Dorival Pinheiro Garcia

Presidente da ABIPEL - Associação Brasileira das Indústrias de Pellets

Op-CP-38

Os desafios dos pellets de madeira: competitividade

Quando fiz meus primeiros estudos sobre os pellets de madeira aqui no Brasil, um trabalho de graduação na faculdade de engenharia, não imaginava que, 10 anos depois, ele se tornaria tão importante. Desde o seu surgimento na Europa, como opção de energia mais barata do que o petróleo, no final da década de 1970, o número de indústrias ao redor do mundo que produzem esse biocombustível subiu de 70 para mais de 900 neste ano.

No Brasil, essa forma de energia renovável só apareceu 20 anos depois. E, por aqui, o surgimento dos pellets está mais relacionado à necessidade de agregar mais valor aos resíduos das indústrias madeireiras. Em 2006, surgiu a ABIPEL - Associação Brasileira das Indústrias de Pellets, que tinha dois objetivos básicos: obter dados consistentes da indústria nacional e desenvolver o mercado interno para a utilização deles.

O primeiro objetivo foi atingido, pois temos dados bem representativos da indústria aqui instalada; o segundo, porém, ainda está em andamento.  Convencer os empresários de que os pellets podem ser uma opção renovável e sustentável de energia para o seu negócio não é tarefa fácil, sobretudo se não houver vantagens econômicas que justifiquem a mudança do seu suprimento de energia.

Ainda assim, avanços foram obtidos nesses últimos anos, como o surgimento de empresas que fazem adaptação a qualquer sistema para queimar pellets, novos produtos e novas aplicações para a linha pellets e maior conhecimento dessa forma de energia pelos empresários. Muitas vezes, eu falava de pellets (energia), e as pessoas entendiam como paletes (estrado de madeira).

Mas essa fase inicial foi superada. Atualmente, a principal aplicação dos pellets de madeira, aqui no Brasil, é na geração de energia térmica para as indústrias e o comércio, sendo utilizado por pizzarias, padarias, hotéis, parques aquáticos, academias de natação, estufas de pintura, indústrias alimentícias, galvanoplastia a quente, lavanderias industriais, indústrias de ressolagens de pneus e indústrias de produtos plásticos, que consomem, aproximadamente, 99% da produção interna.

Aplicações exóticas também são encontradas, como pellets para substituir a tradicional “areia do gato” e para combater doenças como a dengue, que utilizam em torno de 1% da produção nacional dos pellets de madeira. Nessas aplicações específicas, o baixo teor de umidade dos pellets, em torno de 6 a 10%, favorece a rápida absorção da urina dos pequenos animais.

Pesquisa recente da Associação mostrou que temos cerca de 14 indústrias produzindo pellets no Brasil, com  capacidade instalada para produzir até 460.000 toneladas/ano. A maior parte dessas indústrias operam nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, principalmente para aproveitar os subprodutos das inúmeras indústrias de base florestal dessas regiões.

Dados dos desenvolvedores de equipamentos para a queima dos pellets mostram que eles são economicamente competitivos quando comparados com o gás natural ou óleo BPF e que são importantes combustíveis utilizados pela área industrial.

Se acrescentarmos a questão das emissões dos gases do efeito estufa, as vantagens dos pellets é ainda maior, uma vez que são biocombustíveis neutros nas emissões dos gases do efeito estufa (GEE), ou seja, os gases emitidos na queima são os aprisionados quando do  crescimento da árvore, e isso equilibra as emissões para a atmosfera, ao contrário dos derivados do petróleo.

Aliás, questões ambientais e os novos acordos de redução de emissões assinados pelos países desenvolvidos são fortes propulsores do mercado internacional de pellets de madeira, deixando-o em destaque e aumentando a procura por essa fonte de energia de baixo carbono. Segundo os dados do IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, da ONU, as emissões de CO2, da combustão de combustíveis fósseis, contribuíram com cerca de 78% do aumento das emissões dos GEE no período de 1970 a 2010.

Os europeus têm metas rígidas de redução desses gases, e a utilização dos pellets parece ser uma saída rápida para o atingimento desse objetivo. Durante os últimos anos, os pellets de madeira vêm se tornando um importante combustível mundial, especialmente na Europa, onde seu mercado é um grande negócio, estável e rentável.

A Associação Europeia de Biomassa - Aebiom, prevê um consumo de 50 milhões de toneladas de pellets para 2024, o que representa mais de três vezes o consumo atual. Esse biocombustível já é considerado um dos maiores produtos de biomassa sólida comercializados internacionalmente. No Brasil, os padrões de qualidade do ar são estabelecidos por meio da Resolução nº 436 do Conama, que define os limites de emissões para poluentes atmosféricos provenientes dos processos de geração de energia térmica a partir da combustão da madeira.

As emissões brasileiras do setor de energia são pouco representativas no contexto global, devido à matriz energética relativamente limpa do País, de fundamento hidroelétrico. Mesmo assim, muitas empresas estão substituindo os poluentes derivados do petróleo por pellets, alcançando os benefícios enconômicos, bem como o marketing ambiental que a energia limpa proporciona.

Recente estudo sobre as emissões gasosas de monóxido de carbono (CO) de três tipos de pellets produzidos com pinus, eucaliptos e casca de pinus mostrou que os pellets de madeira atendem, com folga, aos limites impostos pela norma vigente do Conama. Mas a utilização energética da casca de pinus está condicionada à utilização de tecnologias de controle das emissões e dos particulados.

Mesmo que o Brasil não esteja entre os maiores emissores dos GEE, precisamos encontrar formas de mitigação, pois sabemos que o problema do aquecimento global não obedece a fronteiras territoriais. Substituir derivados do petróleo por pellets de madeira é uma ação ambientalmente correta que atende às necessidades da sociedade atual, pois atua nesse contexto global.

Os países mais ricos e mais industrializados sabem que a maior parte dessa conta é deles. O acordo histórico para reduzir emissões, assinado recentemente entre China e EUA, além de outros países europeus, é uma comprovação do mea-culpa deles. Mas, se o mercado interno está sendo desenvolvido e a demanda externa, muito aquecida, por que o Brasil não é um grande exportador dessa commodity?

A resposta a essa pergunta é de antigo conhecimento dos empresários brasileiros: falta competitividade à indústria de pellets. Apesar das ótimas condições edafoclimáticas do País para a implantação de reflorestamentos, problemas como a falta de estruturas dos portos, altos custos logísticos relacionados ao transporte rodoviário e falta de equipamentos com tecnologia apropriada para a produção mais eficiente são os desafios impostos à nossa indústria para viabilizar novos projetos.

Além disso, costuma-se confundir, aqui no Brasil, a “compactação de resíduos” com “produção de pellets”: Compactar resíduos sem critérios, qualquer equipamento faz. Mas a arte de produzir pellets com padrão de qualidade e de forma mais eficiente é para poucos. Para isso, exige-se conhecimento,  competência e equipamentos com tecnologia comprovada na produção de pellets de madeira. Os primeiros estudos e os primeiros passos da indústria de pellets de biomassa no Brasil já foram dados. A demanda crescente do mercado internacional por energia renovável indica quais serão os próximos. O Brasil não pode perder a oportunidade de tornar-se líder na produção e na exportação desse biocombustível.