Roosevelt de Paula Almado

Gerente de Desenvolvimento e Tecnologia da ArcelorMittal BioFlorestas

Op-CP-59

Um espaço aberto para o crescimento econômico
As preocupações com a sustentabilidade dos ecossistemas continuam sendo a pauta de muitas discussões e pesquisas no Brasil e no mundo, e o uso múltiplo na sua definição mais ampla torna-se cada vez mais popular e importante em consequência da pressão demográfica, da escassez e da competição por certos tipos de terras, do aumento da demanda dos recursos naturais, bem como pelo despertar da consciência ambiental. O conceito de uso múltiplo se encaixa bastante nesse contexto, pois traz a reflexão de que precisamos conhecer toda a potencialidade dos recursos que estão disponíveis e a melhor forma de aproveitá-los, podendo-se conciliar crescimento econômico com qualidade de vida e conservação da biodiversidade.
 
Apesar do tema principal deste texto ser sobre os plantios florestais, o uso múltiplo tem grande aderência às florestas nativas, em especial aos ecossistemas naturais e onde o conceito de uso múltiplo é realizado na prática a partir do momento em que há a aplicação da cultura local no aproveitamento de todos os recursos que a floresta proporciona.
 
Hall (1972), neste contexto de interpretação, define na teoria da igual oportunidade para utilização dos recursos dois princípios,
1: o uso múltiplo não requer a maximização da produção por unidade de área e nem de determinado produto, e ele precisa somente de harmonia e coordenação de usos; 
2: todos os usos têm a mesma importância.
 
O conceito de uso múltiplo não é recente. O termo foi criado pelo serviço florestal dos Estados Unidos, na década de 1950, quando se passou a adotar o manejo dos principais recursos naturais renováveis já vislumbrando a necessidade de integração das produções agrícola, pecuária, madeireira e não madeireira, gerando benefícios diretos e indiretos e também diferentes matérias-primas e produtos.
 
Segundo Gregory (1972), uso múltiplo é o manejo dos recursos naturais renováveis, de modo que eles sejam utilizados numa combinação que melhor atenda às necessidades da população, fazendo o mais sensato uso da terra para alguns ou todos os recursos, ou serviços, sobre grandes áreas, a fim de proporcionar subsídios suficientemente capazes de sofrer adequados ajustamentos periódicos de uso, conforme as condições e as necessidades de mudança. 
 
Desse modo, os recursos potenciais da área seriam total ou potencialmente utilizados, e as práticas de manejo florestal deveriam ser aplicadas de forma coordenada e harmônica, sem prejuízo da produtividade global e da sustentabilidade da área, considerando os valores relativos dos diversos recursos, e não necessariamente a combinação de usos que daria maior retorno financeiro ou produção por unidade de área.
 
Pois bem, mas viemos aqui para falar de plantações florestais, e o conceito de uso múltiplo de plantações florestais vem sendo utilizado para inúmeras situações em que uma área com cobertura florestal, implantada ou não, independente das espécies presentes, apresenta mais de uma atividade fim, e, por isso, não devemos confundir com multiprodutos, os quais se referem a multiplicidade de produtos obtidos a partir de plantações florestais, tendo a madeira como principal fonte de matéria-prima. 
 
Acontece que boa parte das plantações florestais pertencem a grandes empreendimentos que atuam de forma verticalizada, e podemos classificá-las na outra teoria de Hall (1972) com relação ao uso múltiplo: trata-se da teoria do uso dominante, que se baseia no princípio de que há a necessidade de separação, no espaço e no tempo, de usos competitivos, de modo a maximizar os benefícios. Portanto há um uso principal para cada lugar.

O que poderíamos entender como uso múltiplo de plantações florestais: produção de madeira para um único uso ou para vários usos; proteção de água; conservação do solo; fauna; retenção de CO2; apicultura; produção agrícola; educação ambiental; melhoria da qualidade do ar; minimização do efeito estufa; controle do efeito erosivo dos ventos; regularização dos mananciais hídricos;redução da pressão sobre a vegetação nativa; utilização para fins recreacionistas; alternativa de energia renovável, etc. Muitos produtos e serviços proporcionados pelo uso múltiplo não possuem valor monetário bem definido e, portanto, são repassados a todos a custo zero.
 
Diante de um cenário onde a competitividade nas empresas florestais é moeda-chave para a sua sustentabilidade na sua forma mais ampla, destaco oito princípios básicos:

1. Lucratividade; 
2. Segurança e Saúde; 3. Proteção do Ambiente;
4. Diálogo com todas as partes interessadas; 
5. Desenvolvimento de competências; 6. Inovação e qualidade; 7. Governança Corporativa; e 
8. Cidadania. 

Precisamos nos adiantar e integrar de forma deliberada e criteriosamente planejada os usos potenciais das plantações florestais, de modo a não se conflitarem, mas complementarem-se ao máximo, gerando mais crescimento econômico, satisfazendo as necessidades das populações e garantindo as necessidades e aspirações das gerações futuras.
 
Temos muito espaço para evoluir no conceito e na prática de desenvolver as plantações florestais para uso múltiplo dentro da definição citada anteriormente, e isso pode vir de forma planejada por nós ou poderá ser imposta devido a questões como o esgotamento dos remanescentes naturais em algumas regiões do País, levando à redução da oferta de multiprodutos, restrições impostas pela legislação, pressão ambientalista, etc.

A pesquisa e o desenvolvimento são fundamentais nesse contexto, pois podem fornecer respostas e aprimorar nossas práticas visando: identificar alternativas de manejo florestal sustentável que possam viabilizar o uso múltiplo; desenvolver modelos de uso múltiplo das plantações, bem como metodologia para avaliar seu desempenho social, econômico e ambiental; propor métodos específicos de inventário de múltiplos recursos em áreas com plantações florestais; desenvolver estudos visando aperfeiçoar as atividades sustentáveis já realizadas em florestas plantadas, dentre outros.
 
No âmbito das grandes empresas florestais, visto a complexidade da condução dos negócios atualmente, como segurança e compliance, o uso múltiplo tem restrições, porque há usos conciliáveis e usos não conciliáveis que, embora possam ser potencialmente factíveis, não podem ser realizados. 
 
Estudar de forma aprofundada o aprimoramento das plantações florestais no âmbito da aplicação plena do conceito de uso múltiplo seria uma das melhores formas de consolidar o manejo florestal sustentável de nossas plantações, integrando a conservação com a produção e o desenvolvimento.