O setor brasileiro de árvores cultivadas demonstra, na prática, que é possível produzir em escala global sem renunciar à conservação efetiva da biodiversidade. Os números mais recentes confirmam essa vocação: são 10,5 milhões de hectares de árvores plantadas que convivem com cerca de 7 milhões de hectares de vegetação nativa conservada dentro das áreas das próprias empresas, formando paisagens em mosaico que integram manejo responsável, conectividade ecológica e geração de valor econômico.
Essa combinação única faz do Brasil referência internacional em bioeconomia de larga escala. Em um cenário global em que a demanda por produtos renováveis cresce de forma acelerada, o País tem-se destacado não apenas pela competitividade industrial, mas, sobretudo, pela capacidade de oferecer soluções que conciliam produção, conservação e clima. A cada dia, 1,8 milhão de novas árvores são plantadas, sequestrando carbono, protegendo o solo e renovando o ciclo produtivo de celulose, papel, madeira e bioprodutos.
Ao mesmo tempo, as empresas conservam extensas áreas nativas que asseguram a manutenção de serviços ecossistêmicos essenciais, como a regulação hídrica, a preservação da biodiversidade e a mitigação de emissões. Há mais de duas décadas, o setor adota voluntariamente certificações florestais, como FSC e PEFC/Cerflor, que garantem práticas sustentáveis, manejo responsável e conformidade legal. Esses sistemas avaliam critérios sociais, ambientais e econômicos, incluindo proteção da biodiversidade, conservação de áreas nativas, manejo de solo e água e respeito às comunidades.
A ampla adesão das empresas brasileiras reforça o compromisso do setor com transparência, rastreabilidade e práticas que unem produtividade, conservação e benefícios socioambientais em escala. As mudanças climáticas têm ampliado de forma significativa os desafios produtivos no campo e nas florestas, alterando regimes de chuvas, intensificando eventos extremos, aumentando a variabilidade climática e pressionando sistemas de produção em múltiplas frentes, da produtividade à sanidade, da fertilidade ao manejo integrado de riscos.
Nesse novo cenário, os bioinsumos, especialmente as soluções biológicas de controle e de promoção do desenvolvimento, tornam-se ferramentas estratégicas para construir resiliência, reduzir vulnerabilidades e sustentar a produção de maneira mais eficiente e sustentável. O setor de árvores cultivadas tem ampliado o uso de soluções biológicas para o manejo integrado de pragas, melhoria da saúde do solo e aumento da resiliência ecológica.
Segundo levantamento do Protef, Programa Cooperativo sobre Proteção Florestal do IPEF, apenas em 2024 as biofábricas do setor produziram mais de 300 milhões de insetos benéficos para o controle de pragas desfolhadoras, além de parasitoides e predadores usados contra psilídeo-de-concha, percevejo-bronzeado e vespas galhadoras. Esses resultados evidenciam que o Brasil não apenas incorporou o controle biológico, mas se destaca como líder em inovação florestal.
Para sustentar esse avanço, a regulamentação da Lei de Bioinsumos (Lei nº 15.070/24), que preencheu uma lacuna histórica no arcabouço legal, deve consolidar um ambiente regulatório seguro, equilibrado e favorável à inovação. O setor de árvores cultivadas, por meio da Ibá e de suas associadas, vem atuando ativamente para garantir diretrizes que reforcem a segurança jurídica e, ao mesmo tempo, preservem a liberdade necessária à inovação.
Entre esses pilares, destaca-se o reconhecimento da produção on-farm como eixo estratégico da bioeconomia florestal. O manejo on-farm consiste na produção de bioinsumos dentro da própria unidade produtiva, seja em unidades de produção em fazendas próprias, em estruturas descentralizadas ou por meio de associações e programas cooperativos, permitindo que o produtor desenvolva soluções adaptadas às condições locais de solo, clima, pragas e dinâmica da paisagem.
Esse modelo reduz custos, aumenta a autonomia tecnológica, diminui a dependência de insumos externos e acelera a adoção de práticas de manejo biológico em larga escala. Por essas razões, a regulamentação deve estabelecer regras proporcionais, diferenciando claramente a produção para uso próprio da produção comercial, evitando burocracias que poderiam inviabilizar pequenos e médios produtores e desestimular a inovação descentralizada.
Ao mesmo tempo, é essencial garantir parâmetros mínimos de qualidade e rastreabilidade, assegurando que os agentes biológicos utilizados sejam eficazes, seguros e compatíveis com as boas práticas de manejo. Da mesma forma, é fundamental que as normas de boas práticas de fabricação e biossegurança sejam moduladas, permitindo requisitos mais completos para biofábricas industriais e protocolos mais simples para unidades de produção de bioinsumos e estruturas de produção on-farm.
Esse equilíbrio permitirá ao Brasil ampliar sua capacidade produtiva, fortalecer a sustentabilidade do setor agropecuário e florestal e posicionar os bioinsumos como um dos principais vetores de inovação e competitividade da economia verde brasileira. O manejo biológico já se tornou uma das ferramentas mais relevantes para a construção de sistemas produtivos de baixo impacto.
Ao substituir parte dos insumos químicos por organismos vivos, parasitoides, predadores, microrganismos e outros agentes de controle, o setor reduz emissões, melhora a qualidade ambiental, protege recursos naturais e aumenta a resiliência das florestas diante de pragas, estresses climáticos e mudanças ambientais.
Para um país de dimensões continentais e com enorme diversidade de biomas, permitir que produtores desenvolvam, adaptem e utilizem bioinsumos compatíveis com suas condições locais não é apenas desejável: é essencial para garantir competitividade, segurança fitossanitária e sustentabilidade em longo prazo.
O setor florestal brasileiro já demonstrou que não existe contradição entre produção e conservação. Pelo contrário: quando integradas, essas agendas geram empregos, divisas, proteção ambiental e prestação de serviços ecossistêmicos que beneficiam todo o País. A regulamentação da Lei de Bioinsumos é uma oportunidade de reforçar esse modelo, ampliando a competitividade, a autonomia e a sustentabilidade do setor.
Com equilíbrio técnico, segurança jurídica e visão de longo prazo, o Brasil pode consolidar uma nova etapa da bioeconomia, uma etapa em que inovação, conservação e produção caminham juntas, assegurando que nossas árvores cultivadas continuem sendo símbolo global de sustentabilidade.
O percevejo Brontocoris sp atacando a lagarta Sarsina violascens (Wilcken)