção negativa do setor, mesmo em comparação com setores verdadeiramente insustentáveis. Presume-se que isso seja devido a ele ter, como principal base, espécies introduzidas de outros países, em especial, as dos gêneros Pinus e Eucalyptus; além disso, por se utilizar de plantios predominantemente monoculturais.

Não sendo a certificação, por si só, capaz de superar tais pressões ambientalistas, tem-se experimentado, com êxito, a integração dos sistemas monoculturas com áreas de florestas nativas, em um modelo denominado mosaico florestal e, também, em pequenas e médias propriedades, o uso de sistemas agroflorestais, sendo os mais importantes aqueles que fazem parte da Estratégia de Integração Lavoura, Pecuária e Floresta (e-iLPF) e até mesmo sistemas agroflorestais sucessionais.
 
Os sistemas agroflorestais sucessionais caracterizam-se pelo fato de produzir matérias-primas a partir de um tipo de manejo que os deixa, de certa forma, semelhantes a uma floresta natural em estrutura e função. Esses sistemas, também, por utilizarem os recursos locais, trazem autonomia aos agricultores, reconhecem o saber local, apresentam custo reduzido e aliam a produção à conservação dos recursos naturais. 

Como diz Ernest Gotsch, seu criador aqui no Brasil, o fator crítico de bom resultado de tal tipo de sistema não é a qualidade inicial do solo, mas sim a composição e a densidade das espécies. Nesse tipo de sistema, não existem regras fixas e sim princípios, sendo imprescindíveis para sua implantação e manejo a experiência, o conhecimento e a criatividade de técnicos e produtores.
 
Apesar de os sistemas agroflorestais serem muito antigos, no Brasil, produziu-se um avanço com a idealização da estratégia de integração lavoura-pecuária-floresta (e-iLPF), no final da década de 2000, quando pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, e de várias outras instituições se reuniram para propor a elaboração do seu marco referencial, de cujo grupo responsável pela base conceitual, pelos sistemas e benefícios fiz parte. 
 
Nas últimas décadas, a e-iLPF tem se mostrado a principal ferramenta para a introdução do componente florestal nas pequenas e médias propriedades rurais agrícolas e até em grandes propriedades pecuárias. Na década de 2005/2015, a área ocupada com sistemas da e-iLPF cresceu de 1,87 milhão de hectares para 11,47 milhões, superando não em quantidade de árvores, mas em área de abrangência, as plantações florestais comerciais.

Para agricultores, pecuaristas e silvicultores pequenos e médios, as principais razões para o grande crescimento da e-iLPF têm sido a rentabilidade por hectare, a diminuição do risco financeiro, a rotação de culturas por necessidade técnica, a recuperação de pastagens, a redução do impacto ambiental e o apoio técnico de instituições de pesquisa e de assistência técnica públicas e privadas. A Rede da e-iLPF, que é cofinanciada pelas empresas privadas e pela Embrapa, apoia 97 Unidades de Referência Tecnológica (URTs), distribuídas em todos os biomas brasileiros, com participação de 19 Centros de Pesquisa da Embrapa.

Hoje, a e-iLPF está presente em todos os biomas, e, embora a espécie florestal mais utilizada seja, ainda, o eucalipto, tem sido um espaço importantíssimo para a disseminação de outras espécies florestais para diferentes usos, como mogno?africano (Khaya ivorensis), cedro-australiano (Toona ciliata), teca (Tectona grandis L.), grevílea (Grevillea robusta), pínus (Pinus spp.), acácia mangium (Acacia mangium); acácia-negra (Acacia mearnsii), gliricídia (Gliricidia sepium), paricá (Schizolobium amazonicum), jequitibá-rosa (Cariniana legalis), canafístula (Pelthophorum dubium), vinhático (Plathymenia foliosa), angico-vermelho (Anadenanthera peregrina), aroeira (Myracrodruon urundeuva), cumbaru (Dipteryx alata), bracatinga (Mimosa scabrella), dentre outras.

Certamente,  será através da e-iLPF que será ampliado o uso de espécies para produção de madeira nobre plantada em espaçamentos amplos.O crescimento da área plantada com espécies florestais no País é uma das principais ferramentas que o Brasil poderá usar para a redução de suas emissões dos gases de efeito estufa em relação a 2005. Para tal, além do compromisso em zerar o desmatamento ilegal e atingir 45% de energias renováveis, sendo 18% de bioenergia, há uma previsão de adição de 12 milhões de hectares, entre atividades de restauração e reflorestamento comercial, e de 5 milhões de hectares a serem implantados com sistemas componentes da e-iLPF.
 
Dentro desse projeto, até 2030, de acordo com o Plano Nacional de Desenvolvimento de Florestas Plantadas (Plantar Florestas), deverá ser incentivado o plantio de 2 milhões de hectares, especificamente, de plantações florestais comerciais. É importante ressaltar, também, que o futuro da plantação florestal comercial deverá estar baseado na ocupação de espaço na bioeconomia, que, através da intensificação, busca diminuir a tensão entre conservação e produção, no ecossistema, com a prevalência da competitividade, da eficiência e da produção de produtos com maior valor adicionado.
 
Um modelo em que as empresas, além do lucro, pensarão em otimizar seus processos por meio da sustentabilidade empresarial. Assim sendo, o setor de plantação florestal comercial deverá ser um dos maiores contribuintes para a mitigação das mudanças climáticas e basear seu desenvolvimento tecnológico com o olhar nas possibilidades de desenvolvimento em conjunto com outros setores, como a construção civil, a indústria química, de têxteis e de energia, dentre outros. 

Espera-se, por fim, que, futuramente, as plantações florestais sejam gerenciadas dentro de princípios que propiciem benefícios econômicos, sociais, ambientais e culturais para as gerações presentes e futuras, e que, por consequência, o País as integre em seu Plano Nacional de Desenvolvimento Sustentável e não as trate apenas como um simples contribuinte para o Produto Interno Bruto.