Produtos de origem florestal fazem parte do dia a dia das pessoas desde o início da humanidade. Desde sua utilização como combustível para fogo, coisa que ainda fazemos hoje em dia, até suas aplicações mais recentes em produtos de alta tecnologia como curativos, cosméticos e alimentos. Há também suas utilizações mais tradicionais, como produção de celulose, para indústrias de papéis e embalagens, geração de madeira serrada e painéis de madeira, direcionados para móveis e construção civil, produção de carvão vegetal, ambos para cocção de alimentos e como biorredutor na siderurgia.
Em contrapartida, apesar da importância dos produtos de origem florestal na história da humanidade, a cada dia novas alternativas surgem para substituir a madeira em diversos mercados, desde novas tecnologias para construção civil a opções de geração de energia.
Este cenário fez com que a demanda por madeira a nível global (Quadro1) permanecesse praticamente estável nos últimos 20 anos, com um discreto incremento de apenas 0,7% ao ano, impulsionado principalmente pelo aumento da demanda por celulose química no período, que cresceu aproximadamente 1% a.a.
Esta estabilidade na demanda global acaba sendo refletida nos preços de comercialização de produtos do setor florestal, que permaneceu muito estável entre 2010 e 2020, atingindo seu máximo em 2022 durante o auge da pandemia, mas já mostrando sinais de retração em 2023 e 2024. (Quadro2)
Entretanto, a estrutura de mercado destes produtos também vem mudando ao longo do tempo. Hoje, a árvore plantada no Mato Grosso do Sul pode ser transformada em celulose em São Paulo, exportada para a China para virar papel, para então ser utilizada na embalagem de um celular que será vendida Reino Unido. Outra árvore plantada em Santa Catarina pode ser levada a uma serraria no Paraná, virar tábuas de madeira que serão usadas numa cerca nos Estados Unidos, enquanto a serragem gerada foi transformada em pellets que irão virar aquecimento residencial na Alemanha. Isso significa que o local onde a floresta será plantada não é mais determinado pelo mercado consumidor, mas sim pela localização onde é mais barato de ser produzido.
Neste mesmo período, vemos uma mudança significativa na origem da madeira consumida no mundo. Nos anos 2000, a América do Norte era disparadamente o maior produtor de toras de madeira no mundo, representando 38% do share global. (Quadro 3) Entretanto, desde 2007 eles perderam esta posição e vêm caindo ano após ano. Esta fatia de mercado vem sendo absorvida pela Ásia e América do Sul ao longo dos anos, principalmente em função da alta competitividade de custos nestas regiões.
Uma das principais vantagens que estes continentes possuem para conseguir capturar esta fatia de mercado é a sua maior produtividade florestal, que, aliada a menores custos de produção, proporciona um ambiente extremamente competitivo. (Quadro 4)
Entretanto, para o Brasil, este cenário vem sofrendo alterações ao longo dos anos. Como exemplo, o preço dos fertilizantes aumentou quase 300% neste mesmo período. (Quadro 5)
Fertilizantes são apenas um dos muitos custos envolvidos na produção florestal. Anualmente, a IBA divulga seu indicador de custos florestais, que compreende a evolução de todos os fatores que afetam o setor, desde salários, preço de fertilizantes, mudas, herbicidas, arrendamento de terras, combustível etc.
Este indicador mostra que entre 2016 e 2020, o País possuía um aumento discreto de custos, entretanto, após a pandemia, os custos relacionados à atividade florestal dispararam. Contudo, no sentido contrário, as produtividades florestais neste mesmo período apresentaram uma queda significativa. (Quadro 6)
A combinação destes fatores representa uma potencial perda de competitividade brasileira frente ao mercado mundial de produtos de madeira, ocasionando uma pressão nos produtores florestais brasileiros.
A madeira é o insumo mais relevante no nosso principal produto florestal de exportação, a celulose de mercado, e esse custo representa valores acima de 50% em todos os produtores do mundo e, por isso, é o grande item a ser melhorado se queremos nos manter competitivos, como sempre fomos.
Veja os detalhes da composição do Custo Caixa no Quadro 7.
Em cima de tudo isto, temos mais um desafio crescente à frente, o clima. Quando olhamos o histórico climatológico no vale da celulose, Mato Grosso do Sul, que é um dos maiores produtores de floresta do Brasil, é possível identificar uma redução na pluviosidade média anual da região, sendo que nos últimos 8 anos, apenas um deles atingiu a média histórica da região, que é de 1220 mm de chuva anual. (Quadro 8)
O Brasil ainda é líder mundial em produtividade de florestas plantadas de eucalipto, com médias de 30–45 m³/ha/ano em muitas regiões. Mas os custos da terra, logísticos e operacionais têm reduzido essa vantagem quando somos comparados com outros países produtores, principalmente em alguns países da Ásia.
Para compensar essa distorção, temos de rever nossos esforços para aumentar rapidamente a produtividade de nossas florestas, e minha melhor aposta seria na biologia molecular, genética, fisiologia e ciência de dados. Com aplicação desse conhecimento, poderíamos conseguir um novo salto de produtividade e sustentabilidade.
Vamos explorar caminhos como a metabolômica (seleção precoce e redução de risco), a metagenômica (menor uso de fertilizantes), a poliploidia (maior biomassa), o melhoramento genético rigoroso (ganho genético a médio e longo prazo) e o OGM (ganho genético acelerado, salto de produtividade, resistência a pragas) e transformar as florestas de eucalipto.
A Tecnologia da Árvore representa a evolução natural da silvicultura brasileira. Se no passado a revolução foi silvicultural, o futuro será genômico, metabólico e microbiológico.
O eucalipto deixa de ser apenas uma cultura florestal de alta produtividade e passa a ser um organismo modelado com precisão científica, capaz de responder aos desafios climáticos, industriais e ambientais do século XXI. A floresta do futuro já começou — e ela nasce no DNA da árvore.