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Walter Batista Junior

Doutorando em Meteorologia Agrícola pela UF-Viçosa

Op-CP-21

Degradação ambiental e desertificação

A desertificação começou a ser discutida pela comunidade científica nos anos 1930, em decorrência de um fenômeno ocorrido no meio oeste americano conhecido como Dust Bowl. Esse fenômeno durou cerca de 10 anos, e a área atingida ficou conhecida como a grande Bacia do Pó, a qual era caracterizada por solos de pouca profundidade, pequena precipitação anual (em torno de 380 mm) e incidência de fortes ventos. Os desmatamentos e a intensificação da exploração dos solos por meio da agricultura e pecuária, agravados por forte seca entre os anos de 1929 e 1932, foram as principais causas do Dust Bowl.

Dezenas de milhares de agricultores nos estados de Oklahoma, Texas, Kansas, Novo México e Colorado ficaram arruinados. Uma superfície de 388.500 km2 de solo seco foi arrastada pelo vento em enormes tempestades de pó. O Sol ficou totalmente encoberto, e cidades como Washington e Nova York mergulharam na escuridão.

Milhares de pessoas morreram de fome ou de doenças pulmonares. A seca decorrente obrigou mais de 350 mil pessoas a abandonarem a região e a mudarem-se para outras zonas dos Estados Unidos. Desde essa época, os pesquisadores vêm dando atenção aos fenômenos que ocorrem nas regiões semiáridas de todo o mundo, ou àquelas sujeitas a secas periódicas.

A constatação mais evidente é a de que essas áreas, por suas características físicas e limitações naturais, concentram as populações mais pobres e estão sujeitas a maiores níveis de degradação. No início da década de 1970, na região localizada abaixo do deserto do Sahara, conhecida como Sahel (que liga o Oceano Atlântico ao Mar Vermelho através de um corredor quase ininterrupto, com largura que varia de 500 e 700 km), ocorreu um período de quatro anos consecutivos de seca intensa, na qual morreram de fome e enfermidades de 250.000 a 500.000 pessoas.

Esse fenômeno climático ainda perdurou por toda a década e comprometeu seriamente a base agrícola de Niger, Mali, Alto Volta, Senegal e Mauritânia. A partir da ocorrência desses dois fenômenos, a comunidade internacional reconheceu o impacto econômico, social e ambiental do problema, definindo tal processo como sendo desertificação, isto é, a formação de condições de tipo desértico em áreas de clima semiárido.

Esse fenômeno serviu de estímulo para a convocação da Assembléia das Nações Unidas, em 1974, quando se discutiu pela primeira vez sobre a desertificação. Muitos estudiosos atribuíram a desertificação ora a processos naturais, principalmente de ordem climatológica, ora a processos induzidos pelos seres humanos.

Essas abordagens, longe de se constituírem simples polêmicas de ordem acadêmica, tiveram, e ainda têm, desdobramentos concretos, pois influenciam na formulação de políticas públicas e na consequente destinação dos recursos para implementá-las.

Como processo de degradação das condições ambientais, a desertificação consiste na perda da produtividade biológica e econômica das terras agrícolas de sequeiro; das terras de cultivo irrigado, das pastagens e das áreas de matas nativas devido às variabilidades climáticas e/ou através de sistemas de utilização da terra ou por um processo ou uma combinação de processos, incluídos os resultantes de atividades humanas e padrões de povoamento, tais como:
1. a erosão do solo causada pelo vento ou pela água;
2. a deterioração das propriedades físicas, químicas e biológicas ou das propriedades econômicas do solo, e
3. a perda duradoura da vegetação natural.

Como visto anteriormente, a ausência de políticas públicas voltadas a evitar a degradação dos solos por um sistema ultrapassado de agricultura predatória pode, em curto intervalo de tempo, provocar impactos sociais, econômicos, culturais, políticos e ambientais, os quais se relacionam entre si e, ao longo dos anos, vão se intensificando e aumentando a vulnerabilidade da população, produzindo e amplificando as perdas sociais e econômicas para a região das áreas afetadas.

Infelizmente, o modelo agrário brasileiro, no qual o sistema pecuária e grandes monoculturas têm substituído as florestas existentes, expulsando famílias de pequenos agricultores para as cidades, degradando solos e contaminando rios, tem acarretado a perda do potencial produtivo de grandes áreas no País. Esse não é o paradigma de produção sustentável que procuramos para evitar que, no Brasil, repitam-se os exemplos do início deste artigo.