Arno Rui Schaly

Presidente da Bruno Industrial

Op-CP-53

A produção de biomassa florestal e a evolução dos picadores de madeira
No início da colonização, o Brasil era cobiçado pelos estrangeiros porque tínhamos aqui uma árvore avermelhada que, além de servir para construções, fosse de casas ou de embarcações, dela se extraía uma tinta natural vermelha – matéria-prima para auxiliar na coloração de tecidos, com grande valor comercial na Europa. De fato, a extração do pau-brasil foi a primeira atividade econômica empreendida pelos colonizadores portugueses no Brasil. E, embora poucas décadas depois do descobrimento, a madeira brasileira já não atendesse à demanda europeia, tal comércio perdurou até o século XX. 
 
Além dessa comercialização europeia, podemos dizer que, historicamente, a biomassa de florestas nativas ou renovadas sempre foi importante fonte de energia utilizada com importante proficiência para alimentar caldeiras ou na fabricação de celulose. A princípio, se utilizava madeira oriunda das florestas nativas e, hoje, plantam-se florestas com árvores exóticas com o propósito da exploração para a produção de cavacos, pela escassez de espécies adequedas e pela pressão da legislação ambiental. 

A retirada das árvores era na forma de toras cortadas manualmente e arrastadas através de tração animal ou com tratores e guinchos; também se queimavam as lenhas em forma de toras, em “metro”. Isso se dava pela abundância e, ainda, porque não se tinha tantas preocupações com o rendimento das caldeiras. 
 
O emprego de mão de obra era intenso, tanto para a derrubada das árvores quanto para alimentação das caldeiras, em razão de não existirem as tecnologias que são utilizadas na atualidade. Hoje, as árvores são retiradas inteiras com equipamentos dedicados (Feller) e arrastadas até o ponto de picagem com Skidder ou, ainda, colhidas com Harwesters. São processadas tanto no local, quanto na margem dos talhões e transportadas até o ponto de picagem fora da floresta.
 

Com a crescente necessidade de automatizar a atividade tanto no campo quanto na indústria, seja por pressões legais, seja para redução do emprego da mão de obra ou, ainda, pela redução de custo e maior rendimento na combustão, passaram-se a utilizar cavacos na alimentação das caldeiras, estas mais modernas, facilitando a automação e a mecanização do processo de alimentação; assim, surgiram os primeiros picadores de madeira. 
 
No início, os picadores eram a disco e, por dependerem muito do estado da afiação das facas e por não ter peneira que evitasse a geração de lascas, logo foram substituídos pelos picadores a tambor, que possuíam alimentação forçada que não dependia do estado de afiação e tinha uma peneira que garantia um menor percentual de lascas, além de um maior controle da granulometria e maior automação da alimentação. Nesse início, eram sempre picadores fixos ou estácionários, montados em plantas dedicadas para a produção de cavacos, habitualmente junto ou próximo da caldeira ou da unidade de consumo. 
 
Com a expansão da demanda por energias renováveis e a tendência de otimização do trabalho dentro das empresas – aquelas que sentiram a necessidade de adquirirem somente os cavacos prontos para o consumo —, surgiu a opção de picar a madeira junto à floresta, reduzindo alguns custos de operação e de manuseio. No início dos anos 1990, foram fabricados os primeiros picadores florestais no Brasil. Eram exclusivamente adaptações dos picadores fixos, montados em chassis com rodas, arrastados por tratores ou escavadeiras e acionados por motores a diesel, de forma simples, sem grandes controles. 
 
Hoje, há no mercado picadores com uma certa mobilidade, permitindo a carga e a descarga rápida da prancha e ajustes de posição, não dependendo mais de equipamento para arraste, o que representa um ganho de tempo e maior facilidade operacional. Nos picadores florestais mais modernos, existe a possibilidade de variar (dentro de certos limites) o tamanho de cavaco sem a troca da peneira, e isso otimiza o trabalho, especialmente porque estamos falando em picagem de árvores inteiras. 
 
Outra inovação, já não tão recente, porém de grande ganho operacional, é a utilização de rádio controle, que permite o comando do picador a partir de uma distância segura para o operador. Novos materiais resistentes ao desgaste também já estão sendo aplicados nos principais componentes, permitindo uma vida útil maior dos equipamentos.
 
A eletrônica embarcada monitora, além do motor, diversos pontos dos equipamentos, facilitando a manutenção preventiva, além da interação com o sistema hidráulico, viabilizando ajustes rápidos. O mercado de picadores florestais oferece máquinas com hidráulica em circuito fechado load sense e sistemas proporcionais com bombas e motores de pistões – com deslocamento variável,  melhorando a durabilidade, oferecendo maior economia e maior desempenho. 
 

Novos radiadores mais compactos e mais fáceis de limpar, bem como as hélices de fluxo reversível que trazem mais disponibilidade mecânica aos equipamentos, já estão sendo comercializados no setor, que está em crescimento incessante – isso tanto para os equipamentos de picagem quanto para os dispositivos de derrubada e arraste. Em breve, esperamos que esses sistemas sejam disponibilizados nos equipamentos de colheita e arraste de menor porte, substituindo os clássicos tratores agrícolas na atividade florestal. 
 
Com o advento de novas variedades clonais de eucaliptos, os galhos são praticamente inexistentes, facilitando muito a picagem de árvores inteiras, o que também incrementa a produtividade dos equipamentos de movimentação/arraste, bem como da picagem, pois o equipamento trabalha de forma mais uniforme e constante, aumentando a qualidade dos cavacos em termos de uniformidade granulométrica e também a economia de combustível, já que as constantes acelerações do motor são reduzidas. 
 
Assim sendo, com o aumento dos preços do petróleo e o acréscimo de emissões dos gases causadores do efeito estufa, a biomassa, incluindo a de madeira, está no foco das atenções como uma importante fonte de energia. Por conseguinte, o  aumento  da  participação  de  energias  renováveis  na  matriz  energética mundial é uma realidade, e o Brasil está em uma posição destacada no ranking do uso dessa alternativa do mundo industrializado.

Grande parte da cadeia tem como fonte os recursos hídricos, o etanol e a biomassa. Desse número, 10% vem da biomassa (madeira, bagaço de cana, entre outros resíduos orgânicos). Acredito que a demanda por picadores florestais ainda tem muito o que crescer. Precisamos estar atentos e lembrar que, cada vez mais, o mercado busca equipamentos com custo-benefício rentável economica e financeiramente.