Estudos recentes têm mostrado previsões preocupantes sobre o que poderá acontecer com o setor de árvores plantadas, especialmente na América do Sul, em função das mudanças climáticas. Um dos principais efeitos negativos é a possível redução das áreas de cultivo de eucalipto na América do Sul, tornando economicamente inviáveis muitas áreas atualmente plantadas, em razão do aumento das temperaturas e da redução significativa da precipitação.
Diante desse cenário novo e desafiador, compreender as mudanças climáticas e seus impactos é fundamental para agricultores, silvicultores e melhoristas de plantas, bem como para governantes, formuladores de políticas, ONGs e Organismos de Certificação, pois a rápida implementação e adoção de estratégias de mitigação e adaptação é essencial para garantir a segurança alimentar e a produção de biomassa em escala global.
Uma revisão científica do Secretariado da Convenção Internacional de Proteção Fitossanitária (CIPV/IPPC/FAO) prevê que as alterações climáticas tendem a aumentar a pressão de pragas e doenças nos ecossistemas agrícolas e florestais. Essa publicação identifica métodos avançados de melhoramento genético, incluindo a engenharia genética para resistência a pragas, como soluções propostas para reduzir a dependência de pesticidas químicos.
As ameaças biológicas, intensificadas pelas alterações do clima, agravam os estresses biológicos diretos (seca e calor), exigindo novas estratégias de melhoramento de árvores, capazes de abordar múltiplas pressões simultaneamente.
Nesse sentido, um objetivo estratégico precisa se tornar uma obsessão para nortear as nossas decisões: temos de ser capazes de “produzir mais com menos”, isto é, precisamos aumentar a produtividade dos plantios e, ao mesmo tempo, preservar ou reduzir a utilização dos recursos naturais. É aí que tecnologias de ponta, como a transgenia aplicada às árvores plantadas, surgem como potenciais pontos de inflexão, capazes de mudar o modelo de produção vigente.
No caso das árvores plantadas, não há necessidade de inventar a roda: basta ver como e quanto as plantas transgênicas impactaram positivamente a agricultura desde a sua adoção, há algumas décadas. Uma pesquisa realizada pela PG Economics Limited, empresa de consultoria e assessoria do Reino Unido, constatou que as culturas geneticamente modificadas aumentaram a produção global de alimentos, ração e fibras em quase 1 bilhão de toneladas (1996-2020). Ao mesmo tempo, a tecnologia ajudou os agricultores a reduzir o impacto ambiental associado às suas práticas de proteção de cultivos em mais de 17%.
Os resultados da pesquisa foram apresentados em três artigos revisados por pares na revista GM Crops and Food. Universidades e empresas florestais, em várias partes do mundo, têm conduzido pesquisas sobre o uso da transgenia como ferramenta biotecnológica complementar aos programas de melhoramento genético convencionais. Na maioria dos casos, a ideia é usar a engenharia genética para inserir características que possam adicionar desempenho e/ou resiliência às árvores melhoradas pelas técnicas clássicas.
No Brasil, já existem árvores de eucalipto geneticamente modificadas, que foram aprovadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que atesta a sua segurança para a saúde humana, animal e para o meio ambiente. A CTNBio tem seu funcionamento ordenado pela Lei de Biossegurança (Lei nº 11.105/2005), que harmonizou o ambiente institucional e hoje é reconhecida internacionalmente como uma das mais rigorosas e completas do mundo.
As aprovações obtidas até o momento endereçam questões-chave para que possamos produzir mais com menos, impactando positivamente os seguintes aspectos da produção:
• Produtividade: mais madeira por área plantada, sem aumento do uso de recursos;
• Tolerância a herbicidas: controle mais eficiente e mecanizado da mato-competição, com maior segurança e temporalidade nas aplicações, resultando em menor uso de herbicidas;
• Resistência a insetos (lagartas desfolhadoras): protege os plantios, sem o uso de inseticidas.
Além dos produtos já aprovados, pesquisas em andamento desenvolvem árvores com maior eficiência fotossintética e melhor qualidade da madeira, agregando benefícios ambientais e sociais aos plantios e às fábricas de celulose.
Diante desse imenso potencial positivo, uma pergunta precisa ser endereçada com urgência: por que as árvores geneticamente modificadas ainda não fazem parte da silvicultura moderna em escala capaz de melhorar os modelos de produção? Uma das grandes barreiras continua sendo a proibição, por parte dos sistemas de certificação florestais, do uso comercial de árvores geneticamente modificadas, mesmo quando estas já contam com a aprovação legal quanto à biossegurança.
Diante dessas barreiras, nos deparamos com algo inusitado: ao comprar um cereal matinal, muito provavelmente levaremos para casa um alimento produzido a partir de milho ou trigo transgênico, — cuja embalagem, no entanto, não pode conter papel produzido por árvores geneticamente modificadas. Convenhamos, isso parece contraditório, pelo menos na opinião de muitos cientistas que trabalham com biotecnologia.
O caso do Forest Stewardship Council (FSC) é, talvez, o mais emblemático. Sua Política de Organismos Geneticamente Modificados entrou em vigor em maio de 2000 (ou seja, está prestes a completar 26 anos) e nunca foi atualizada. Ela determina que árvores geneticamente modificadas não podem ser plantadas comercialmente em florestas certificadas pelo FSC, baseando-se no Princípio da Precaução e considerando nove riscos potenciais. É compreensível que, à época, alguns desses riscos realmente demandassem pesquisas adicionais, mas passadas mais de duas décadas não há motivo para que não sejam revisitados.
A ciência evoluiu muito nos últimos anos, e a literatura científica demonstra que nenhum dos riscos levantados se confirmou. No mínimo, o que se espera de um órgão como o FSC é a abertura ao diálogo e ao aprendizado, algo que está em linha com sua própria missão.
Em 2023, o FSC deu sinais de que poderia avançar nesse tema ao debater o Genetic Engineering Learning Process (GELP) – Processo de Aprendizagem sobre Engenharia Genética –, iniciativa idealizada para investigar os riscos e benefícios do uso da engenharia genética na silvicultura. O objetivo daquele projeto não era, a princípio, mudar as regras atuais, mas ampliar o conhecimento científico sobre o assunto, com apoio da academia. Infelizmente essa iniciativa foi encerrada antes mesmo de começar e, por isso, o FSC continua no mesmo lugar em que estava há 26 anos, o que é inconcebível diante dos desafios atuais e das novas contribuições da ciência.
Finalizo este artigo com uma reflexão: o planeta clama por ajuda, e a produção sustentável de biomassa, por meio das árvores plantadas, é uma das principais alternativas para substituição de produtos de origem fóssil, um dos responsáveis pelo aumento das emissões de CO2. O setor de árvores plantadas continuará dando a sua contribuição, mas poderá entregar ainda mais, utilizando menos recursos naturais, desde que possa adotar inovação de ponta, como as árvores transgênicas, de forma complementar às técnicas tradicionais. Academia, empresas e certificadoras têm a responsabilidade de se unir em busca de uma solução para o impasse atual, pois, enquanto nada é feito, a pressão sobre o planeta continuará aumentando.