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Edimar de Melo Cardoso

Diretor Industrial da Aperam South America

OpCP83

A produção de aço através de rotas sustentáveis: o diferencial brasileiro
O aço é a espinha dorsal da civilização moderna, essencial para infraestrutura, transporte e construção; é, em síntese, para a vida. A indústria siderúrgica global é responsável por cerca de 7% a 8% das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), o que a coloca no centro do debate sobre descarbonização.
 
No cenário mundial, a produção de aço bruto atingiu 1,87 bilhão de toneladas em 2020, com a China liderando o setor e respondendo por 56,7% do volume total. A intensidade média global de emissões foi de 1,91 t de CO2 por tonelada de aço bruto em 2022.

Nesse contexto, o Brasil se posiciona como um player relevante. Em 2020, o País produziu 31,1 milhões de toneladas de aço bruto, sendo o 9º maior produtor mundial. A pegada de carbono do aço brasileiro foi estimada em 1,93 t CO2/t de aço bruto em 2022, valor próximo à média global. Apesar dos desafios, a indústria nacional possui diferenciais tecnológicos e energéticos que a colocam em posição de destaque nas rotas mais limpas de produção.

As rotas de produção de aço:
A produção de aço ocorre principalmente por duas rotas tecnológicas.
• Rota Integrada (alto-forno/conversor a oxigênio – BOF/LD): utiliza minério de ferro e agentes redutores como coque ou carvão vegetal no caso brasileiro para produzir ferro-gusa, posteriormente refinado em aço. 
• Rota Não Integrada (forno elétrico a arco – FEA/EAF): utiliza principalmente sucata metálica (aço reciclado). 

No Brasil, a produção em 2022 foi majoritariamente pela rota integrada (75,1%), seguida pela rota de forno elétrico com sucata (23,8%).

Rotas mais sustentáveis e a realidade brasileira:
As rotas mais sustentáveis buscam reduzir o uso de combustíveis fósseis e priorizar matérias-primas de menor impacto ambiental. Nesse aspecto, o Brasil possui um diferencial importante: sua matriz energética diversificada é uma das mais limpas do mundo, com forte participação de fontes renováveis como hidrelétrica, eólica, solar e biomassa.

Esse fator é decisivo, pois parte relevante da pegada de carbono da indústria está associada ao consumo energético. Quando essa energia é de baixo carbono, o produto final já carrega uma vantagem ambiental significativa.

A rota de forno elétrico a arco, baseada na reciclagem de sucata, é reconhecida globalmente por sua sustentabilidade, apresentando intensidade média de emissões de 0,68 t CO2/t de aço bruto. O Brasil, com quase 24% da produção nessa rota, já capitaliza essa alternativa de menor impacto.

O carvão vegetal de floresta plantada, um diferencial agroindustrial-florestal:
O principal diferencial brasileiro, e o ponto focal neste artigo, reside no uso do carvão vegetal de floresta plantada e pensada, que atua como agente redutor na produção de ferro-gusa.
 
Sustentabilidade e renovabilidade:
Enquanto o carvão mineral é uma fonte fóssil e finita, o carvão vegetal, quando proveniente de florestas plantadas de eucalipto, é considerado uma fonte de energia renovável. O carbono emitido durante a carbonização da madeira e a emissão dos alto-fornos na indústria são neutralizados pelas florestas plantadas e nativas através da fotossíntese e produção de biomassa das mesmas, o que gera um balanço positivo entre emissões e remoções florestais, tornando todo o ciclo de produção do ferro gusa neutro em emissões de CO2. 
 
Na Aperam, isso se materializa em mais de 100 mil hectares de florestas certificadas FSC, que fornecem carvão vegetal utilizado diretamente em nossos fornos. Além disso, com esse modelo, conseguimos medir o impacto de nossa produção de aço, com uma intensidade de emissões de CO2 em 2023 de -0,048 tCO2e por tonelada de aço (balanço neutro), com base em nosso processo renovável.

Relevância nacional e oportunidades no cenário global:
No Brasil, os altos-fornos a carvão vegetal são responsáveis por 25% a 30% da produção nacional de ferro-gusa. Globalmente, eles representam apenas 1% da produção mundial de ferro-gusa, destacando a singularidade da tecnologia e do sistema produtivo brasileiro. 
 
O Setor agroindustrial-florestal:
Esta rota cria um ciclo virtuoso, conectando o setor siderúrgico diretamente à agroindústria florestal. O manejo sustentável e a expansão das florestas plantadas para fins energéticos não apenas garantem a matéria-prima para o aço, mas também impulsionam o desenvolvimento econômico e tecnológico no campo, gerando coprodutos e reduzindo o custo do produto final, além de gerar valor para as comunidades e sociedade.

Oportunidades para o Brasil
Os diferenciais do Brasil como a alta participação de sucata, matriz energética limpa e a rota baseada em carvão vegetal de florestas plantadas abrem oportunidades estratégicas. Entre elas está o desenvolvimento de certificações para aço de baixa pegada de carbono, ampliando a competitividade em mercados cada vez mais exigentes quanto à origem das emissões, como no caso do Mecanismo de Ajuste de Carbono da União Europeia.
 
Além disso, o modelo brasileiro pode se tornar referência para países com forte setor florestal, posicionando o Brasil como líder em tecnologias de descarbonização da siderurgia. O País possui condições únicas para conciliar produção industrial e sustentabilidade. O avanço desse diferencial dependerá da articulação entre indústria, cadeia agroflorestal e políticas públicas capazes de incentivar a expansão sustentável das florestas plantadas e valorizar o aço de baixo carbono.
 
Ao enfrentar esses desafios, o Brasil poderá consolidar sua posição não apenas como um grande produtor, mas como referência global em aço sustentável, gerando valor econômico, ambiental e social para a sociedade.