Philipe Ricardo Casemiro Soares

Professor de Economia Florestal da UDESC - Universidade do Estado de Santa Catarina

Op-CP-59

O papel da gestão florestal no futuro das florestas plantadas
Quando recebi o convite para escrever sobre o tema “o papel da gestão florestal no futuro das florestas plantadas”, logo me recordei de uma pergunta que sempre faço em minhas aulas na disciplina Gestão Florestal: como é a gestão florestal atualmente?
 
Após uma profunda reflexão, me dei conta da evolução da resposta a essa pergunta. Inicialmente, tínhamos a ideia de que, no geral, algumas empresas atuantes no setor florestal consideravam a gestão como uma “receita de bolo” a ser seguida. Claro que alguns empreendedores da área ainda mantêm essa visão, seguindo a tradição que “passa de pai para filho”, ou simplesmente a ideia que “atravessa a porteira”, pois está funcionando com fulano ou sicrano. Não que seguir uma “receita de bolo” não possa nos levar ao sucesso, no entanto, felizmente, cada vez mais as empresas atuantes no setor de florestas plantadas estão atentas às suas especificidades e passam a dar mais atenção a assuntos relacionados à gestão, como planejamento, marketing, recursos humanos, qualidade, entre outros.  
 
Uma grande evolução para a gestão de empresas florestais. Vale destacar que a importância dessa mudança de pensamento se torna maior quando falamos de ambientes altamente competitivos, como observado em diversos segmentos do setor florestal.
 
Acompanham essa evolução o desenvolvimento e o aperfeiçoamento de tecnologias e técnicas para o manejo de florestas plantadas e nativas, realizados principalmente em parcerias entre empresas e instituições de pesquisa. Nesse contexto, a silvicultura de precisão, que despende tempo e recursos para o planejamento das atividades, facilita a administração pela alocação eficiente desses recursos para alcançar os objetivos empresariais.
 
No entanto, quando pensamos sobre ferramentas e técnicas de gestão, seu desenvolvimento predominantemente ocorre dentro de empresas com maior controle do processo produtivo, em ambientes industriais. Talvez o fato de as especificidades do ambiente florestal não serem consideradas nessa concepção seja um ponto positivo para os apoiadores da “receita de bolo”. Cabe aos gestores florestais o trabalho de adaptação de tais ferramentas e técnicas à realidade enfrentada no campo, aproveitando ao máximo seus benefícios.  
 
Ainda sobre o planejamento, essa era uma etapa da gestão para a qual não dávamos muito valor, enquanto procurávamos pela tal “receita”.Para o presente e o futuro, os gestores florestais devem ter ciência do papel fundamental do ato de planejar, em seus diversos níveis. Nesse contexto, temos que entender que, quando executamos o planejamento estratégico, a definição da missão e da visão não deve ser vista apenas como elaborar uma frase bonita para se enfeitar a parede, como acontecia e ainda acontece em algumas empresas atuantes nos diferentes segmentos da economia. Elas são base para tudo aquilo que a empresa vai buscar, devendo ser bem comunicada por toda a organização.
 
Uma outra atividade que não valorizávamos e que talvez ainda não percebemos a devida importância na gestão de empresas florestais é o diagnóstico. Muitas vezes, os gestores tomam a decisão com pouco conhecimento sobre os riscos, probabilidades, possíveis causas de eventuais problemas que possa enfrentar, ou até mesmo sobre ameaças e oportunidades para a empresa. 
 
Vejo essa característica muito forte nos gestores florestais com menos experiência, que, muitas vezes, com o intuito de mostrar conhecimento e proatividade, acabam tomando decisões equivocadas, que podem gerar elevados custos ou desperdícios para as empresas florestais, sem conhecer por completo a realidade enfrentada, especialmente seus limites.
 
Gostaria de deixar claro aqui que o comentário anterior não foi colocado como uma crítica aos gestores florestais com menos experiência. Todos nós somos seres humanos, suscetíveis ao erro, assim, temos que exercitar nosso poder de aprender com os erros, ganhando experiência. 
 
Algumas vezes, como já observei dentro de universidades brasileiras, esses equívocos podem ser gerados por estímulos indiretos dos responsáveis pela formação dos gestores. Cabe também a nós, professores universitários, além de mostrar o que seria uma situação ideal dentro da área de conhecimento de cada um, apresentar a realidade e estimular o diagnóstico e o senso crítico. 
 
Voltando à gestão florestal, um fator que necessita de muita atenção por parte das empresas que atuam no ramo de florestas plantadas é o ambiente em que estão inseridas. Com a popularização do planejamento em seus diferentes níveis dentro de empresas florestais, é fundamental que estejamos atentos às mudanças no ambiente, que é dinâmico. Essa atenção deve ser maior quando trabalhamos em ambientes de alta concorrência, o que ocorre, por exemplo, com os pequenos e médios produtores florestais. 
 
Basta o anúncio de uma epidemia ou pandemia, independente da classificação dada pela OMS, para potencializar as ameaças que podemos enfrentar ou simplesmente criar oportunidades para alguns segmentos. Atualmente, estamos enfrentando tal realidade com o COVID-19 ou coronavírus. 
 
Não tenho a pretensão de gerar pânico com essa afirmação. Não espero que os empreendedores florestais saiam correndo desesperados para adquirir máscaras ou álcool em gel. Os efeitos do coronavírus sobre as pessoas e a economia, de forma geral, devem passar. 
 
O que quero mostrar é que, na análise do ambiente em que estamos inseridos, devemos atentar para diversos aspectos, mesmo aqueles que, a princípio, pareçam irrelevantes para as empresas florestais. Assim, poderemos nos preparar melhor para lidar com ameaças “catastróficas” muito mais próximas do nosso setor, como o apagão florestal. Nesse caso, vale também destacar que as empresas e os gestores deveriam ter aprendido com os acertos e os erros do evento passado.
 
Deixando de pensar somente no lado pessimista e as ameaças enfrentadas pelo setor, as organizações e seus gestores devem ser capazes de identificar novas oportunidades de negócio, desenvolvendo produtos, processos e mercados. Em resumo, eles precisam definir estratégias claras de marketing. Não me refiro apenas à publicidade e propaganda, algo que particularmente considero que falta às empresas florestais, especialmente para tentar eliminar os preconceitos contra as florestas plantadas e o setor como um todo. Essa ação pode se tornar determinante para a sobrevivência, principalmente considerando a concorrência que enfrentamos com produtos de outros setores.
 
Finalmente, depois de refletir um pouco sobre a administração de empresas florestais e tentando responder ao tema que me foi colocado, a gestão florestal tem papel principal no futuro das florestas plantadas no Brasil. Sozinhos, material genético e equipamentos com a mais alta tecnologia não vão levar nenhuma empresa florestal a atingir seus maiores objetivos. Para isso, as empresas precisam de pessoas, grupo que também inclui os gestores florestais.
 
Para tranquilizar as empresas atuantes no setor de florestas plantadas, vejo que seu presente e futuro estão garantidos, uma vez que os gestores atuais e aqueles ainda em formação estão se especializando em gestão florestal, o que possibilita o correto planejamento das diversas atividades, a implementação daquilo que foi planejado e seu controle, tomando decisões de maneira mais eficiente e humana. Dessa forma, as empresas atuantes no setor de florestas plantadas conseguirão sobreviver, crescer e se desenvolver.