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Arthur Dias Cagnani

Gerente de Silvicultura da Unidade Florestal da Suzano em MS

Op-CP-62

A era dos dados a favor da silvicultura
A busca por matérias-primas de qualidade é uma constante dentro de qualquer processo produtivo. Um insumo de qualidade, com boa rastreabilidade e garantias de cada etapa do processo, proporciona uma grande oportunidade para aprimoramento gradual em todo setor, incluindo o florestal.

As mudas florestais são parte importante do processo silvicultural, e melhorias no processo de desenvolvimentos das mesmas podem ser um dos grandes diferenciais para uma melhoria na etapa de plantio. Com o aumento da mecanização, o processo produtivo dos viveiros passa a ter inúmeras oportunidades e aumentará consideravelmente sua capacidade de evolução. 
 
Durante o planejamento da construção da segunda fábrica de celulose da Suzano, em Três Lagoas (MS), ampliar a capacidade de produção de mudas com um novo viveiro era uma etapa importante do projeto, pois viabilizaria uma menor dependência de abastecimento de mudas de mercado.

O projeto da “Fábrica de Mudas”, como foi chamado o viveiro automatizado de Três Lagoas, teve início em 2009, com as primeiras prospecções e ideia de desenvolvimento e teve seu startup operacional em 31 de março de 2017. A idealização do projeto foi inovadora e buscou resolver um antigo problema operacional do Mato Grosso do Sul: a falta de mão de obra qualificada no estado.

Segundo o IBGE, em comparação com os outros estados, o MS é o 19º em densidade demográfica, com uma população de 6,86 hab/km². A inovação contou com a parceria da HortiKey, a partir de um contrato EPC, em que atuou como responsável pela condução do projeto. O processo produtivo na fábrica de mudas tem início com duas máquinas de confecção de Paper Pot, biodegradáveis em solo e que substituem os tubetes plásticos.

Esses biodegradáveis são dispostos em bandejas de 160 células, com um leitor de RFID em cada uma delas. As bandejas são transportadas por esteiras até a bancada de estaqueamento e são armazenadas em buffers de espera com sistema automático de pulverizadores para manter a umidade. 
 
Ao posicionar a bandeja na bancada para realizar o estaqueamento, o leitor de RFID da bandeja se comunica com a bancada e registra, em sistema, diversas informações, incluindo data e hora, material genético, posição da cepa coletada no minijardim clonal e colaboradora que realizou o estaqueamento.

De posse de todas essas informações, as bandejas continuam o trajeto, via esteiras, para serem agrupadas e separadas por material genético em novos buffers, que garantem a umidade das mudas recém-estaqueadas via aspersores. Ao agrupar 40 bandejas de um mesmo material genético, as bandejas são novamente movimentadas para serem posicionadas em um container único, rastreado por um QR Code.

A partir dessa etapa, a movimentação ocorre sempre com o container completo, utilizando pontes rolantes e cabos-guia. Esse container é movimentado para a casa de vegetação, onde permanece por aproximadamente 28 dias, enquanto ocorre o enraizamento. Com o sucesso da etapa anterior, o container é movimentado para a área de sombreamento, e ocorre a primeira seleção.

A partir do desenvolvimento das mudas, o container é movimentado para a área de rustificação, e ocorrem as demais seleções, que garantem a qualidade necessária para a expedição e entrega em campo. Todo esse processo de movimentação de cargas é extremamente complexo e minucioso e é gerido por um software logístico interno, desenvolvido exclusivamente para esse fim.

Os operadores responsáveis pelas movimentações possuem uma ampla gama de informações à disposição para otimizarem o processo. Com o programa, cada container é movimentado no momento correto de seu ciclo, o que garante que esteja no seu desenvolvimento máximo. 

Como todo processo disruptivo de inovação, nem tudo sai conforme o planejado, e houve grandes percalços na implementação de diversas tecnologias. Algumas inovações originalmente planejadas não performaram conforme o esperado para garantir a competitividade e sustentabilidade do viveiro, de forma que foram alteradas ou simplesmente substituídas por projetos mais simples. É o caso das máquinas de seleção e de encaixotamento.
 
Em 2018, se iniciou um intenso projeto de retrofit das máquinas de seleção, em parceria com a SPI Integradora, empresa brasileira de automação industrial, cenário em que evoluímos consideravelmente, porém ainda distante do rendimento ideal. Continuamos com as pesquisas e melhorias, enquanto o processo foi substituído por uma etapa manual.
 
Para otimizar o uso de toda a tecnologia embarcada no processo produtivo do viveiro, seria necessário um novo sistema de gestão do abastecimento de mudas, afinal, possuímos uma ampla base de dados à disposição. Dessa forma, desenvolvemos internamente o iWood, um software inteiramente novo para gerenciamento e controle de todas as movimentações de mudas, em viveiros próprios e de parceiros. 

O fluxo de funcionamento do software se inicia com o uso de um aplicativo desenvolvido no PowerApps, em que a equipe da silvicultura em campo pode programar a solicitação das mudas para plantio e replantio de cada talhão. O formulário gerado fica armazenado no celular do solicitante e sobe para a nuvem imediatamente ao entrar em contato com um sinal de internet.

Com as informações dentro do software, é possível cruzar a base de recomendação de alocação clonal por talhão com a disponibilidade de mudas em cada viveiro parceiro e, assim, traçar o melhor roteiro logístico de abastecimento, contemplando a localização geográfica do viveiro com o destino da carga. 

O algoritmo também consegue otimizar a carga de diversos viveiros ao mesmo tempo, garantindo uma redução do tempo de espera das mudas, menor movimentação dos caminhões no ciclo de abastecimento e disponibilidade das mudas em campo no momento correto do plantio. Todo esse planejamento é comunicado ao fornecedor e ao solicitante da entrega, com possibilidade de replanejamento caso ocorra algum imprevisto.

Ao final de todo o processo, o software também disponibiliza todas as informações para lançamento da NF-e e pagamento do fornecedor. O uso do iWood trouxe mais segurança e garantia de rastreabilidade de todas as informações geradas no processo, sem que ocorram interferências ou erros humanos no planejamento.

Consequentemente, existe muito mais transparência no abastecimento para todos os elos da cadeia, ocasionando maior confiança no processo. O uso de recursos próprios do viveiro e o banco de dados de propriedade da Suzano garantiram um desenvolvimento e uma manutenção do software a custo zero para a companhia.

Todas essas inovações proporcionam decisões mais rápidas e assertivas para a gestão e uma maior confiabilidade em todo o processo de abastecimento de mudas. A fábrica de mudas da Suzano trouxe, portanto, um pioneirismo na evolução do processo de produção de mudas no Brasil, com inovações disruptivas para o setor, aliando tecnologias que, originalmente, não foram idealizadas para o meio florestal. Mas não podemos e nem devemos parar por aqui.

É necessária uma mudança de postura com relação a investimentos em conectividade e mecanização dos processos, pois, sem movimentos dessa natureza, o setor florestal não irá se desenvolver em sua plenitude e aproveitar essa nova onda tecnológica que estamos vivendo. A era dos dados é agora!