Luis Renato Junqueira

Coordenador Executivo do PROTEF, Programa Cooperativo sobre Proteção Florestal do IPEF

Op-CP-54

Evoluindo o manejo de pragas florestais
O setor florestal vem se expandindo e se destacando como um dos principais setores industriais para nosso país. Possui uma participação relevante no PIB, gera milhares de empregos, contribui com milhões de tributos e impostos. Adicionalmente, possui um sério compromisso com a preservação do meio ambiente e respeito às comunidades locais.
 
No quesito produtividade, nossas florestas plantadas são motivo de orgulho e de entusiasmo. Somos líderes globais em produtividade, principalmente quando se trata do cultivo do eucalipto, com uma margem considerável para demais países. É possível encontrar diversos trabalhos e pesquisas evidenciando o grande salto de produtividade de nossas florestas desde a década de 1970.
 
Esse feito é fruto de muito trabalho, seriedade e, principalmente, investimento em pesquisa. Transformamos nossos métodos de produção, desde o viveiro até a colheita, avançando em todas as fases do manejo florestal. Apesar de nossa liderança, alguns índices indicam que, já há alguns anos, estamos estagnados em um mesmo patamar de produtividade. Será que alcançamos nosso limite de produtividade? Dados históricos também revelam que isso já aconteceu em outras ocasiões, sendo superadas por algum avanço ou tecnologia, na sua maioria frutos do melhoramento genético ou manejo florestal.
 
Em alguns casos, se ouve que o ataque de pragas e doenças não é tão significativo, pois, depois disso, as árvores ganham novas folhas e continuam a crescer. Contudo esse pensamento não considera os efeitos desse ataque na produção final de madeira, que é sempre prejudicada. Uma floresta que sofreu infestação por pragas, sobretudo em sua fase jovem, necessitará de mais tempo para garantir a produção desejada, ou algum reforço nutricional, na tentativa de acelerar seu crescimento. Tanto uma alternativa quanto a outra levarão a um aumento do custo de sua produção.
 
O atual manejo de pragas ainda apresenta alguns desafios a serem superados, com conceitos e práticas sofrendo mudanças após os anos 2000, devido à introdução de 3 novas pragas exóticas do eucalipto no País. Nesse quesito, o Brasil não se encontra em situação diferente de outros países que cultivam o eucalipto; praticamente todos eles sofrem com as mesmas pragas exóticas. 
 
A mudança entre o manejo de pragas nativas para pragas exóticas trouxe diversos desafios e novas abordagens a serem exploradas. No que toca ao controle biológico, no manejo de pragas nativas, é possível encontrar diversos inimigos naturais adaptados e, muitas vezes, específicos a esses insetos, contudo a introdução de agentes exóticos gera uma dinâmica totalmente diferente, em que esse agente chega a uma nova região e encontra clima favorável, alimento disponível e ausência de controladores naturais, culminando em um aumento expressivo de sua população.
 
Além dos impactos diretos da introdução de novas pragas exóticas, como a perda de produtividade, elas podem impactar também nas exportações e no comércio exterior, uma vez que os países com ausência dessa praga passam a impor certos requisitos e critérios para importação de algumas mercadorias e materiais. 
 
A forma mais efetiva para o controle de pragas exóticas é a utilização do controle biológico clássico, buscando inimigos naturais específicos, na sua maioria parasitoides, no centro de origem da praga. Essa tática busca, no médio a longo prazo, alcançar um equilíbrio entre praga e inimigo natural, evitando, assim, que cause danos aos plantios. 
 
Um exemplo desse modelo de trabalho é a utilização do parasitoide de ovos Cleruchoides noackae no controle da praga percevejo bronzeado. Após diversas liberações do parasitoide em áreas com ataque da praga, ele se estabeleceu de forma efetiva e, em grande áreas, vem promovendo, ano após ano, redução na área infestada e sua severidade de ataque.
 
Apesar de sua eficiência, a implantação do controle biológico clássico é um processo delicado e deve ser conduzido com critério e seriedade. O primeiro passo é selecionar um agente de controle eficiente, que seja específico para a praga a ser controlada. Essa é uma característica importante, pois garante que esse novo inimigo natural não irá interferir no desenvolvimento da entomofauna nativa. Além disso, o processo de quarentena é outro passo crucial, realizando a limpeza do material importado, evitando que, juntamente com o inimigo natural, ingressem outros organismos indesejáveis, como fungos, bactérias e até outros insetos.
 
 Apesar da importância do controle biológico clássico, deve-se ressaltar que, em muitos casos, alguns insetos nativos, em sua maioria predadores, passam a se alimentar da praga, oferecendo um auxílio no controle dela. Como é o caso do percevejo nativo Podisus nigrispinus, que preda com eficiência larvas e adultos do gorgulho-do-eucalipto. Além de insetos, existem diversos casos de fungos entomopatogênicos presentes no ambiente, que também oferecem controle dessas pragas, principalmente em condições de temperatura e umidade que os favoreçam. Casos como esse reforçam a necessidade do conhecimento dos organismos presentes nas áreas, na busca por potenciais agentes de controle.
 
Além dos novos conhecimentos gerados e dos desafios impostos pelas pragas exóticas, é relevante que o “básico” seja sempre bem executado. Não podemos nos esquecer dos prejuízos que as formigas cortadeiras, assim como os surtos de lagartas desfolhadoras, podem causar. Apesar de o manejo para muitas pragas nativas estar bem consolidado, temos que estar sempre atentos. 
 
Grande parte do sucesso de qualquer tática de controle vem do monitoramento. O monitoramento é a chave para um manejo integrado efetivo e responsável, gerando informações de qualidade para tomada de decisões assertivas no tempo correto. Essas informações são imprescindíveis para se definir a melhor forma de controle e, em muitos casos, a decisão pelo não controle.
 
 Apesar dos avanços no manejo integrado de pragas, sua eficiência depende também da interação da fitossanidade com demais áreas do conhecimento florestal, como melhoramento genético, certificação, manejo, etc. A interdisciplinaridade está cada vez mais presente na rotina dos profissionais, não havendo espaço para se isolar em apenas uma área do conhecimento.
 
Novas introduções de insetos e patógenos exóticos têm aumentado no mundo em um ritmo preocupante, a tendência é que novas pragas e doenças apareçam nos próximos anos. Nosso papel como profissionais passa pelo maior engajamento nesse assunto, levando informações para mudar essa situação, que é muito preocupante. 
 
Por fim, a melhor forma de controle para qualquer praga ou doença exótica é sua prevenção; para tanto, precisamos estabelecer esse assunto como matéria prioritária junto aos órgãos fiscalizadores e legisladores, buscando sua compreensão quanto ao risco para as florestas plantadas e aos impactos gerados para o nosso país.